Na cidade

Quem é o militar da GNR que pôs o País a fazer a “ginga da pelve”?

O Sensualão é inspirado no “engatatão da aldeia”, tornou-se num fenómeno do TikTok e é a nova estrela das bodas portuguesas.
É um militar com ginga e muito estilo

De meias brancas, grossas e exageradas peças de bijuteria dourada, camisa aberta colorida e bigode farfalhudo, a figura tornou-se quase omnipresente — primeiro invadiu o TikTok, depois as festas de casamento um pouco por todo o País. A figura caricata tem ainda um outro (grande) truque, a “ginga da pelve”, um movimento de anca que se tornou no passo que muitos tentam replicar, sem sucesso.

Por detrás do Sensualão, como ficou conhecido, está Márcio Salgado, efetivo da GNR, auto-confesso aldeão com talento para a comédia e para a dança. Aos 35 anos, são poucos os que conhecem a identidade do personagem que se tornou famoso durante a pandemia, nos confins da recém-chegada rede social TikTok.

Num instante, o militar que vive no distrito de Aveiro tornou-se presença assídua em casamentos, batizados, despedidas de solteiro, discotecas. Com quase 330 mil fãs no TikTok e outros 60 mil no Instagram, tornou-se alvo apetecível de marcas para as quais cria pequenos enredos cómicos com as suas personagens, sempre originalmente caracterizadas. Atualmente cria conteúdos publicitários para marcas internacionais como a Philips e a McDonald’s.

“[A comédia] é algo inato”, explica Márcio Salgado à NiT. “Desde que me conheço que sempre tive vontade de pegar em qualquer coisinha e fazer dela uma brincadeira. Colocava humor em tudo o que fazia.”

Acabaria por não pensar muito nisso. Dedicou-se à vida militar, primeiro na Força Aérea, depois na Guarda Nacional Republicana, onde é efetivo há 12 anos. Desconhecia o TikTok quando, por força da pandemia, foi obrigado a marcar presença nos muitos cercos sanitários da região. Os horários eram duros: 24 horas de turno, seguidas de outras 24 de folga.

“Foi uma fase muito exigente. Como estava muito tempo em casa, confinado, comecei a dar asas à imaginação”, recorda.

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Aquele “aguenta coração” na chegada do sensualao! ♥️ #camaleaooo #sensualao

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As brincadeiras e os disfarces ficavam quase sempre guardadas para os momentos de intimidade com a família e amigos. Nunca tinha ousado partilhar nada nas redes sociais, até conhecer o TikTok. “Fui à descoberta, achei curioso e experimentei, mas o primeiro vídeo não lá correu muito bem.”

Replicou uma das danças da moda, o vídeo não teve qualquer impacto e Márcio quase desistiu. “Não me revi naquilo, mas passado uns dias abri outra vez a app e percebi que havia muita gente a fazer coisas diferentes. Percebi que podia fazer mais, algo com dobragens.”

Começou por recriar personagens dos Apanhados e replicar pequenos trechos de sketches do Quim Roscas e Zeca Estacionâncio. Isso não era inédito, mas Márcio quis dar aos vídeos um toque pessoal e fez aquilo que sempre gostou de fazer: foi ao guarda-roupa, puxou das peças, da imaginação e criou as personagens tal qual as tinha na mente.

“Só me vestia assim, só me disfarçava no Carnaval, mas gostava de o fazer. Como essa é a única altura do ano em que se pode fazer, inspirei-me e arranjei maneira de ser Entrudo quando eu quisesse”, conta. A verdade é que a estratégia funcionou e ao contrário do primeiro vídeo, estes começaram a acumular likes — com eles vieram os seguidores e, naturalmente, a vontade de fazer mais vídeos.

Ainda na azáfama da vida militar durante a pandemia, Márcio recorda-se que ficou obcecado. “Saía do trabalho e já só conseguia pensar nos vídeos que ia fazer”, confessa. “Percebi que esse era o meu modus operandi, que nada era forçado, era tudo genuíno, porque já fazia isso há muitos anos.”

Batizou-se de Camaleão, sobretudo pela “versatilidade”. Aos poucos, o nome fez as rondas nos grupos privados de WhatsApp. As suas personagens eram detetadas pelos amigos noutros grupos, eram eles quem davam feedback a Márcio. E foi percebendo que tinha também de chegar a quem ainda não estava no comboio do TikTok.

Márcio tem 35 anos e é militar da GNR.

“Quando comecei a partilhar os vídeos no Instagram houve um boom”, recorda. Mais seguidores traziam consigo uma maior responsabilidade. Como criador de conteúdos, sentia a “necessidade” de não dar “sempre mais do mesmo”, de evitar a repetição. Foi assim que decidiu criar mais personagens originais, mais rábulas, sketches, quase todos inspirados na sua vida na aldeia.

“Inspirei-me em pessoas que conhecia, nas festas da aldeia, da terrinha, o artista da meia branca, o que fica para o fim da desta, o engatatão. Usei os cenários rurais que também são bonitos”, explica. Desse brainstorming nasceu precisamente a figura que o tornou mais famoso.

