Em 2023, um encontro inesperado mudou a vida de Carla Bausch, Julian Spall, Pia e Chris Eckert. Embora sejam todos naturais da Alemanha, conheceram-se do outro lado do oceano, em Nicarágua, numa viagem que, por acaso, os dois casais fizeram na mesma altura.
Acabaram por criar uma amizade e, depois de conversas e reencontros, decidiram avançar com um projeto em conjunto. A ideia já estava a ser pensada por Carla, professora de ioga e consultora de Inteligência Artificial (IA) de 27 anos, e pelo namorado, Julian, de 30 anos, também professor de ioga e product owner (profissional responsável por definir o que deve ser desenvolvido num produto).
“Durante muito tempo, tivemos esta visão de criar um espaço junto ao mar, onde as pessoas pudessem vir, conectar-se e crescer juntas”, começa por contar Carla à NiT “Somos professores de ioga e realmente gostamos desse contacto com os outros. Portanto, esse foi o ponto de partida em que nós nos perguntamos o que nos importa mais na vida.”
Em 2025, juntaram-se a Pia, engenheira de software de 32 anos, e a Chris, product manager de 33, e começaram a procurar terrenos em Portugal. Já tinham visitado o País e ficaram encantados com o bom tempo e os refúgios próximos do mar.
Depois de uma longa procura, encontraram uma quinta em ruínas nas Caldas da Rainha. E em junho de 2025, finalizaram a compra. Desde então, embarcaram numa aventura para recuperar o terreno, por conta própria. O objetivo é transformá-lo num refúgio onde possam conviver e receber outras pessoas de vários pontos do globo.
“Sabíamos que o nosso espaço ia ser em Portugal, porque gostámos muito da paisagem e porque existem várias reservas naturais junto à costa, em comparação com Espanha, por exemplo, que tem uma população muito mais densa”, explica. “Gostávamos muito desta sensação de liberdade que sentíamos quando estávamos em Portugal.”
O projeto, batizado de Nuara, tem vindo a passar por diferentes fases. Afinal, continuam a viver na Alemanha e passam algumas temporadas nas Caldas da Rainha para realizar as obras. Tudo está a ser feito pelos quatro amigos, com apoio de familiares.
“Começámos a fazer tudo com as nossas famílias, porque não tínhamos conhecimentos adequados sobre como renovar uma casa”, confessa. “Portanto, fomos fazendo e aprendendo”, refere, acrescentando que teve um especial apoio do tio, que passou três meses em Portugal a ajudar com as obras.
Chris e Julian tinham algumas noções básicas, que aprenderam com os pais, mas, na prática, tiveram de aprender a instalar tubagens de água e a tratar a eletricidade sozinhos. “Estamos a avançar muito mais depressa do que pensávamos. Já estamos a construir uma plataforma de ioga no jardim e é uma loucura ver quantas pessoas nos estão a seguir nas redes sociais”, sublinha Carla.

Desde o início que o objetivo dos quatro amigos foi criar uma espécie de comunidade própria, aberta a todos. O terreno estende-se por um hectare e é composto por uma casa principal com quatro quartos, que deverá ser aumentada nos próximos meses.
No jardim, querem também apostar no turismo sustentável, com a instalação de uma tiny house para passarem longas temporadas na região e também bungalows para receberem outras pessoas.
“Queremos um projeto que cresça e evolua connosco. O objetivo, por exemplo, é convidarmos professores de ioga para fazer retiros, convidar pessoas para viverem na casa enquanto ajudam com os trabalhos no campo e criar mesmo um espaço para se conectarem.”
O objetivo é que o Nuara esteja aberto para receber pessoas e voluntários de todo o mundo, seja para passarem apenas algumas noites ou vários meses na região. “Não precisam de pagar muito para lá viver, basta contribuírem com o trabalho.”
Os amigos estão também a pensar em obter uma licença de ecoturismo, o que lhes permitiria construir 10 pequenos alojamentos no jardim.
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O próprio nome do projeto reflete a liberdade de que estão à procura: Nuara é uma junção das palavras “nu” e “aura”. A escolha aconteceu de forma orgânica quando ainda estavam a finalizar a compra da propriedade, no ano passado.
“Como não temos vizinhos, lembro-me da nossa agente imobiliária fazer uma brincadeira de que podíamos correr nus e ninguém veria. Achei a palavra em português engraçada”, conta Carla, entre risos. “Depois, juntámo-la com ‘aura’.”
No fundo, querem que as pessoas sintam-se “despidas”, no sentido de poderem ser “o que quiserem” e aproveitarem ao máximo a experiência na propriedade.
Por outro lado, um dos maiores desafios tem sido precisamente gerir “o sonho e a realidade.” Carla refere que, muitas vezes, são confrontados com problemas inesperados na casa, como a humidade excessiva que aparece “por todos os lados”, incluindo do chão da propriedade datada dos anos 70.
“Temos tido alguns problemas na casa que não calculámos porque fomos ingénuos. Portanto, às vezes é difícil acreditar no sonho ou na visão que temos”, sublinha. Ainda assim, nunca pensaram em desistir e já têm planos para os próximos meses.
Em agosto, os amigos vão regressar a Portugal para continuar os trabalhos no terreno. Em setembro, vão receber uma festa especial na propriedade: o casamento de Carla e Julian. Em março de 2027, por sua vez, já estão a planear o primeiro retiro do projeto.
Leia também o artigo da NiT para recordar a história do grupo de amigos que construíram uma vila para envelhecerem juntos.
Carregue na galeria para ver algumas fotografias dos quatro amigos a construírem o Nuara.








