Na cidade

A secreta mina de sal a 230 de profundidade debaixo de Loulé — que pode visitar

A mina de sal-gema foi descoberta nos anos 50 e é a única do género que está aberta a visitas em Portugal.
Também tem exposições.

A 230 metros de profundidade, esconde-se, por baixo da cidade de Loulé, uma mina de sal-gema com formações geológicas com 230 milhões de anos. Trata-se da única mina portuguesa visitável que se localiza abaixo do nível do mar — e foi descoberta por um mero acaso.

É preciso recuar umas décadas para contar a história deste extraordinário mundo de sal subterrâneo que foi descoberto no Algarve. Nos anos 50, a zona da Campina de Cima, no extremo nascente da então vila de Loulé, contava com algumas quintas agrícolas que se dedicavam à criação do gado. A comida era, por isso, fundamental para alimentar os animais, e a água era essencial para a sua produção.

“Devido a essa necessidade, iniciaram-se um conjunto de sondagens para a captação de água em aquíferos profundos, de modo a minimizar alguns períodos de seca que assolavam frequentemente a região. Fizeram-no até uns 140 metros de profundidade, até que tocou no sal”, começa por contar à NiT Alexandre Andrade, engenheiro geólogo que fez “70 por cento do que a mina é hoje, em termos de indústria”.

Dos poços, não havia mais do que a água habitual na zona, mas rapidamente perceberam que se tratava de água salobra. Tinham acabado de descobrir uma enorme mina subterrânea de sal-gema, que entretanto já conta com mais de 45 quilómetros de galerias. 

Na década seguinte, em 1963, foi fundada a empresa CLONA ‒ Mineira de Sais Alcalinos S.A.R.L, que decide fazer um último conjunto de sondagens que comprovaram a existência de uma quantidade de sal-gema de grande dimensão. A descoberta suscitou o interesse de Manuel Pereira Junior, um dos grandes industriais da região, que se juntou aos donos do terreno para dar início à comercialização da mina. Isto em 1964, numa altura em que a mina de São Domingos, em Mértola, considerada uma grande escola de mineiros em Portugal, anunciou que iria encerrar.

“O senhor decidiu fazer um investimento com o objetivo de explorar sal para a indústria química, que é o maior consumidor de sal a nível global. É uma importante matéria-prima nesta indústria para a produção de hidróxido de sódio, cloro, ácido clorídrico, entre outros produtos”, explica o chefe de operações da única mina subterrânea aberta ao público em Portugal.

Na altura, existiam apenas duas grandes indústrias a consumir sal para esse propósito: uma no Barreiro, na antiga CUF, e outra em Estarreja, que ainda se mantém em funcionamento. A fábrica de Estarreja manteve a atividade em Loulé até 2005, altura em que começou a abastecer-se com outra mina mais perto.

“Nessa altura tivemos de tomar uma decisão. Ou continuávamos neste negócio da indústria química, ou procurávamos outro foco”, recorda Alexandre. Escolheram a segunda opção. Fizeram um estudo de mercado e perceberam que o segundo maior setor que recorria ao sal-gema era o da segurança rodoviária, que utiliza o minério para fazer o degelo nas estradas. Em Portugal, contudo, era um negócio que só rendia entre outubro e abril, pelo que decidiram complementar com outro negócio: o das rações dos animais, que consomem muito sal na sua alimentação.

“A segurança rodoviária e as fábricas de ração foram os dois negócios principais da mina até 2019. Nesse ano, passou a ser detida pela Tech Salt”, adianta o engenheiro geólogo. A empresa foi a grande responsável por abrir este espaço mineiro ao turismo. “Queríamos aproveitar da melhor forma esta mina com características únicas, dentro do reino das minas. São bastante largas, ao ponto dos túneis do metro parecem pequenos, em comparação”, explica. Chegam a ter 10 metros de largura e 20 de altura.

Com o sentido de responsabilidade de manter a exploração e de contribuir para o conhecimento geológico no Algarve, a Tech Salt arrancou, em 2019, com as visitas à mina de sal-gema, com 45 quilómetros de galerias, tornando-se assim o maior espaço subterrâneo visitável em Portugal. “É um turismo industrial e geológico, onde contamos a história do sal e falamos sobre o seu enquadramento da Península Ibérica. Mostramos ao público como se explora e trabalha o sal”, sublinha. Apesar disso, ainda não estavam totalmente satisfeitos — e implementaram novas ideias, ligadas à arte e a exposições.

Em 2022, por exemplo, inauguraram a exposição permanente de arte sacra dedicada a Santa Bárbara. “Para os mineiros, a Santa Bárbara é a grande protetora. Segundo reza a lenda, protege-nos dos trovões e dos relâmpagos”, explica Alexandre. A mostra reúne 160 das mais emblemáticas peças da coleção de Fernando de Mello Mendes, engenheiro de minas e professor no Instituto Superior Técnico de Lisboa.

Com peças datadas desde o século XVI até à atualidade, nesta mostra estão expostos os exemplos mais significativos da coleção recolhida pelo professor durante quase 50 anos, desde arte sacra a outros artefactos relacionados com a veneração à padroeira dos mineiros.

Outra das exposições permanentes é da autoria do artista alemão Klaus Zylla, que pintou 12 quadros sobre a história de Santa Bárbara, um desafio que lhe foi proposto pelos responsáveis pela mina. Ao longo dos meses, a mina de sal-gema tem vindo a receber uma série de eventos, desde sessões de cinema a mostras temporárias. No dia 16 de fevereiro, foi inaugurada a exposição “Oceano-Mar é Vida”, uma mostra coletiva da Associação David Melgueiro, que tem o ambiente aquático como pano de fundo.

As visitas ao mundo subterrâneo de sal, com as exposições incluídas, demoram cerca de duas horas. Os bilhetes têm um custo de 25€ para adultos, 20€ para seniores e 15€ para miúdos. Também é possível adquirir o pacote familiar, para quatro pessoas, por 65€. Os bilhetes podem ser comprados online.

Carregue na galeria para conhecer melhor a mina de sal-gema que se esconde por baixo de Loulé.

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