Das festas da aldeia guardava a imagem de um indivíduo especial, o “homem que acha que ele é que é”, o “rei das mulheres” que ficou “parado no tempo há 30 anos”. “Há uma pessoa na minha terra que é exatamente assim, ainda usa meia branca, sapato preto, ouro falso, o bigode. Foram esses os fatores que juntei na personagem”, conta.

No bolso tinha guardado um tema brasileiro que lhe tinha despertado a atenção, “Disco Arranhado” de Malu, numa versão remisturada, mais dançável. E um acaso levou a que recriasse a personagem, lhe juntasse a música e, num golpe magistral, acrescentasse o inusitado, arriscado e até quem diga perigosamente provocante movimento da pélvis. Nascia a dança conhecida como “a ginga da pelve”.

Muitos têm tentado replicar a ginga. Sem sucesso. “Não é nada fácil de repetir, já milhares tentaram e não há ninguém que o faça como eu. Se é uma vantagem? Não sei. É uma característica”, explica o militar que confessa o talento escondido para a dança.

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Mais um dia normal na vida do sensualao! #jorgegabriel #soniaaraujo #camaleaooo #sensualao #pracadaalegria #rtp

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A persona que Márcio criou não se tornou viral do dia para a noite, angariou a legião de fãs a pouco e pouco. Primeiro, a dança espalhou-se como um desafio, depois elevou o Sensualão à fama.

A ideia de usar a personagem para fazer animação em bodas foi-lhe dada por um amigo, que até o convidou para o seu casamento. Recusou. Acabaria por ficar com a ideia na cabeça até que, dias depois, coincidência ou não, recebia uma mensagem privada de um grupo de mulheres.

“Diziam que tinham passado a despedida de solteira a tentar fazer a ginga do Sensualão e que acharam que devia fazer parte da coreografia preparada para a noiva”, conta. “E por iniciativa própria, como surpresa, decidiram contactar-me. Foi o momento-chave.”

Aceitou, levou consigo o seu melhor amigo, arranjou forma de filmar de tudo para partilhar nas redes sociais e estava dado o tiro de partida. O casamento foi um sucesso, o vídeo também e,  depois desse casal, muitos outros quiseram ter o Sensualão na sua festa.

Hoje anima qualquer tipo de celebração: casamentos, aniversários e agora até já começa a receber convites para jantares de Natal. O Sensualão atingiu um sucesso com o qual nunca tinha sonhado. “Nem eu sabia que aquilo fazia tanto sentido. Ainda hoje digo: ‘como é que eu não pensei nisto antes?’.”

Claro que a fama nas redes sociais trouxe inúmeras propostas de trabalho, mas nem tudo é feito a troco de dinheiro. “Recebo mensagens de pessoas que estão no hospital e que dizem que os meus vídeos os ajudam a passar os dias. Isso leva-me a acreditar que isto não é só carolice, é algo que faz bem”, conta.

Recorda também um dos casamentos onde esteve, onde noiva e amigas eram quase todas enfermeiras e que confessaram, a dada altura, que no hospital todos eram fãs, até os pacientes. “Pensei logo que, como agradecimento, lhes iria fazer uma visita. E fui. Senti que lhes devia dar um miminho. São eles que me fazem crescer e não há dinheiro que pague isso.”

@camaleaooo

O sensualao adora pitinho! 😇#camaleaooo #limaorosa #sensualao

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Nem tudo é cor de rosa neste fenómeno. Márcio, que hoje dá o nome, tentou manter-se no anonimato durante parte do processo, sobretudo por causa da reconhecida austeridade militar e da faceta mais conservadora da instituição. “Como militar tenho sempre uma visão diferente. Temos regras internas e as chefias não veem com bons olhos uma grande exposição social. Sempre tive uma postura muito sensível a isso.”

Procurava não se identificar, queria manter separadas as duas facetas da sua vida. Até para impedir “que confundissem as coisas”. “Não queria que na minha vida profissional achassem que se eu era o bobo da corte nas redes, podia sê-lo em qualquer lado”, nota. “Nunca fui alvo de críticas diretas, embora saiba que existem.”

Agora, isso já não encara a exposição como um problema. A fama no TikTok deu-lhe a possibilidade de perseguir outro sonho antigo, o de ser personal trainer. Pediu uma licença sem vencimento, inscreveu-se numa formação e espera que a paixão pelo desporto possa ser a sua nova profissão.

“Parei, pensei, pesei os prós e os contras e vi mais prós do que contras. Decidi arriscar”, conta. Infelizmente para os fãs, esta dedicação significa que irá partilhar menos vídeos. As festas, essas vão continuar, sejam de casamento ou de divórcio. E porque a versatilidade é o grande trunfo do Camaleão, até já pensa na possibilidade de tentar a stand-up comedy. “Porque não? Não digo que não a nada.”

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