Na cidade

Processos, dívidas e festas ilegais. O fim de vida do palácio Disney em Sintra

Símbolo de luxo de outros tempos, agora está ao abandono — e tornou-se um verdadeiro local de culto.
Fotografia de André Ramalho (Abandonados.pt)

A coisa parece um conto de fadas tornado distopia. Perdido entre o verde do Parque Natural de Sintra, há um terreno extenso que inclui uma preciosidade em decadência: um palácio da Disney. O que em tempos foi um luxo de um pai para uma filha é agora uma história de processos em tribunal, dívidas que se arrastam há anos e um lugar onde o passar do tempo traz simultaneamente decadência (e alguma aura de mistério).

Sem vigilância, o espaço tem estado ao abandono, já tendo sido vandalizado. Ao todo, são nove mil metros quadrados. Há ali uma mansão, três piscinas feitas com material vindo de fora, estátuas vindas de Itália, enormes colunas de mármore, uma zona salão de festa, retratos de luxos abundantes de outros tempos. O destaque, pela imagem que sobressai, é o tal palácio da Disney.

Carlos Maia Nogueira, o proprietário do espaço e o homem responsável pela construção do tal palácio, serviu de guia à SIC numa recente reportagem. Era “uma casinha de bonecas” que em tempos ofereceu à filha. Mas em grande.

A referência à Disney não é só pela fachada que lembra imediatamente a Disneyland Paris. Quando se aventurou no projeto, Maia Nogueira conseguiu plantas e autorização para fazer a sua réplica. “Não é tarde nem é cedo”, recorda à SIC. A obra fez-se, mas muito antes de se tornar o local de culto que é hoje em dia, o espaço já era pródigo em polémicas.

Ao longo dos anos, foi alvo de ordens de demolição por parte da Câmara Municipal de Cascais. Foi uma guerra entre proprietário e autarquia que remonta ainda à segunda metade da década de 1990. À antena da SIC, falando sobre pedidos de licença, Maia Nogueira queixa-se que “foi sempre tudo recusado, com desculpa sem grande significado”. “Um dia vieram-me e paguei uma multa, de quatro mil e tal contos”.

Em 1999, o espaço, então muito longe do ar devastado de hoje em dia, era já alvo de uma reportagem do “Público” que criticava logo a abrir: “No Parque Natural de Sintra-Cascais, a regra parece ser construir primeiro e legalizar depois”.

O conto de fadas

Em tempos, Maia Nogueira foi líder da Solbi, empresa da área da informática há muito esquecida mas que chegou a faturar mais de cem milhões de euros. Foi o empresário que vendeu o primeiro computador pessoal em Portugal.

Nos tempos de luxo, a mansão foi ganhando cada vez mais novos sinais de opulência, mas o mercado nem sempre é linear. A Solbi acabou por falir e fechou portas em 2008, com dívidas à banca superiores a 20 milhões de euros. Em 2011, a “Exame Informática” falava com Maia Nogueira, que contava que na altura vivia numa cave em Campo de Ourique, ganhando apenas os 500 euros mensais da pensão.

Nos tempos áureos, o terreno serviu para para formações e eventos. Os custos de manutenção eram extremamente elevados. E quando os luxos deram lugar às dívidas, o próprio terreno provou ser uma armadilha que não servia sequer para aliviar a dívida. A propriedade foi registada em nome de uma das empresas de Maia Nogueira, mas os anos de casos em tribunal mostraram que nada neste processo, que começou com construções não autorizadas, é simples.

O palácio continua a desvalorizar. Já terá valido cerca de cinco milhões de euros mas entre negócios falhados e o passar dos anos, agora está à venda por cerca de 1,5 milhões de euros. O banco BIC é o atual credor, que comprou a hipoteca do extinto BPN.

Entre o secretismo e o abandono.

Segredo mal contado

O passar do tempo foi trazendo cada vez mais sinais de decadência. Na reportagem ao canal de Paço de Arcos, uma jovem que não se identificava contava que houve tempos em que o espaço tinha um gerador, o que facilitava que houvesse festas por ali.

Para lá das festas ilegais, o espaço tornou-se também local propenso à destruição. Ali perdido na serra, longe do mundo, os traços de luxo esquecido foram dando lugar a graffitis, a destroços e a uma vegetação que, aos poucos, vai conquistando tudo à sua volta.

Hoje em dia continua a ser difícil encontrar a morada online. A localização é um segredo, mas daqueles mal contados. Entre pesquisas no Google Maps ou passa-palavra, o palácio a fingir da Disney continua a atrair visitantes que se vão aventurando por entre os recantos daquele lugar esquecido.

Ao longo dos anos, o espaço era bem conhecido de visitantes do portal abandonados.pt, pródigo em revelar lugares assim que o País esconde. No mundo do YouTube, onde há uma comunidade atenta a explorar espaços abandonados, o Palácio da Disney ganhou uma aura de atenção especial.

Também aqui é possível ver a evolução que as imagens de quem visita o lugar nos conta. A mansão ainda lá está, tal como as piscinas e algumas estátuas quebradas e soltas. O nome Nogueira em calçada, à entrada da casa, ainda não desapareceu por inteiro, mas há cada vez mais sinais de como o abandono é implacável.

Alvo de um processo de execução, entre o processo burocrático que se prolonga sem solução à vista e a falta de alternativas para salvar o espaço, o terreno lá continua. Como uma metáfora para a história daquele lugar, continua também por ali, já quebrada, a placa com o nome real do espaço: Quinta da Felicidade.

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