Na cidade

Os autocolantes da fruta enchem cada vez mais os areais das praias — há solução?

Imprescindíveis para os produtores, já existem alternativas ecológicas mas "impraticáveis". O impacto ambiental é ainda desconhecido.
É este o cenário em muitas praias

Todos os dias, Ana Pêgo sai de casa e percorre o areal da praia mais próxima de casa. Pelo caminho, recolhe lixo que lhe desperta a atenção. Nos últimos dias, um pequeno objeto destacou-se.

“Costumo apanhar o lixo de forma seletiva e quando algo me chama à atenção, começo a apanhá-lo. Eu sempre vi os autocolantes embora nunca os apanhasse. Recentemente, percebi que havia mais do que o normal. Decidi apanhá-los todos”, explica à NiT a bióloga marinha, criadora do projeto Plasticus Maritimus.

Em expositores, em livro e no Facebook, o projeto individual vai expondo coleções de objetos estranhos que vão dando à costa e poluindo as praias nacionais. E o mais recente foco de Ana Pêgo tem sido um objeto que está em todas as nossas casas, um pequeno empecilho agarrado às frutas que não devemos comer, mas ao qual devemos estar atentos.

A bióloga recolheu dezenas destes pequenos autocolantes, secou-os, fotografou-os e lançou-os nas redes sociais. A resposta foi surpreendente e unânime: ninguém parece gostar destes omnipresentes adesivos.

“Eu já implico com eles há tanto tempo. Nunca os trago para casa, arranco-os e deixo-os no supermercado. Aquilo não entra em minha casa”, sublinha.

A maioria foi apanhada na Praia das Avencas, na Parede, que faz parte dos seus percursos habituais. A imagem, que mostra largas dezenas destes autocolantes, foi recolhida “num só dia e numa pequena zona da praia”. “Nos dias seguintes andei mais atenta e continuavam sempre a aparecer mais”, nota.

Uma amostra dos autocolantes apanhados por Ana Pêgo

No processo de recolha, reparou noutro fenómeno particular: apesar de visivelmente desgastados pelos rigores do mau tempo e da água do mar, a cola ainda estava bem presente. “Se vieram do mar, é incrível como é que esta cola ainda está tão presente”, nota, apesar dos materiais usados serem perfeitamente seguros para uso alimentar.

Os perigos são outros, aponta a bióloga marinha: “Eles são brancos e brilham, e a mexerem-se na água transformam-se num chamariz para peixes e aves, que os vão ingerir, vão comer plásticos.”

É um facto: estão um pouco por toda a fruta, nomeadamente na que é vendida fora de embalagens, a granel. Não são um capricho. Os stickers, como são chamados, têm um propósito, um objetivo útil.

Além da respetiva marca do produtor ou da origem denominada, a maioria dos autocolantes exibe um código numérico que passa despercebido à maioria dos consumidores. Nele está contida muita informação útil, assente numa codificação a nível mundial que distingue, por exemplo, o país de origem de cada fruta ou o tipo de produção, se é ou não biológica, ou se é ou não geneticamente modificada.

“Os autocolantes são brancos e brilham, e a mexerem-se na água transformam-se num chamariz para peixes e aves, que os vão ingerir”, frisa a bióloga marinha

Um código de quatro dígitos indica, por exemplo, que a fruta foi produzida de forma tradicional, com recurso a pesticidas. Um número de cinco dígitos que começa por oito indica fruta geneticamente modificada; se começar com um nove, será de produção orgânica.

O seu uso é perfeitamente regulado, tanto o papel plastificado como a cola usada para os fazer aderir à fruta são seguros e apesar de não deverem ser digerido, estão certificados para que não possam causar problemas graves caso isso aconteça. O problema principal surge, contudo, quando estes autocolantes acabam por se espalhar pelo meio ambiente.

Estes autocolantes facilmente poderão chegar a centrais de compostagem onde será muito difícil separá-los ou filtrá-los. O mesmo acontece se acabarem nos circuitos de águas residuais, onde acabarão por chegar às estações de tratamento — e onde dificilmente serão travados e impedidos de chegarem às praias.

“Se as cotonetes passam, isso também passará”, frisa Susana Fonseca, da organização ambiental ZERO. À NiT, a ambientalista explica que há ainda muito pouca informação sobre estes autocolantes e o seu impacto no ambiente.

É uma visão comum em todos os supermercados

“Aquilo que podemos dizer enquanto organização é que [os autocolantes] deveriam ser usados no mínimo possível, procurando encontrar outras formas de identificar aquelas frutas que não impliquem o uso deste tipo de materiais”, sublinha. De qualquer forma, admite a necessidade de identificar frutas e a sua origem, sobretudo porque a ZERO defende também o menor uso possível de embalagens.

Estas seriam porventura uma potencial solução, mas mesmo que usem material reciclável, Susana Fonseca desaconselha. “Uma das nossas lutas é que as pessoas possam comprar a granel e evitar vendas de produtos embalados. Trocar uma etiqueta por uma embalagem, mesmo que de cartão, não nos parece benéfico.”

