Na cidade

O spot mais instagramável da Arrábida é uma rampa de descolagem ativa de voo livre — e estão a destruí-la

Muitos visitantes acreditam que está desativada, mas a verdade é que continua a ser usada pelos pilotos de voo livre.
A rampa da Arrábida. Foto: Casal Mistério.

Ir a Setúbal sem passar pela Serra da Arrábida é como visitar o Porto e não comer uma francesinha. Este paraíso natural à beira do Sado é ponto de paragem obrigatória para quem vai conhecer a cidade do Sado e ninguém sai de lá indiferente ao azul cristalino das águas do mar e ao verde da serra.

Todos os verões, a Arrábida recebe centenas de turistas e é capa de grandes revistas internacionais de lifestyle e lazer. Um dos sítios mais instagramáveis é a rampa de madeira do miradouro do Portinho da Arrábida, que fica na estrada N379-1. A verdade é que não vai ter grande dificuldade em encontrar o spot, até porque existem sempre filas de carros e motas paradas à beira da estrada. Todos os visitantes têm um único objetivo: conseguir uma fotografia com o ângulo mais original para partilhar no feed do Instagram, tendo uma paisagem incrível como fundo. 

A estrutura de madeira tem cerca de uma dezena de metros de comprimento e, por estar inclinada e suspensa a um metro do solo, cria a ilusão ótica de que estamos quase a cair da rampa ou simplesmente suspensos. Há quem fique sentado, deitado e, os mais aventureiros, ficam mesmo suspensos só com uma mão, como se estivessem em “queda livre”.

Por esse motivo, tem feito parte do roteiro de muitos turistas estrangeiros e até mesmo portugueses que aproveitam as férias para conhecer a cidade do Sado. No entanto, e para tristeza de muitos, a verdade é que a famosa estrutura de madeira não é — ou não deveria ser — nenhum ponto turístico. É antes uma rampa de descolagem de voo livre que continua ativa. Ainda assim é cada vez menos utilizada por causa da quantidade de pessoas que ocupam o espaço durante o dia e que, infelizmente, estão a contribuir para a sua destruição.

O alerta é dado por Eugénio de Almeida, vice-presidente da Federação Portuguesa de Voo Livre (FPVL). “A rampa de descolagem continua ativa, está autorizada pela Câmara Municipal de Setúbal e licenciada pelo Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). Não está abandonada, as pessoas é que estão a estragar a estrutura”, começa por contar à NiS o vice-presidente. 

Esta estrutura foi construída essencialmente para os pilotos de asa delta fazerem a descolagem, “devido à inclinação e velocidade” da rampa. Ainda assim, não significa que não possa ser utilizada também para voo de parapente. “Foi construída por volta dos anos 80, eu próprio andei a construir parte da rampa”, diz. 

Se antigamente passasse por lá um carro numa semana, era muito. Hoje em dia, é impossível contar a quantidade de turistas que param no local num só dia e que fazem fila para tirarem uma fotografia. Se já é difícil para eles, para a prática de voo livre é praticamente impossível. 

“É como se o Aeroporto de Lisboa começasse a ser invadido por civis para irem lá tirar selfies”, compara Eugénio de Almeida. Por causa do incontável número de pessoas que se penduram na rampa, é natural que comece a ficar danificada com o tempo, tornando-se perigosa não só para elas, mas sobretudo para os pilotos de voo livre. 

O vice-presidente da FPVL sublinha ainda que “a rampa está ativa e não desativada”, alertando aos “potenciais procuradores de emoções que pode ser perigoso e pôr em risco a continuidade daquela rampa”, construída para ser o local de descolagem dos pilotos de voo livre e não como ponto turístico.

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