Na cidade

Sagres: roteiro pelo cantinho do Algarve que nunca mais vai esquecer

Nesta terra de piratas em que os mares se cruzam, vive umas férias de sonho onde a segurança se sente no ar.
Fotos de Nuno Andrade.

Há uma sensação de segurança e normalidade em Sagres que é quase estranha e surreal — afinal de contas, o não normal é o novo normal por estes dias feitos de máscaras, de estudos, de dúvidas e de álcool gel. Não é que muito disso não esteja por lá, na terra do surf, do vento, dos contos de piratas e dos percebes incríveis, mas apenas na medida certa e essencial; e o que encontra em Sagres neste ano tão diferente é tudo o que a celebrizou, porém com menos turistas e muito mais espaço do que o costume, a tal sensação de segurança e quase normalidade sempre no ar.

Fui visitar a região de Sagres a convite de vários agentes locais. Hotéis, restaurantes e outros espaços de atividades turísticas estão este ano unidos numa causa onde a concorrência pouco importa, porque o objetivo é comum: salvar o que resta de um ano até agora mais difícil, lembrando aos portugueses que esta zona tem, miraculosamente, estado praticamente imune ao novo coronavírus; e que tem motivos para visitar, coisas para ver e fazer que quase não cabem num roteiro de viagens.

Contam-se por menos dos dedos de uma mão os casos de Covid-19 registados até ao momento no concelho de Vila do Bispo: segundo informação apresentada pelo sistema SINAVE, eram apenas quatro até ao início desta semana. Além disso, de acordo com o município, a maioria é de pessoas com residência no concelho, mas que não se encontram sequer lá a morar.

Sagres é por isso promovido como um destino Covid-free e isto explica muito a sensação de segurança imediata ao chegar. Mas há outros motivos: as medidas, obrigatórias e necessárias, estão todas lá. Nos restaurantes, as esplanadas são privilegiadas, a marcação necessária, o álcool gel e as máscaras constantes. Alguns até medem, mediante autorização do cliente, a temperatura à chegada.

Nos hotéis, passa-se o mesmo: cada unidade adaptou-se à nova realidade com uma naturalidade quase contagiante. Numa terra que sempre foi conhecida pela descontracção, por ter um ritmo próprio, também agora e neste tempo especial ele parece ter-se mantido —numa versão com máscaras, mas igualmente pura.

E depois há o espaço: nas praias sobretudo, onde não são precisas aplicações para entender que o que não falta é distanciamento, com areais a perder de vista em praticamente todas — e se são muitas e variadas as praias da região.

Sagres é uma zona do Algarve que não agrada completamente a todos, é certo: é conhecida por ter vento, um mar mais frio do que a habitual “sopa” algarvia, mas há um outro lado: quem gosta, já há muito que o percebi com amigos que passam lá férias há décadas, ama precisamente esta mistura, este híbrido entre o Algarve e a Costa Vicentina, entre calor e tempo ameno, entre entre descanso e aventura. Há uma energia única, despreocupada e familiar, que é difícil de explicar.

A praia da Baleeira.

Além disso não senti vento, nem frio, as noites estavam quentes e o mar bem morno quando fui. Aqui, o Cabo São Vicente separa os dois tipos de águas, pelo que em Sagres a primeira escolha do dia começa normalmente por qual a praia onde ir: pode literalmente decidir se prefere uma mais abrigada, maior, mais ou menos ventosa, com mais ou menos atividades, com mais ou menos rochas e escarpas, vento de nortada ou sul, mar mais ou menos quente, mais ou menos sardinhas ao almoço nos concessionários.

As praias 

Fui conhecer a praia do Beliche, enorme, espaçosa e famosa por quase nunca ter vento e que se tornou numa das minhas favoritas no mundo — apesar das escadas, ai, aquelas escadas. Também a do Castelejo, em Vila do Bispo, outra com areal a perder de vista que parece nunca encher, nunca ter falta de espaço; ali ao lado a da Cordoama, mais um areal vasto com um mar adorado pelos surfistas; e a praia do Tonel — a única onde consegue ver o absolutamente incrível e único pôr do sol em Sagres.

Há também a praia do Martinhal, que é um mundo de diversões e atividades: no seu Water Sports Centre pode praticar Surf, Caiaque, andar de Gaivotas, fazer Windsurf, Stand Up Paddle. É também aqui que consegue, conta quem conhece, ver um nascer do sol mágico.

É só escolher.

E se isto não chega, tem mais opções de praias: Mareta, Telheiro, Ponta Ruiva, Baleeira, Zavial, entre outras.

Onde ficar 

O dia começa nas praias mas antes convém dormir uma noite repousada, num bom hotel. Sagres tem uma enorme e variada oferta, deste os apartotéis típicos do Algarve às unidades mais luxuosas. Fiquei no Memmo Baleeira, um dos mais reputados e consensuais hotéis da zona. Com 4 estrelas o Memmo é, aliás, o hotel que abraçou esta missão de dar a conhecer o destino, dinamizando-o, sendo quase um embaixador não oficial de Sagres.

O Memmo Baleeira.

Aqui, os quartos são espaçosos e luminosos, podendo também encontrar as Memmo Suites, de um ou dois quartos e com kitchenette disponível. Nas diversas tipologias, pode escolher entre vista mar frontal (vista mar a partir do interior do quarto), vista mar parcial (vista mar a partir da varanda do quarto) ou vista terra (sem vista para o mar). Os preços nesta altura começam partir de 110€, por noite, em quatro duplo.