O uso dessas embalagens é algo que foi já debatido entre produtores. A ideia sucumbe, no entanto, aos caprichos do consumidor. “Temos vindo a percorrer o caminho das embalagens, mas ainda hoje o consumidor prefere o produto a granel. Se tivermos fruta embalada e a mesma fruta ao lado, mas a granel, o consumidor prefere a última e deixa a embalada no sítio”, explica à NiT Domingos dos Santos, presidente da Associação Nacional de Produtores de Pêra Rocha.

“Trocar uma etiqueta por uma embalagem, mesmo que de cartão, não nos parece benéfico”, explica a organização ambiental ZERO

Para o responsável da organização, a utilização do autocolante é a “única forma de fazer a diferenciação da fruta”, para ajudar o consumidor a distinguir entre “maças que podem ser iguais” mas que “têm marcas diferentes”.

“Essa diferenciação com recurso a autocolantes é dispensável? É, tudo é dispensável na vida, até nós quando morremos”, sublinha.

Os autocolantes que identificam claramente a variedade daquela que é provavelmente a pêra mais famosa do País estavam em maioria na amostra recolhida por Ana Pêgo. Mais representada só mesmo a maçã de Alcobaça, que garante já ter retirado etiquetas das maçãs vendidas em saco, sendo que também estará a “testar alternativas mais amigas do meio ambiente” e em pleno “processo de reconversão das etiquetas para papel”, isto na venda a granel. A identificação, essa é imprescindível.

Dois dos autocolantes mais comuns encontrados pela bióloga

Também a ANP de Pêra Rocha garante estar à procura de materiais biodegradáveis e “com menos impacto”, uma ambição que ainda não foi concretizada. Domingos dos Santos pede que olhemos para o lado e para os impactos mais danosos de outros produtos. “Compare-se o impacto com um pacote de bolachas, que vem numa grande embalagem. O que fazemos está bem? Não. Podemos melhorar? Sim. E por isso estamos à procura de uma solução.”

A verdade é que a solução existe e desde 2013 que a União Europeia autorizou o seu uso. A tecnologia de gravação a laser em frutas garante não só a integridade das delicadas peças, como evita o uso de materiais nocivos.

Na opinião de Domingos dos Santos, a adoção desta solução mais amiga do ambiente “é algo impensável” e só poderá acontecer se “o consumidor estiver disponível para pagar dois euros por quilo de fruta”. “O consumidor não está disponível para isso”, conclui.

A gravação a laser pode ser uma solução

Além do elevado custo do processo, que elevaria o preço final para o consumidor, cita também razões de ordem prática, sobretudo pelo cuidado que é necessário ao manusear a fruta. “Normalmente o que acontece neste tipo de máquinas é que a fruta passa e a máquina faz a projeção”, explica. “Não estou a dizer que no futuro não se possa fazer, mas neste momento é impraticável”.

A sustentabilidade é um jogo de somas e subtrações, por vezes difícil de avaliar. À primeira vista, o uso de uma gravação a laser aparenta ser mais ecológico do que a aplicação de pequenos autocolantes plásticos em milhares de frutas. As aparências podem enganar.

“É preciso ver o gasto de energia que isso implica, analisar o balanço entre cada coisa. Esta é uma das grandes complexidades atuais do ambiente, as coisas não são a preto e branco. Não há soluções muito boas e outras claramente muito más. Por vezes há um intervalo entre elas”, justifica Susana Fonseca.

“Esta é uma das grandes complexidades atuais do ambiente, as coisas não são a preto e branco”, diz Susana Fonseca

Enquanto a gravação a laser não substitui os autocolantes, eles farão parte da realidade de todos os portugueses que tenham uma fruteira cheia em casa. E apesar de os produtores terem já começado a evitar colocar as etiquetas em todas as peças, serão os consumidores que terão a responsabilidade de evitar que elas acabem por poluir a natureza.

“Nós, humanos, temos o péssimo hábito de olhar para os objetos e dizer que são apenas lixo pequenino. ‘Não faz mal’, e deitamos para o chão com a maior naturalidade. Fazemos isso com as beatas dos cigarros. E depois vai tudo parar às praias”, frisa Ana Pêgo.

Atirar a responsabilidade para o consumidor é algo que a responsável da ZERO admite não gostar de fazer. Não é, sequer, parte da política da organização, que habitualmente prefere reforçar estas medidas do lado dos produtores e empresas. Este caso é, na opinião de Susana Fonseca, uma exceção.

O consumidor pode ter aqui um papel. Se gosta de saber e ter a informação da origem da fruta, então terá também que ter este pequeno cuidado de tirar a etiqueta e colocá-la no lixo. Até porque não faz muito sentido reciclar este material. É simples: basta que não deixem os autocolantes irem com a água. Não é algo difícil de controlar.”

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