Na cidade

Vídeos falsos, salvadores anónimos e crimes: o estranho resgate dos cães de La Palma

A história que apaixonou meio mundo terminou de forma surpreendente. Apesar de salvos com vida, a polémica continua.
O caso torna-se cada vez mais estranho

No dia do resgate inédito dos cães presos entra a lava em La Palma, os drones depararam-se com uma visão inesperada: os cães haviam desaparecido sem deixar rasto. Durante horas, as equipas fizeram buscas pelo ar à procura de um possível sinal dos animais. Sem sucesso.

O mistério seria desvendado no dia seguinte. Na quinta-feira, 21 de outubro, vídeos partilhados de forma anónima na Internet pareciam mostrar os animais, são e salvos, a serem alimentados. A empresa de drones Aerocamaras que planeava há semanas o salvamento enviou novamente os drones ao local e deparou-se com um lençol pendurado no muro.

“Força La Palma. Os cães estão bem”, podia ler-se na mensagem assinada por “Esquadrão Classe A” — uma referência à série televisiva que acompanhava as aventuras de um grupo de mercenários que embarcavam em missões para ajudar os oprimidos.

Enquanto alguns respiravam de alívio, outros tentavam encontrar explicações para o salvamento secreto. Os drones da Aerocamaras detetaram dezenas de pegadas humanas no local, onde verificaram não haver rasto dos cães que sobreviveram.

Por outro lado, a associação contra os maus-tratos animais Leales recorreu às redes sociais para garantir que os vídeos partilhados eram falsos, isto depois de pedir aos captores dos cães que verificassem a data dos vídeos. Nunca o fizeram.

“A Leales.org declara que o vídeo dos podengos é uma farsa”, escreveu a associação nas redes sociais, que afirmava ver-se no vídeo uma patada no focinho de um dos animais; mas também que estavam num local insalubre pouco condizente com “a cada de uma entidade protetora dos animais” e mais com uma caserna de caçadores.

O cartaz deixado pela equipa de resgate anónima

Outro dos argumentos explicava que os cães do vídeo aparentavam estar bastante mais gordos do que os captados nas últimas imagens dos drones, que mostravam os cães quase esqueléticos. “Isso consegue-se em várias semanas, não em poucos dias.” Por tudo isso, a associação sublinhou que tudo indicaria que os vídeos teriam sido feitos antes da erupção. “Tudo para que se pense que estão a salvo e que foram resgatados por ativistas pelos direitos dos animais”, frisa.

Durante os últimos dias, o paradeiro dos animais manteve-se desconhecido, pelo menos até esta segunda-feira, 25 de outubro. Os cães estarão sob custódia do PEVOLCA, o organismo criado para lidar com as emergências vulcânicas nas Ilhas Canárias.

De acordo com as autoridades, a entrega aconteceu após um contacto anónimo feito a uma equipa de veterinários da ilha. Nesse telefonema foi dada a localização exata dos cães que já se encontravam a salvo e longe do local onde passaram a última semana, rodeados de lava.

Apesar de se encontrarem vivos e bem cuidados, os salvadores não se livraram das críticas, até das organizações pelos animais. “Os protetores dos animais não os teriam sequestrado de forma clandestina. A AANIPAL [associação local de animais abandonados e proteção animal] estava já com a equipa da Aerocamaras para verificar os chips, identificar os cães e fazer uma denúncia pelo seu abandono”, frisou a Leales. “Ao retirarem os animais de forma ilegal, dificultaram a sua identificação, a denúncia e a prestação de cuidados oficiais por veterinários.”

Durante os dias do desaparecimento, a Guarda Civil espanhola lançou uma investigação aos eventuais violadores da lei, já que os cães se encontravam em zona de perigo e, portanto, restrita e de acesso vedado. Também por isso o resgate estava a ser planeado com recurso a drones e que, mesmo esses, tiveram que obter validação das autoridades para poderem aceder à zona de exclusão.

Um caçador, um bombeiro e um vulcanólogo estiveram na mira das autoridades, que não conseguiram concluir quem afinal é que terá caminhado até ao local para resgatar os cães. Muitos garantem que se tratam dos seus verdadeiros donos, os caçadores, mas que preferem manter-se no anonimato para evitar as pesadas multas impostas a quem viola o perímetro de segurança.

Por outro lado, a Leales encontra outras motivações neste salvamento misterioso. Para a associação, trata-se apenas de uma forma de tentar evitar que se fique a conhecer o nome dos titulares que consta nos chips de identificação dos animais. Isto porque poderiam ser alvo de uma queixa por crime de abandono animal.

No terreno, há quem garanta saber quem foram os autores do polémico salvamento, embora se neguem a revelar a sua identidade. “Os cães? Sou eu que os tenho”, brincam os locais, citados pelo jornal espanhol “ABC”.

“São procurados pela polícia”, afirmam enquanto se negam a dar quaisquer nomes. Do lado das autoridades, há a convicção de os autores poderão ser acusados, caso sejam identificados. “Estamos a fazer diligências preventivas para identificá-los e determinar se se verifica um crime de desobediência”, explica o tenente da Guarda Civil, Juan Carlos Lafuente, em declarações ao diário espanhol.

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