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Quer subir ao Pico? O melhor é reservar com meses de antecedência

O ponto mais alto de Portugal, nos Açores, recebe cada vez mais turistas. As vagas esgotam depressa, sobretudo na época alta.
Há cada vez mais turistas.

O ponto mais alto de Portugal atrai cada vez mais turistas, principalmente durante os meses de verão. Entre janeiro e setembro de 2023, mais de 34 mil pessoas subiram os 2.351 metros de altitude da montanha do Pico, nos Açores, segundo os dados do Serviço Regional de Estatística.

A afluência é tanta que as reservas têm de ser feitas com semanas — ou até meses — de antecedência, confirma Renato Goulart à NiT. O guia de montanha, com 50 anos, já subiu ao Pico mais de 2.700 vezes.

“Apesar do clima não ter sido muito favorável no verão, tivemos um boom de turismo muito intenso. Há empresas e operadores turísticos que já estão a fechar o ano de 2024”, descreve. Quem quiser fazer a caminha na época alta, sobretudo nos meses de julho e agosto, deverá tratar das reservas entre um a três meses antes para garantir lugar.

“Podem ter sorte e conseguir vaga no próprio dia, caso existam desistências, mas é muito difícil, até porque há cada vez mais operadores a trabalhar aqui, que levam grupos enormes, especialmente de italianos”, sublinha o guia. 

O mau tempo também acaba por complicar toda a gestão das reservas, uma vez que impede as subidas no dia marcado e é muito difícil conseguir em reagendamento devido à falta de vagas. Afinal, o limite de carga é de 240 pessoas por dia. Nem mais, nem menos, à exceção dos meses de verão, quando a capacidade aumenta para mais 40 ou 60. 

“Há pessoas que chegam lá às seis da manhã, ou antes, a tentar ver se conseguem vagas. A Casa da Montanha (o ponto de partida do trilho) não pode libertar assim os espaços e às vezes esperam até à uma da tarde, e mesmo assim não conseguem”, sublinha Goulart. 

Com o aumento doa afluência turística, os operadores começam logo a reservar os lugares para garantir vagas, o que faz com que as pessoas que queiram subir de forma autónoma tenham muito mais dificuldade em conseguir uma data. Quem já tiver a passagem comprada e quem quer mesmo fazer a montanha entre maio e setembro, “o melhor é mesmo tentar reservar com um a três meses de antecedência”, garante.  “O limite de carga que temos que cumprir e a situação do tempo dos Açores ser muito variável são alguns dos fatores que levam a este problema”, confessa. 

Se está a pensar visitar os Açores e gostava de subir ao Pico, o melhor é reservar diretamente através da Casa da Montanha. A caminhada sem guia até à zona da cratera custa 15€, enquanto a subida até ao ponto mais alto fica por 25€.

A história de Renato Goulart

Quando tinha sete anos, Renato Goulart subiu, pela primeira vez, a montanha do Pico, nos Açores. Acompanhado pela família e pelos irmãos mais velhos, nunca esqueceu o momento em que chegou ao ponto mais alto de Portugal — mas não foi pelos melhores motivos. 

“Foi uma experiência que me recordo bastante bem porque me marcou muito, passei muitas dificuldades. Antigamente não tínhamos equipamento, a minha família era pobre e eu não tinha noção ao que íamos. Passámos lá a noite, com um cobertor para sete ou oito pessoas. Os adultos bebiam aguardente para aquecerem e os mais novos nem sequer dormiam”, recorda Goulart.

Nessa altura, não imaginava que acabaria por se tornar guia de montanha profissional. Após aquela primeira experiência, só voltou a subir o Pico anos mais tarde, dessa vez acompanhado por amigos — e com equipamento. A paixão pela montanha açoriana despontou aí. Quando tinha 20 anos pediu autorização para fazer subidas com algumas pessoas, caminhadas que conciliava o emprego numa oficina de alumínio, onde esteve pouco mais de uma década. 

“Aos 29 anos decidi dedicar-me a 100 por cento às subidas e, após tirar cursos de guia de montanha local, dados pela Secretaria-Geral do Ambiente, tornei-me profissional na atividade”, conta à NiT o açoriano, nascido e criado na ilha do Pico. Capaz de sentir a terra como ninguém, Renato Goulart começou a ser conhecido como o “Rei da Montanha” e é lá que se sente em casa. 

Já subiu ao Pico mais de 2.700 vezes. “Agora não tenho pressão nenhuma, mas há uns quatro anos sentia-me pressionado porque estava quase a atingir a subida número 2351, igualando a altitude da montanha.”

O guia de montanha conseguiu atingiu esse número de subidas no dia 31 de agosto de 2019, mas não foi nada fácil. “No verão, em dias de bom tempo, subia e descia sem parar. Em 24 horas, fazia o percurso três vezes, não tinha como descansar”, conta.

Apesar de já ter feito a viagem de ida e volta quase três mil vezes, costuma dizer que “a montanha tem sempre alguma coisa nova para nos mostrar”. Não tanto no trilho em si, mas por ser imprevisível. 

“A situação climatérica é cada vez mais instável e mesmo que tenhamos muita experiência, às vezes a montanha não corresponde ao que estávamos à espera. Hoje em dia o tempo muda com muita mais facilidade do que há 10 anos”, explica. Quando existia neve, por exemplo, qualquer pessoa podia subir a montanha antigamente. Agora, é obrigatório ter o equipamento necessário, como o capacete, e o registo efetuado.

Carregue na galeria para ver imagens do Pico coberto de neve. 

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