A unidade cumpre claramente todas as medidas de prevenção contra o novo coronavírus, desde as divisórias na recepção, à disponibilização do álcool gel em todo o espaço. Os pequenos almoços são buffet, porém com hora marcada para limitar a capacidade, e sendo a comida sempre servida, não manuseada.

Por aqui não encontra agora ingleses nem multidões, apenas portugueses e alguns turistas alemães. O hotel parece ter espaço e distanciamento em todas as zonas.

A piscina do hotel.

A vista é absolutamente incrível: como o nome indica, o porto e praia da Baleeira são alvo desafogado dos olhos em quase todos os espaços do hotel. Também aqui há uma tranquilidade, um “business as usual” porém com cuidados, um silêncio reconfortante nesta altura. Na piscina, exterior, todas as espreguiçadeiras estão afastadas e o hotel tem uma classe despreconceituosa e veranil. Resta apenas dizer que no restaurante da unidade, a Forneria, comi o melhor Tagliatelle de frango da minha vida.

O hotel assumiu este papel de dinamizador do destino Sagres porque é, também, há anos, dinamizador de um espírito de oferta de atividades variadas para que os visitantes conheçam, aproveitem e explorem ao máximo a região. No fim-de-semana de 29 a 30 de agosto, por exemplo, o Memmo vai disponibilizar aos hóspedes, de forma gratuita durante 1h30, bicicletas para que possam conhecer os mais maravilhosos percursos da região de Sagres.

Os quartos do Memmo.

Muito virado para o exterior e focado em promover experiências ao ar livre, o hotel tem assim dezenas de propostas de atividades que permitem aos hóspedes viver Sagres, explorar a região e as suas mais valias, sejam elas a natureza, as praias, o surf, os trilhos ou a gastronomia.

O que fazer 

O que nos leva ao outro ponto; quem está alojado aqui, tem um mundo à disposição. Basta pensar no tipo de experiência que se pretende usufruir e desenhar uma estadia à sua medida. Mas mesmo fora do hotel, há atividades sem fim para aproveitar em Sagres.

Alem dos passeios de bicicleta, a unidade sugere essencialmente dois trilhos para trekking na Costa Vicentina e Sagres, para que possam desfrutar de passeios pedestre cheios de natureza: o caminho histórico, que percorre as principais vilas e aldeias num itinerário mais rural, e o trilho dos pescadores, sempre junto ao mar foca-se nos caminhos usados pelos locais para acesso às praias e pesqueiros.

No passeio de barco.

Para os amantes da corrida, o hotel sugere três diferentes itinerários para corrida de 4, 7 e 13 km de distância, com um nível de dificuldade fácil a médio, com um contacto próximo com a natureza e paisagens incríveis.

Pode ainda experimentar mergulho, fazer um batismo de surf em família, passeio de barco aos golfinhos, visitas à lota, visitas ao Zoo de Lagos, aulas de yoga no hotel, massagens. 

Como estava com os miúdos, escolhi o passeio de barco aos golfinhos. Fomos com a Mar Ilimitado, no Porto da Baleeira, acompanhados do simpático comandante Sebastião e de uma ainda mais simpática bióloga marinha. Visitamos grutas, conhecemos as histórias de todas as praias da região, do farol e fortaleza e sim, vimos golfinhos — imensos golfinhos. Os passeios custam 35€ por uma hora e meia e valem mesmo a pena.

E claro, pode e deve visitar o farol e a fortaleza de Sagres, que são dois marcos históricos e locais, cheios de histórias para contar.

Golfinhos à vista.

Onde comer

Em Sagres come-se marisco, peixe fresco, cataplanas — e sobretudo come-se muito bem. Fomos ao Carlos, um dos mais conhecidos restaurantes da vila, onde as massadas são incríveis e a esplanada um mimo. O Mar à Vista é outro espaço imperdível, junto ao mar e com marisco e uma cataplana deliciosos. Tem também o Vila Velha, A Sagres, o Retiro do Pescador, o Escondidinho e muitas mais opções.

A cerca de 10 minutos, em Vila do Bispo, pode ainda encontrar marisco e percebes praticamente em modo porta sim, porta não.

Sagres deriva da palavra latina Sacrus, associado a templos e rituais pagões na região, mas confesso que só descobri isto ao ler o guia da região do Memmo, onde encontra tudo o que fazer, detalhes históricos misturados com contactos de restaurantes e lojas. Há muita coisa que só entendi e descobri nesta visita, por oposição a outras mais rápidas ou de passagem que já tinha realizado.

Aqui, na ponta mais sudoeste da Península Ibérica, há um Algarve diferente e mais simples e relaxado, uma mistura de mundos e energias, uma vibração surfista constante, embrulhada com um contexto magico de histórias antigas de piratas e de pilhagens em cabos e grutas. 

A todos os níveis, este é um destino perfeito num contexto de pandemia, sobretudo por ter muito espaço, muita tranquilidade e muito para oferecer às famílias. Talvez pelos queridos amigos que reencontrámos e pelas suas dicas incríveis, pelo pôr do sol mágico, pelas noites surpreendentemente quentes, pelo sabor a férias ou pela tal sensação de normalidade que tanta falta fazia, o que aprendi desta vez — e em apenas dois dias —  foi o que o Memmo garante no seu guia, quando se despede de quem o visitou: “nunca irá esquecer Sagres”. 

Para voltar.

 

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