Chama-se Couto Misto, mas muitos portugueses nunca ouviram sequer falar do antigo microestrado ibérico entre Portugal e a Galiza, que chegou a ter cerca de mil habitantes que nunca pagavam impostos. Hoje, embora pertença a Espanha, a região continua a ser conhecida como uma terra de ninguém.
Couto Misto fica a cerca de dois quilómetros da fronteira portuguesa, mais precisamente da freguesia de Tourém, em Montalegre. É constituída por três aldeias: Santiago de Rubiás, Rubiás e Meaus. Isaac Teixeira, um criador de conteúdos de 28 anos, visitou o território em janeiro e encontrou um cenário digno de filme. Além das várias residências fechadas, não existe supermercado, nem lojas ou qualquer apoio à população.
“São aldeias que estão completamente afastadas e completamente rodeadas de montanhas”, descreve à NiT. “Quando fui, estava bastante frio. No topo de algumas montanhas ainda se via que existia neve. Fica mesmo num sítio espetacular.”
O Couto Misto tem as suas origens na Idade Média, com os primeiros indícios a remontarem ao século X. A região foi sempre autónoma e por não pertencer a nenhum país — nem a Portugal, nem à Espanha — tinha alguns privilégios. Os habitantes, por exemplo, não pagavam impostos, estavam isentos de serviço militar, tinham liberdade de comércio (incluindo contrabando, sobretudo de sal e tabaco) e podiam dar asilo a foragidos. O país era governado pelos próprios residentes e a autoridade máxima era um juiz, eleito todos os anos pelos chefes de família das três aldeias.
O território, que se estende por 27 quilómetros, assim se manteve independente durante mais de 700 anos, até tudo mudar a 29 de setembro de 1864. Nessa altura, foi assinado o Tratado de Lisboa, que definiu as fronteiras modernas e integrou as três aldeias no território espanhol, mais precisamente na Galiza.
A medida foi tomada por vários motivos, mas sobretudo porque Couto Misto tinha conflitos frequentes com as autoridades portuguesas e espanholas, especialmente devido ao contrabando de bens ilegais e ao facto de acolher foragidos destes dois países vizinhos.
Desde a assinatura do documento, os residentes de Couto Misto passaram a ficar sujeitos às leis espanholas e perderam todas as regalias. A partir do século XX, muitos destes moradores começaram a deixar as aldeias à procura de melhores condições de emprego e urbanização na América e noutros países da Europa.
Durante este período, a região sofreu um despovoamento quase total, que nunca chegou a ser recuperado. Atualmente, estima-se que apenas 40 pessoas vivam entre as três aldeias. A grande maioria mudou-se sob influência de Javier, filho de uma antiga residente do Couto Misto que regressou à região em 2020, com a mulher e os dois filhos.
“A região nunca esteve completamente desabitada, mas chegou a ter só 14 pessoas”, explica Issac. “Foi quando o Javi decidiu voltar e dar início a esse projeto de reabilitação. Desde que ele chegou, já conseguiu quase duplicar a população e o objetivo dele é chegar aos 100 moradores”.
Durante a visita a esta região desconhecida por quase toda a gente, o português encontrou Javier, que tem feito o possível para tornar as aldeias mais atrativas. “É mesmo difícil porque aquilo é remoto, e depois também é necessário criar oportunidades de emprego e tudo mais.”
O criador de conteúdos explica que o projeto de Javier consiste em “oferecer”, por um tempo determinado, as casas desabitadas a outras famílias que tenham interesse em viver na região.
“Ele pede a alguns dos donos dessas casas ou a familiares que estão distantes, se pode as utilizar. Faz um pequeno restauro às propriedades e depois deixa as pessoas viverem lá durante cerca de dois meses para perceber se elas gostam ou não. Se gostarem, então ficam lá a viver.”
Todas as casas são de pedra. Porém, muitas delas já estão “completamente a cair.” “Também existem muitas que não estão habitadas, mas que ainda estão minimamente apresentáveis”.
Nos últimos anos, o Couto Misto tem atraído muitos turistas que aproveitam para visitar a região. Ainda assim, Isaac alerta que, por ali, não existem lojas, supermercados, restaurantes, “nem um café sequer.”
“O Javi disse-me que quando as pessoas das aldeias querem tomar um café com mais pessoas, juntam-se numa das casas para conversar”, aponta. “E também conseguem ir a restaurante em Portugal, a viagem de carro dura cerca de 15 minutos.”
O português revela que o pequeno filme que partilhou no Instagram e no YouTube sobre a região foi um dos que mais gostou de fazer. “Há muitos vídeos que faço só quando sinto que há algo que vale mesmo a pena e o Couto Misto foi um desses, sem dúvida”, aponta. “O sítio vale mesmo a pena ser visitado.”
Leia também o artigo da NiT sobre a aldeia abandonada nos Pirenéus espanhóis onde só vive uma pessoa. E carregue na galeria para ver algumas fotografias do Couto Misto.

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