Na cidade

TEDxLisboa. “Queremos reconstruir esta comunidade para que se sinta ouvida e vista”

A produtora e curadora de um dos eventos mais aguardados do ano conta à NiT o que podemos esperar para esta edição.
Marta Gonzaga é uma das responsáveis pelo evento.

Faltam pouco menos de duas semanas para o arranque da nova edição do TEDxLisboa, da qual a NiT é media partner. Seis anos depois, o evento está de volta à capital com 16 oradores internacionais e nacionais. As célebres conferências com convidados que partilham ideias (e inspiram pessoas) vão acontecer já no dia 18 de setembro, domingo, no Auditório da Reitoria da Universidade Nova.

O regresso destas palestras, que duram no máximo 18 minutos cada, é da responsabilidade do produtor de vinhos Dirk Niepoort, da quinta geração da família Niepoort, e de Marta Gonzaga, de 50 anos, produtora e curadora de TEDx’s desde 2010. 

A trabalhar em estratégia de comunicação há vários anos, está envolvida em vários projetos e tem sempre “muitas coisas no prato”. Um deles é o TEDxLisboa, um dos eventos mais aguardados do ano. A NIT esteve à conversa com ela sobre o que podemos esperar desta edição, cujo tema é “Sementes”. Leia a entrevista.

Como surgiu a oportunidade de se juntar à TEDx?
Não há uma organização TEDx nos países, todos nós somos independentes e estamos ligados ao TED Global. Em 2009 fui assistir a uma conferência no Porto, um dos primeiros TEDx em Portugal, que foi organizado pelo Manuel Forjaz. Foi ele que lançou o desafio: quem quisesse, podia ajudar a organizar a edição do ano seguinte. Fiquei com a pasta dos oradores e fizemos a seleção para um evento incrível em 2011, na Casa da Música. Pudemos ir buscar oradores ao Bangladesh e a muitos outros sítios. Foi lindíssimo.

E desde então, tem organizado outros eventos da TED?
Simultaneamente, comecei logo a organizar outros, como o TEDx Jovem Óbidos, que ainda não havia em Portugal. A minha filha reclamava que estas coisas eram muito giras, mas que não havia para a idade dela. Então fiz o Kids, que também não existia. Foi um modelo novo, não quis adultos a falar para miúdos, mas sim adultos e miúdos a falarem para miúdos. Isso levou-me a fazer digressões pelo País todo para fazer parcerias com escolas, porque não se faziam vendas de bilhetes. 

Os miúdos tiveram de lutar para estarem presentes. Responderam a desafios criativos, fizeram projetos com acompanhamento das escolas e foram avaliados por um júri. Foi assim que ganharam as entradas. Mesmo os miúdos mais difíceis sentiam um orgulho tão grande por estarem presentes, sentiram-se tão especiais que foram muito bem comportados, como se fossem uma audiência de adultos. 

Nessa altura também fui convidada para fazer a produção e curadoria do primeiro TEDx em Angola e gostei imenso, tanto que continuei a organizar estes eventos.

Como foi trazer a TEDx para Portugal?
O TED era uma coisa muito fechada, era muito caro ir ao TEDGlobal, era preciso meios. E poucas pessoas sabiam o que era, porque no início era tudo muito fechado. Depois, o Chris Anderson comprou o modelo e aí democratizou o evento. Em termos de partilha e conhecimento é algo completamente inédito, os oradores falam de coisas complexas, de forma simples, para que toda a gente entenda. É uma linguagem clara.

Para fazermos os eventos em Portugal, temos sempre de pedir uma licença ao TEDGlobal e preencher certos requisitos. Explicamos qual é o conceito, qual é a nossa perspetiva, como nos vamos organizar, que tipo de oradores queremos trazer. Quando nos concedem essa licença, recebemos as instruções e as guidelines, e apoio da comunidade — podemos pedir orientação a uns e outros. Temos de cumprir várias regras, mas não temos suporte financeiro, somos todos independentes. 

Um evento deste género requer que tipo de investimento?
O investimento pode ser nenhum. Tem a ver com a expectativa de quem o organiza e o local escolhido. No entanto, para preparar eventos com mais de 100 pessoas só é permitido a quem já tenha estado no TEDGlobal. Quem nunca esteve lá, pode perfeitamente fazer um no seu bairro, numa escola primária ou numa Junta de Freguesia. Basta espalhar uns flyers pelos moradores a dizer que quer organizar um TEDx para debater o bairro e, nesses casos, não há quase gastos.

