Na cidade

Vem aí um baile inclusivo e com voguing — Madonna deixou Lisboa, mas talvez lá fosse

A cultura ballroom inspirou "Vogue", da Rainha da Pop. Os elementos da comunidade são, na maioria, pessoas negras e LGBTQIA+.
As pessoas marginalizadas passam a ser verdadeiras estrelas.

“Vogue”. Este é o nome de uma revista de moda e de uma música de Madonna. Mas, para muitas pessoas, o seu significado vai muito para além disso — é um verdadeiro estilo de vida.

A subcultura ballroom surgiu na década de 1920, em Nova Iorque. Naquela altura, segundo a ideologia da época, as pessoas negras e latinas eram afastadas dos locais de diversão noturna frequentados, na sua maioria, por homens caucasianos. Quando podiam entrar nestes locais, esperava-se até que se maquilhassem de forma a parecerem mais pálidas.

Mais tarde, já nos anos 60, Crystal LaBeija e a sua amiga Lottie decidiram criar a House of LaBeija, onde todos aqueles que eram normalmente marginalizados pudessem entrar e divertir-se livremente. Teve tal sucesso que se tornou depois numa das casas mais reconhecidas entre os participantes do ballroom — palavra que passou a designar também um movimento ativista, de ocupação de espaços e de celebração da diversidade de género, sexualidade e raça, que se tornou um dos símbolos das comunidades LGBTQIA+.

O ballroom é também uma competição entre drag queens (ou casas de espectáculos de transformismo) que se submetem aos aplausos e às luzes da ribalta na esperança de obterem fama e prestígio neste segmento da indústria do espetáculo.

A cultura do ballroom já se espalhou pelo mundo, incluindo Portugal. Um dos grandes nomes da cena nacional é Nala Revlon, que já organizou vários eventos no Porto e lança agora um na capital. Já conhecia esta subcultura por causa da sua vida ligada à dança mas foi quando viajou para Paris, em 2017, que mergulhou totalmente nela. No seio deste tipo de performances, a atmosfera é de liberdade e união e embora existam sempre pequenas rivalidades entre casas, o amor está sempre lá.

“É um espaço voltado sobretudo para corpos pretos LGBTQIA+. Não que outras fisionomias não possam existir, mas é um palco privilegiado para indivíduos que são marginalizados lá fora e que merecem estar no centro, que não têm segurança na sociedade e muitas vezes não têm nem voz, nem espaço”, explica Nala Revlon à NiT. Através de uma frase, resume perfeitamente o que, para ela e muitos outros, é uma ball: “É mais do que uma dança, é uma comunidade de vida.”

Apesar de já estar presente no nosso País, ainda não existe “uma comunidade grande”. Mas a que existe é diversificada, com pessoas “queer, talentosas e criativas.”

Não esquecendo que esta ballroom é também uma competição entre performers, existem 17 categorias a concurso no evento na capital, todas com diferentes histórias. Algumas inspiradas na moda, mas o grande destaque vai mesmo para as categorias de dança: Vogue Fem, New Way, Old Way, Twister, Baby Vogue.

O Voguing é um estilo bastante importante na ballroom culture. O nome vem da revista de moda — os movimentos majestosos do corpo dos concorrentes são inspirados pelas poses das modelos da publicação. O seu impacto fez-se sentir até na Rainha da Pop, que após assistir a uma ball decidiu lançar uma música que espelha esse universo.

“O ballroom hoje é mainstream. Houve uma época, nos anos 60, em que era algo de e para a comunidade. Não existiam vídeos nem câmaras. Entretanto, muitos ícones da indústria da moda e da televisão se inspiraram na cultura ballroom — como foi o caso de Madonna, que ao assistir a uma ball se sentiu motivada a criar a música ‘Vogue’. E chegou mesmo a levar algumas pessoas da comunidade na tour que incluía essa canção”, diz Nala. Na altura em que surgiu esta subcultura, “era tudo escondido, uma vez que havia pessoas que tinham vidas duplas para conseguir manter o seu trabalho e ter segurança cá fora.”

A ball em Lisboa será a 21 de novembro, das 16 horas às 21 horas, no Nada Temple, na Rua 2 da Matinha. Em fevereiro e abril de 2022, haverá mais eventos, embora Nala Revlon não revele ainda os locais as e datas específicas. 

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