Na cidade

Privado corta acesso a uma das praias fluviais “mais aprazíveis” da região centro

Desde o início do ano que o caminho está vedado. Os moradores da zona estão revoltados com a situação.
O acesso está vedado.

Se já planeava ir dar um mergulho na Praia Fluvial de Alverangel durante as férias, é melhor mudar o roteiro. A área balnear, uma das mais concorridas do município de Tomar, é conhecida na região como Praia Fluvial do Casalinho. Há décadas que atrai todos os que procuram um refúgio de águas amenas, onde é possível praticar atividades náuticas — algo que não se deverá repetir este verão.

Desde o início do ano que o acesso a um dos recantos mais procurados da albufeira de Castelo do Bode está vedado. Com uma corrente e uma placa onde se lê “propriedade privada”, ninguém está autorizado a atravessar o terreno para se deslocar até à praia fluvial. Os banhistas têm sido expulsos e afastados do local pelos novos proprietários, que estão a construir um portão para impedir a passagem.

Anteriormente, a propriedade pertenceu à família Duarte Ferreira, do Tramagal, mas foi comprada por uma família de Cascais no início de ano, adianta o jornal “Tomar na Rede”. O novo proprietário, empresário no ramo da fast food, revelou à SIC Notícias que pretende fechar o caminho, que é, segundo o próprio, privado.

O controverso acesso à zona balnear é debatido há anos e a população de Tomar já se manifestou várias vezes sobre o assunto, defendendo a expropriação da passagem, algo que só pode ser realizado pelo próprio município. Os tomarenses defendem que a estrada “sempre existiu e é pública”. 

“Mais uma vez venho manifestar a minha profunda insatisfação com a recente decisão de se fechar um caminho público que dá acesso à nossa praia fluvial registada na nossa comunidade. Esta ação não só prejudica os residentes, que utilizam o caminho para o lazer e atividades recreativas, mas também afeta negativamente o turismo e a economia local”, escreveu um dos moradores nas redes sociais, em forma de desabafo.

Há mais de 50 anos que este “importante património natural” é um “ponto de encontro para muitas famílias e visitantes”, onde muitos miúdos aprenderam, inclusive, a nadar. “O fechamento ilícito do acesso público representa um atentado aos utentes da mesma”, continuou.

Muitos outros residentes mostram-se descontentes com a situação. Apesar da praia ser de domínio público, há quem afirme já ter sido expulso. “Recentemente, ia a descer por ali quando fui abordada por uma senhora que me disse para não continuar, porque estava lá um homem [o proprietário] todo exaltado a dizer que ia chamar a polícia e que não podíamos estar ali. Acabámos por arriscar e fomos até lá abaixo, mas acabámos por vir embora porque o senhor continuava a dizer que ia chamar a polícia”, explicou uma jovem moradora à SIC Notícias.

Determinados a não permitir que o caminho seja cortado, os residentes garantem que vão “lutar pela causa para não perder” algo que é, e sempre foi, deles. A população promete não “baixar os braços” e já criou uma petição para voltar a ter acesso a este espaço natural, que está identificado como praia fluvial pelos Ministérios da Defesa Nacional e da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território.

“Procurada por aqueles que gostam de um ambiente sereno e tranquilo, de alta qualidade, estas águas são um pouco mais quentes do que o habitual, sendo um dos locais ideais para um dia inesquecível. Um dos recantos mais aprazíveis da albufeira de Castelo do Bode, a praia fluvial de Alverangel, tem agora o acesso fechado com uma corrente e todos os banhistas têm sido expulsos e afastados pelos novos proprietários”, lê-se no apelo, já assinado por mais de 400 pessoas.

Dirigindo-se ao presidente da Câmara Municipal de Tomar, Hugo Cristóvão, os cidadãos pedem ajuda para que “possam ter de volta o acesso a pé” ao areal, que é deles há mais de 50 anos. A NiT tentou encontrar em contacto com a autarquia, mas ainda não obteve respostas. Sabe-se, contudo, que o município tem tentado o contacto com o atual proprietário, mas ainda não há nenhuma solução à vista.

Até nova decisão das entidades responsáveis, só é possível aceder à praia de barco. A área balnear tem estado envolta em diversas polémicas e processos em tribunal, que já havia decidido que o acesso é privado. Contudo, há uma parte da comunidade de Casalinho que tem lutado para tornar o acesso público, afirmando que o antigo caminho de Chãs da Conheira, nome pelo qual a zona também é conhecida, sempre serviu para aceder à faixa que é de domínio público na albufeira.

A autarquia está a tentar reunir-se com o proprietário para encontrar uma solução que seja boa para todos, “que naturalmente não ponha em causa aquilo que são os seus direitos, mas também que não limite aquilo que é de facto a utilização por parte da população”, de acordo com declarações ao “Médio Tejo”.

Ao longo das últimas décadas tem-se verificado uma crescente privatização na envolvente da albufeira, com a construção de edificados, muros e portões que dificultam o acesso à margem e impedem a população de usufruir das águas do Zêzere.

A construção da barragem do Castelo de Bode, a meio do século XX, veio alterar drasticamente o terreno, práticas e formas de subsistência na zona. Uma delas foi o natural aproveitamento das condições geográficas para o turismo, pelo que foram criadas praias fluviais ao longo da albufeira. 

As condições da albufeira tornam o rio Zêzere um local de excelência para passeios náuticos e para a prática de diversos desportos. Além dos mergulhos, pode fazer windsurf, vela, remo, jet ski, andar de mota de água ou pesca desportiva. Uma das melhores praias para isso mesmo era a de Alverangel, que se destacava de todas as outras por permitir ir a banhos tanto de um lado como do outro da barragem.

Apesar de não ser vigiada, a água tem qualidade de ouro e até é bastante quente relativamente ao habitual, o que explica algum do fascínio que provoca entre os habitantes locais.

Carregue na galeria para ver algumas fotografias de uma das praias fluviais mais procuradas na região de Tomar. 

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