Tem tudo a ver com a dimensão: se queremos ter muita gente, se é para durar um dia inteiro ou três horas. Se trouxermos oradores, em princípio, temos de assegurar refeições e alojamento. Temos de pensar se queremos merchandising… e a partir daí é tudo a somar. É aí que entra a rede de apoios, que ajuda nas despesas com os alojamentos, os palcos e as luzes. Depende sempre dos apoios que conseguirmos.

Esta edição exigiu um investimento maior do que anterior?
Foi igual, quando se faz numa capital os custos são sempre maiores. Os apoios financeiros são cada vez mais complicados de conseguir, mas não mudou muita coisa. Se fizer as contas com os parceiros, sem falar do nosso trabalho, que é voluntário, não se gasta menos de 40 mil euros. Este ano queremos voltar a investir tempo na comunidade, mantendo vivo o espírito de partilha e da participação. Queremos manter viva a conversa que se começa no evento, porque a verdade é que em 15 minutos ninguém nos dá respostas, mas abrem-se portas

Porquê uma nova edição só seis anos depois?
Esse último não foi comigo, mas com a Cristina Marques da Silva, fundadora do TEDxLisboa e com o Pedro Varela. Depois desse grande fizeram outros modelos como o TEDx ED, sobre educação, e o TEDxSalon. Dentro do chapéu TEDxLisboa, podemos fazer outro tipo de eventos, mais pequenos. Esses sim, fazemos regularmente, são com 20 e 30 pessoas, onde se discute algo em torno de uma ideia, mas parámos na pandemia.

Em relação ao TEDxLisboa, é um evento que leva muito tempo a organizar. Eu própria fiz um interregno grande em relação ao último que fiz, em 2013 ou 2014. Por um lado adoramos, por outro também cansa um bocadinho. Foi desafiante, foi giro, mas já está feito. Isto é um trabalho independente, também temos a nossa vida e as nossas profissões.

Em 2017, a Cristina informou que ia passar a pasta e passou-a ao Pedro Varela. Na altura encontrámo-nos num encontro global de organizadores da TEDx, em Nova Iorque, e ele convidou-me para a equipa de Lisboa: ele seria o host e eu co-host. Entretanto meteu-se a pandemia.

Ainda chegámos a enviar a candidatura, que foi aceite, mas ficámos num impasse por ter de ser online. Fizeram-se na mesma globalmente porque era preciso, mas o esforço que isso exigia, convidar os oradores para depois ser um vídeo em zoom com uma prateleira de livros por trás, a mim não me daria o mesmo prazer. É preciso sentir a energia das pessoas. É claro que se fôssemos viver assim para sempre, fazíamos. Sabendo que havia um final à vista, decidimos esperar.

Quando é que esta edição começou a ser pensada?
Andamos a pensar nisto desde 2019. Há uns meses decidimos: “Pronto, é agora. Já não vamos voltar atrás, vamos avançar”.

Quanto tempo demora a preparar um evento desta dimensão?
Sensivelmente um ano. 

Quando pedem a licença à TEDGlobal, têm de enviar logo os temas e os oradores?
Não. Nós, na teoria e na prática, não podemos começar a divulgar o evento sem a aprovação deles. Claro que já temos algumas pessoas em mente, mas eles querem saber mais sobre as nossas intenções e a construção do evento. Não podemos fazer uma coisa dedicada a um único assunto, tem de cobrir uma série de temas que interessam a diferentes pessoas. 

O tema deste ano é “Sementes”. Porquê?
O tema anterior, que acabámos por não levar adiante, era o Efeito Borboleta. Tinha a ver com o impacto das pequenas ações que fazemos, que tanto podem ser maravilhosas como podem causar catástrofes. Depois do que passámos, o tema “Sementes” enquadra-se melhor. Quando semeamos algo, estamos otimistas. E nós temos estado a viver muito no aqui e no agora, sem um plano estratégico a longo prazo, e já vimos que isso não funciona.

Globalmente, temos que ser otimistas e acreditarmos que aquela planta vai germinar. Aquela planta é, na verdade, composta de boas ações. Devemos pensar no que fazemos agora, no presente, e no que vai causar problemas ao planeta daqui a 30 anos. Tudo o que estamos a fazer e a plantar agora é muito decisivo.

