Na cidade

Passaram 40 dias fechados numa gruta sem luz — e no final não queriam sair

O grupo de 15 pessoas passou todo o tempo sem luz natural, relógios ou contacto com o mundo exterior. Saíram, mas sob protesto.
Saíram contrariados.

Um grupo de cientistas juntou-se para criar uma versão moderna da “Alegoria da Caverna” e os resultados que obtiveram foram verdadeiramente surpreendentes. Juntaram 15 pessoas — oito homens e 7 mulheres — numa gruta dos Pirinéus, em França, durante 40 dias, sem acesso a smartphones, relógios ou sequer luz natural, para perceber o impacto psicológico deste isolamento extremo. O problema foi na hora de sair, já que uma parte significativa dos participantes pediu para voltar para dentro da gruta.

Apelidada “Deep Time” (ou tempo profundo, numa tradução livre), a experiência começou de forma bastante normal, com os 15 voluntários a entrar nesta caverna perto de Toulouse. A premissa era clara: nada de aparelhos eletrónicos, relógios ou telefones. E também não haveria luz natural. 

Os participantes, com idades entre os 27 e os 50 anos, seriam as cobaias de um estudo para perceber os efeitos do isolamento extremo e tinham de se adaptar a uma temperatura constante de 12 graus Celcius e uma humidade dentro da gruta que rondava os 95 por cento. A única privacidade que tinham era quando estavam dentro das suas tendas.

Sem relógios, os homens e mulheres contavam os dias com base nos seus ciclos de sono, o que levou muito a perderem a noção do tempo. No momento de abandonar a gruta, vários pensavam que ainda faltavam 10 dias ou uma semana para concluírem os 40 dias da experiência. O desfasamento temporal foi tão grande que os cientistas que estavam a conduzir a experiência foram mesmo forçados a entrar na gruta para avisar os participantes que o tempo tinha acabado.

Mas o detalhe mais curioso veio a seguir. Apesar de terem abandonado a gruta — pálidos e todos com óculos especiais para proteger os olhos dos raios solares — sorridentes, a verdade é que eram poucos os que estavam felizes por sair. Dois terços dos participantes mostraram vontade em permanecer mais tempo dentro da caverna, usando argumentos como projetos que tinham começado e que queriam completar.

Era assim a gruta.

Durante toda a experiência, o grupo foi monitorizado pelos cientistas com recurso a sensores que foram ingeridos pelos participantes sob a forma de um comprimido e que indicavam os movimentos e os momentos de sono e de alerta. Os cientistas conseguiam ainda monitorizar a temperatura corporal e as interações sociais. Christian Clot, diretor do projeto do Instituto de Adaptação Humana, revelou que os dados recolhidos são surpreendentes.

As 15 pessoas conseguiram “sincronizar-se totalmente”, tanto em questões simples como as horas de sono como no que diz respeito ao desenvolvimento de projetos, com timings de entrega de contributos e horas definidas biologicamente para o agendamento de reuniões de grupo.

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