Na cidade

O miúdo que torna estranhos em pessoas (mais) felizes — um vídeo no TikTok de cada vez

Odiava redes sociais, mas num ano, juntou mais de 1,7 milhões de seguidores com uma pergunta: “Como é que te posso fazer feliz?”
Aos 21 anos, é um dos maiores tiktokers portugueses

“Como é que eu te posso fazer feliz?”, perguntou Lucas Rodrigues a um estranho com quem se cruzou na rua. A resposta não foi surpreendente. “Dá-me 10 euros.” Na conta bancária, o jovem de 21 anos tinha apenas 30 euros. Gastou um terço do orçamento na primeira tentativa de experimentar o conceito que “achava estúpido”, mas que se revelou um sucesso viral.

Hoje, é o Lucas With Strangers, o Lucas com estranhos — e foi essa relação com os estranhos que catapultou o seu canal no TikTok para o sucesso, com mais de 1,7 milhões de seguidores. “Assim que me pediram logo dez euros, fiquei com medo do dinheiro que iria gastar nestes vídeos”, conta à NiT. “Mas a segunda pessoa que abordei pediu-me simplesmente um abraço. Percebi que havia esperança.”

A “ideia estúpida” partiu da sugestão de uma amiga, mas o caminho que tornou tudo possível começou anos antes e envolveu uma saída precoce da faculdade, um episódio traumático e um salto para o desconhecido. Valeu a pena: hoje é um dos tiktokers mais conhecidos do País e até foi convidado para subir aos palcos do Rock in Rio.

Tudo isto é estranho quando Lucas explica que não era um miúdo como os outros. “Odiava redes sociais”, recorda. “Nunca me identifiquei com elas. Quando entrei para o curso de gestão, toda a gente andava preocupada com a produtividade e evitava as redes. Acabei por fazer o mesmo.”

Sonhou ser médico, advogado, músico, ator. Ainda imaginou um cenário onde seria um jovem gestor e empreendedor. Seguir o exemplo do pai, empresário, “tentar por ideias a funcionar”. Acabaria por se inscrever no curso de Gestão e Marketing, apenas para o abandonar ao fim do primeiro ano.

“Sempre fui uma pessoa com muitas ideias. Muita criatividade, mas era também muito desorganizado”, recorda. Desde miúdos que todos reparavam na energia inesgotável. Era hiperativo. Os pais desconfiaram de que esse comportamento teria uma explicação, mas só com o passar dos anos é que perceberam que poderia ser algo mais do que apenas uma acumulação excessiva de energia. “Em 2020 fui diagnosticado com défice de atenção”, conta sobre o problema que aprendeu a transformar em super-poder.

“Tem piada porque é um dos motivos pelos quais sou bem-sucedido no TikTok. Sei editar os vídeos de forma a manter a atenção das pessoas que, nessa rede social, é o único fator que importa.”

@lucaswithstrangers

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♬ Kiss Me More (feat. SZA) – Doja Cat

Saído da faculdade, tinha a ambição de criar o seu primeiro negócio — e o desejo de que a prática pudesse ser melhor professora do que a teoria académica. Rapidamente montou uma frota de carros para trabalharem na Uber, até que no arranque, um episódio traumático o obrigou a repensar tudo.

Estava a acampar com a namorada quando, durante a noite, a ouviu gritar. Dentro do bungalow estavam dois homens armados com facas. “Começaram a assediá-la, depois ameaçaram-nos de morte e roubaram-nos tudo. Trancaram-nos durante três horas, enquanto assaltaram outras pessoas no parque”, recorda.

Acabariam por escapar incólumes e os criminosos também. Os dias que se seguiram foram atribulados, mas Lucas tentou “prosseguir com a vida e a rotina”. Rapidamente percebeu que não seria possível.

“Eles não tinham sido apanhados e sempre que andava na rua, olhava para trás. Comecei a ficar paranoico e a ter ataques de pânico na rua”, conta. “Depois comecei a associar os ataques ao facto de estar na rua e fechei-me em casa. Durante um ano, só saía muito esporadicamente.”

Foi diagnosticado com stress pós-traumático após muitas consultas de psicologia, psiquiatria e outras tantas sessões de psicoterapia. O isolamento durou perto de um ano e levou-o até uma solução curiosa e inesperada.

A esperança chegou através da personagem de Jim Carrey no filme “Yes Man”, um homem que dizia que não a tudo, mas que se desafia a si próprio a dizer que sim a tudo. “Identificava-me muito com a personagem e desafiei-me a mim mesmo a dizer que sim a tudo durante ano e meio.”

Aos poucos, foi conseguindo sair de casa e percebeu que tinha saudades de estar e falar com estranhos. “Fascinavam-me porque estavam todos tão confortáveis na rua, quando eu tinha medo. Queria saber o que ia na cabeça deles”, recorda.

Decidiu então pôr novamente o lado criativo a trabalhar e iniciou um projeto para criar a maior coleção de selfies com estranhos. Pelo caminho, metia conversa, procurava novas histórias, até que, quando ouviu a sugestão de uma amiga, decidiu passar a ideia para as redes sociais das quais se tinha alheado.

“Desafiou-me a fazer algo para o TikTok, porque sabia que eu odiava. Achava que era uma rede constrangedora, mas isso também era parte do desafio.” Tal como Carrey, Lucas tinha que dizer que sim. “Lá fiz o primeiro vídeo, sem qualquer expectativa de sucesso. Contava ter 100 visualizações, se tanto.”

Só quer fazer pessoas felizes.