É a partir de um tema genérico que se debatem questões mais específicas. Como é feita a seleção dos oradores?
Depende. Há eventos que fazem apelo a quem quiser ser orador. Neste caso, funcionou muito com aquilo que já tinha em mente ou pessoas que encontrei a ler jornais ou em viagens, ou que me foram sugeridas. Conheço muitas pessoas e, de repente, lembro-me daquela que será fabulosa para falar sobre um determinado assunto. E também tem a ver com  o facto de estar desperta para isso. A Alcina Faneca, por exemplo, descobri-a a ler a Visão, porque eu não conhecia a história dela.

Outras pessoas já conhecia há seis ou sete anos e pensei que poderiam ser fantásticas para falar sobre isto. A Tiziana Ulian anda a recuperar sementes autóctones e a ensinar as populações sobre a importância da preservação é sobre isso que ela vai falar. A seleção não é linear, nem acontece sempre da mesma maneira, por isso, é que demora cerca de um ano. Às vezes, é simplesmente porque nos lembramos de alguém que poderá dar um bom contributo.

Depois de escolherem os oradores, são vocês que decidem o tema de cada um?
Falamos sobre o tema do evento, mandamos o briefing de todo o conteúdo e a pessoa fica a trabalhar nisso. Não queremos roubar a criatividade a ninguém. Eles fazem um script que depois é analisado em conjunto, para os direcionar. Tal como s bons professores, nós só fazemos um encaminhamento, a criatividade é deles.

Tendo em conta que os oradores não são pagos, tiveram alguma dificuldade em trazer alguém em específico?
Nunca nos aconteceu. Como são eventos grandes, em torno de ideias inspiradores, com uma fortíssima marca por trás, e ficam online, só mesmo quando as pessoas não podem é que não vêm.

Quanto tempo é que cada orador tem para falar?
O máximo são 18 minutos. Apontamos sempre para os 15, para ter a certeza que não se ultrapassa. Em alguns casos, mais vale ter só 4 ou 5 minutos, ser assertiva e passar bem a ideia  sem muito mais a acrescentar. O tempo destinado varia, não pode é passar dos 18 minutos.

Os espectadores podem fazer perguntas ao orador?
Não há perguntas nem respostas durante a palestra. As perguntas são feitas depois, no intervalo, que dura cerca de 45 minutos. Nesse período as pessoas falam umas com as outras e, se quiserem fazer perguntas, podem abordar diretamente o orador.

Além das conferências, há outras atividades ou iniciativas?
Isso há sempre, durante os intervalos, mas ainda é segredo. Uma delas, por exemplo, são os speaker corners, uma área onde os oradores estão sentados e as pessoas podem ir ter com eles. São áreas para interagirem e partilharem ideias. 

Uma das normas nestes eventos é que toda a gente tem de estar disponível o dia inteiro, (salvaguardando quem tem um avião para apanhar). É um evento de proximidade, não é um evento de estrelas nem de pessoas que estão no camarim. Os próprios oradores estão sentados na audiência e é da audiência que saem. Quem está na audiência também é valiosíssimo e estamos todos ali para trocar ideias. Provavelmente também estarão ex-oradores na audiência, por isso, há muitas pessoas com quem debater ideias. É um dia cheio.

O que podemos esperar da edição deste ano? Há novidades relativamente à edição anterior?
O que há de diferente é a equipa organizadora. Também introduzimos palestras em inglês. Na edição anterior era tudo em português e nós temos três. Nestes últimos anos, o panorama na cidade de Lisboa mudou muito e já começa a ser uma coisa quase obrigatória.

Porque decidiram reduzir a audiência?
Dos eventos grandes sai-se com uma energia incrível, mas o que acontece é que no próprio dia é difícil conviver. Decidimos fazer um evento mais pequeno para que as pessoas façam parte, não quero que pensem “queria falar com aquele orador, mas ele está a 100 metros de mim e com 40 pessoas à volta”. É mesmo para que tenha uma escala mais humana e podermos ver este evento com mais tranquilidade.

Não quer dizer que não goste da aceleração — gosto e vamos tê-la na mesma, mas vamos ter mais espaço. No fim do dia, provavelmente conseguimos trocar uma palavra com todos. Num evento para cerca de 250 pessoas, todos vão poder ver-se, falar uns com os outros e trocar ideias. Queremos reconstruir esta comunidade, queremos um evento em que a comunidade se sinta ouvida e vista.

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