Na cidade

O latoeiro, a parteira e outras figuras importantes desta aldeia foram imortalizadas em murais

Mr Kas, como é conhecido no meio artístico, pintou três obras que retratam os habitantes e as tradições locais da localidade no Douro.

Durante uma edição do Douro Streetart Festival, um festival de arte urbana, o artista português Mr Kas pintou o mural “Gerações”, na aldeia de Riodades, em São João da Pesqueira. A obra, que celebrava a música local e a ligação entre avós, pais e filhos, acabou por chamar a atenção não só da autarquia local, mas também dos residentes.

“Sou diretor artístico desse festival e, na altura, quando fiz a pintura com um artista do Porto, a Junta de Freguesia de Riodades começou a pedir-me outros murais”, começa por contar Mr Kas, nome artístico de Nelson Marques, de 45 anos e natural do Porto.

Em “Gerações”, o artista celebra também a música tradicional, com a pintura de acordeões e clarinetes, instrumentos ligados à tradição e  à banda filarmónica local. O mural foi feito na Escola de Riodades.

A segunda obra feita naquela localidade, porém, já teve uma vertente mais pessoal. “A Parteira” foi pintado em Vale de Penela, poucos meses depois de “Gerações”, em 2025, e homenageava a antiga parteira da região, uma figura incontornável da história local que ajudou a trazer ao mundo grande parte da população da aldeia.

“Esta parteira que representei era aquela que fazia partos em casa. Isso hoje em dia está quase a desaparecer, porque é tudo feito nos hospitais”, aponta o artista.

O mais recente, “O Latoeiro”, foi inaugurado a 25 de julho, com direito a uma festa na aldeia, com os residentes, a Junta de Freguesia e um bolo para celebrar o terceiro mural da coleção. A obra é uma homenagem ao Pai Manel, um antigo latoeiro que dedicou toda uma vida ao fabrico artesanal de regadores, recipientes e outras peças indispensáveis ​​ao quotidiano da população. 

“Esta pintura foi feita mesmo em frente à antiga oficina onde o Manel trabalhou durante muitos anos e que hoje é a casa de um senhor”, refere o artista. “É como se ele estivesse a olhar para o passado, de certa forma.”

 
 
 
 
 
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Todos os murais têm sido recebidos com carinho pela população, que já pediu ao artista para fazer um novo, desta vez em homenagem à Nossa Senhora da Alegria, uma santa de Riodades. “Sempre que estou lá a pintar, eles chegam a perguntar quando vou pintá-la”, diz. “É possível que aconteça no futuro.”

Além disso, esta proximidade com a população da aldeia, tem ajudado o artista a levar a arte urbana mais além. Muitos residentes passaram também a vê-la com outros olhos, sem julgamentos preconcebidos que tendem a ser comuns, sobretudo entre os mais velhos. 

“A arte urbana nasce nas grandes cidades e é engraçado levá-la aos meios rurais porque para eles é uma novidade”, aponta. “Quando apresenta personagens com quem a comunidade se identifica, é muito importante porque as pessoas olham para os murais e veem ali um reflexo da história da vida deles.”

Mr Kas refere que o facto de ter começado a pintar pessoas conhecidas na região fez com que a população começasse a “perceber a mensagem” transmitida pela arte urbana. Além disso, o artista refere tenta integrar todos os murais na paisagem onde estão inseridos — quer ao nível do enquadramento, quer das cores.

O interesse pela arte surgiu quando ainda era miúdo. O pai já trabalhava como pintor, mas foi no final dos anos 90 que Mr Kas começou a dedicar-se ao graffiti na cidade onde cresceu, no Porto.

Com o passar do tempo, as técnicas foram evoluindo, o que fez com que o artista vivesse noutros países da Europa, como Espanha, Bélgica e Inglaterra. Levou também a sua própria arte para o outro lado do oceano, com murais no Rio de Janeiro, no Brasil. Há cerca de sete anos, voltou a viver em Portugal.

Embora não consiga realizar pinturas em aldeias e localidades mais remotas com frequência, o criativo explica que este trabalho é, muitas vezes, um dos mais gratificantes.

“O meu objetivo é conseguir levar a arte urbana a regiões mais pequenas. É muito especial que os locais tenham acesso a este mundo e que não exista apenas nas grandes cidades”, explica “Além disso, acabo por criar uma relação mais genuína, porque as pessoas convidam-me muitas vezes para beber um copo de vinho ou oferecem alimentos durante a criação da obra.”

Pode acompanhar o trabalho de Mr Kas através da página de Instagram do artista.

Carregue na galeria para ver as obras que o artista fez na aldeia de Riodades.

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