Pelo meio, percebeu que os medos e os ataques de pânico tinham ficado para trás. Começou a sentir-se mais seguro na rua. “Agora é ao contrário, não consigo estar em casa.”

Apesar de os primeiros vídeos não serem nenhum desastre de audiências — têm, hoje, mais de cem mil visualizações —, o sucesso viral só chegou quando decidiu que iria ajudar os estranhos a serem mais felizes. E a ideia surgiu por acaso, durante um dia chuvoso no Porto.

“Ninguém me respondia às perguntas e reparei que havia muita gente sem guarda-chuva. Lembrei-me que podia ajudá-las a abrigarem-se”, conta. Puxou do seu bizarro e colorido guarda-chuva em forma de leão e foi surpreendendo os estranhos que iam agradecendo a ajuda. Já Lucas chegou a casa encharcado, constipado e com uma “sensação muito diferente” da que havia trazido de outras incursões.

“Sentia que já não era um peso para o mundo. Durante aquele meu ano duro, toda a gente fazia coisas por mim. Agora era eu a fazer coisas pelos outros.”

Lançou-se no serviço de dar abraços, flores e elogios — e os resultados eram bons, pelo menos até que as ideias se esgotaram. O que é que poderia fazer para tornar as pessoas mais felizes? A resposta era óbvia: em vez de tentar adivinhar, bastava perguntar-lhes. Foi isso que fez.

Há respostas para todos os gostos. Há quem queira um hambúrguer, outros preferem um abraço. Mas é nos casos mais curiosos e complicados que Lucas se sente mais concretizado. É normal vê-lo a abordar os sem-abrigo e oferecer-lhes cortes de cabelo, refeições. Tudo isso, claro, custa dinheiro — dinheiro que não tinha.

“Ao fim de três vídeos já tinha gasto todo o dinheiro que tinha, apesar de pedirem coisas pequenas, baratas”, recorda. Pediu então ajuda aos seus seguidores que, em pouco tempo, angariaram perto de 300 euros. Procurou sempre reinvestir o dinheiro que juntava nestes presentes para estranhos. Hoje, o cenário mudou.

“Neste momento já consigo juntar dinheiro sem reinvestir tudo. Aliás, se quisesse reinvestir tudo, não ia ter tempo para todos os vídeos”, explica o jovem de Vila Nova de Gaia que, dessa forma, pôde assumir-se como um criador de conteúdos profissional. “Hoje posso viver apenas disto, dá-me mais tranquilidade, e acho que é a minha profissão: concretizar o sonho de pessoas. Não sei durante quanto tempo vai ser possível, mas enquanto durar, é a melhor profissão do mundo.”

O presente da felicidade tornou-se também mais complexo de engendrar. Hoje, quando não é o próprio a financiar os custos, consegue convencer marcas a patrocinarem algumas ofertas. Encontrar os alvos destas boas ações também deixou de ser um exercício completamente aleatório.

“Inicialmente, eram pessoas que apanhava na rua. Agora recebo muitos pedidos nas redes sociais e, sempre que acho que são dignos e concretizáveis, avanço”, explica. Para tentar manter a genuinidade da reação nos vídeos, procura sempre surpreender os visados com a ajuda secreta dos amigos.

Por vezes, os estranhos passam a ser mais do que isso. Foi o caso do seu último vídeo, com Félix, um sem-abrigo com quem travou amizade. “Nunca me pedia nada além de comida para os cães ou para ele, mesmo quando repetia que podia pedir-me algo mais”, conta. “Acabei por insistir e ele falou-me na falta de dentes. Abriu-se comigo, disse que lhe criava um problema de autoestima, que não lhe permitia arranjar emprego.”

Durante cinco meses, Lucas tentou encontrar uma solução para o problema de Félix, que pôde fazer um makover total e recebeu ainda uma dentição nova. “Estava com ele todas as semanas, às vezes diariamente. Criámos uma grande proximidade e quando consegui concretizar o sonho, fiquei comovido. É um vídeo que tem uma força diferente dos outros.”

@lucaswithstrangers

Este é um vídeo diferente… com uma pessoa muito especial 🥹 nunca pares de sorrir Félix ❤️

♬ New Home (Slowed) – Austin Farwell

Em mãos tem agora outro projeto complicado: o de conseguir dar a uma jovem a nova cadeira de rodas elétrica de que tanto precisa. Esbarrou na relutância de diversas empresas, mesmo quando poderiam usar o canal de Lucas e os seus 1,7 milhões de seguidores como montra. Ao fim de dois meses, diz já ter conseguido toda a ajuda necessária.

Esta preocupação com os estranhos necessita, por vezes, de uma pausa egoísta. É Lucas quem o admite, sobretudo por estes dias. “Tive uma pequena crise de identidade porque percebi que o ego me estava a subir à cabeça”, nota.

O caso de Lucas é curioso e muito particular, num mundo digital povoado por criadores de conteúdos e influenciadores que fazem da ostentação o seu modus operandi. “Por vezes dou por mim a cair na futilidade, dos problemas do ego. É difícil mantermo-nos de cabeça limpa e focada, quando estamos rodeados de todas as vantagens de sermos influencers”, diz. “Não queria mesmo ir por esse caminho.”

Sabe que começou o projeto “por outras razões” e que isso o levou a “um resultado diferente”, embora admita não se sentir distinto de outros criadores com quem partilha o espaço nas redes. “Somos humanos e acabamos todos por cair nas mesmas armadilhas e problemas”, nota. “Não me considero diferente. Tento apenas manter o projeto menos focado em mim e mais nos estranhos, em concretizar os seus desejos.”

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