Na cidade

O País evolui, Setúbal fica para trás. Acabaram as trotinetes e bicicletas elétricas na cidade

A operadora Bolt deixa duras críticas à autarquia: "O montante mínimo exigido para cada licença está para lá do que é passível ser comportado”.
Foram milhões de viagens.

Em Setúbal, o conceito de mobilidade sustentável começou a ser implementado no dia 5 de junho de 2021, com o projeto-piloto de trotinetes elétricas partilhadas para utilização individual da população, nas deslocações urbanas, em parceria com a Bolt. Seguiram-se as bicicletas elétricas, a 3 junho de 2022. Mas aquilo que parecia ser um passo no sentido certo acabou numa tremenda desilusão. Hoje em dia, ao contrário do que acontece em quase todas as cidades de Portugal, já não é possível alugar trotinetes ou bicicletas elétricas. Tudo porque, em janeiro, a Bolt rescindiu a parceria com a Câmara Municipal de Setúbal. 

“Confirmamos que, para já, fomos forçados a cessar atividade em Setúbal no decurso de uma hasta pública que, numa primeira fase, ficou deserta de qualquer operador”, afirma Frederico Venâncio, responsável de micromobilidade da Bolt em Portugal. No mapa da aplicação, onde era possível ver a localização dos veículos e dos respetivos pontos de estacionamento, a zona de Setúbal encontra-se a vermelho. 

Setúbal foi uma das primeiras cidades em Portugal a iniciarem operações com a Bolt e a primeira do sul da Europa a instalar uma doca de carregamento no Interface de Transportes. No entanto, de acordo com a empresa, agora, “o montante mínimo exigido para cada licença está para lá do que é passível ser comportado”. 

Frederico Venâncio acrescenta: “Assim, lamentamos ver uma cidade-referência a nível europeu para a Bolt deixar de ter atividade de micromobilidade; não obstante, estamos completamente abertos ao diálogo para, quem sabe, voltarmos a servir os setubalenses de meios de deslocação alternativos e sustentáveis”.

Recorde-se que os setubalenses realizaram milhões de viagens sustentáveis nas trotinetes e bicicletas. Segundo dados da Bolt, foram efetuadas mais de 1,3 milhões de viagens e percorridos mais de 2,1 milhões de quilómetros, o que corresponde a ir do extremo norte a sul do País 3818 vezes. Estes números provam bem o sucesso do projeto na cidade.

De acordo com a empresa, “a adesão dos sadinos demonstra a boa integração que a Bolt teve na cidade”. Depois de dois meses de utilização das trotinetes Bolt, em agosto de 2021, Setúbal já era uma das cidades da Europa com mais utilizadores de trotinetes elétricas, com mais de 346,188 quilómetros percorridos.

Numa fase inicial, chegaram cerca de 300 trotinetes à cidade. No caso das bicicletas e, seguindo a mesma lógica de projeto-piloto, disponibilizaram-se 50 equipamentos para usufruto da população. A primeira estação de carregamento foi inaugurada em junho de 2022, com o objetivo de “promover a micromobilidade responsável, segura e sustentável nos centros urbanos”.

Esta iniciativa surgiu também como um local seguro e adequado para os veículos, promovendo melhores hábitos de estacionamento, já que era obrigatório deixá-las na zona de carregamento. Depois de seis meses da instalação da estação de carregamento no Interface de Transportes, a Bolt registou mais de 25 mil viagens, um número que contrastava em grande escala com os 1600 estacionamentos que se haviam registado anteriormente na zona atualmente abrangida pela estação. Agora, os setubalenses terão de voltar aos modelos de transporte tradicionais, mais poluentes, caros e antiquados. 

Câmara de Setúbal diz que não existiu “qualquer rescisão unilateral”

Em declarações à New in Setúbal, a autarquia admite que “não ocorreu, em rigor, qualquer rescisão com a empresa que garantia este serviço no concelho”, acrescentando que o “serviço prestado era regulado por um memorando entre as partes”, que definia que “a colaboração com a empresa, regulada por idêntico instrumento datado desde 2021, seria prolongada por mais seis meses”. Esta proposta foi aprovada pelo executivo municipal, a 7 de junho de 2023.

O mesmo documento “determinava que seria realizada uma hasta pública para a prestação destes serviços, à qual qualquer empresa, incluindo a Bolt, poderia concorrer em igualdade de circunstâncias”, e que definiu o “critério mínimo de serviço que merece ser salvaguardado pelo operador de serviço, com especial preocupação referente ao nível de serviço prestado, território abrangido e os postos de estacionamento regulados”. A hasta pública foi realizada em dezembro de 2023, e ficou deserta, sendo que a própria “Bolt optou por não concorrer”. Não existiu “rescisão unilateral”, mas “um ato que decorre de deliberações camarárias que a Bolt conhecia perfeitamente desde 2021”. 

“A Câmara Municipal está a desenvolver todos os esforços para garantir que continuará a haver no concelho de Setúbal a prestação de serviços de mobilidade suave partilhada, nomeadamente com trotinetes e bicicletas elétricas, assegurando o cumprimento de rigorosas regras de serviço, circulação e estacionamento destes veículos”, conclui a autarquia.

A Bolt é uma app europeia com mais de 100 milhões de clientes em 45 países e 500 cidades em toda a Europa e África. A empresa procura acelerar a transição do automóvel pessoal para a mobilidade partilhada, oferecendo melhores alternativas para cada caso, incluindo o transporte de automóveis e trotinetes partilhadas e a entrega de alimentos e mercearia.

 

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