Turismos Rurais e Hotéis

Casa das Letras: o alojamento com a biblioteca mais pequena do País e um quarto sem nada

Fica em Vila de Cabrela, no Alentejo, e é perfeito para os que amam os livros. Acaba de ser distinguido como conceito inovador.
Venceu o prémio "Conceito Inovador".

“Ama-se quem se ama e não quem se quer amar”. É com esta frase de Florbela Espanca que os hóspedes são recebidos num dos quartos da Casa das Letras Bed & Books, um alojamento em Vila de Cabrela, a cerca de 20 quilómetros de Montemor-o-Novo, que acaba de ser distinguido como “conceito inovador” nos Prémios AHRESP.

Aberta aos hóspedes desde 2020, este alojamento local com forte ligação ao universo literário é muito mais do que um sítio onde dormir. Para quem não passa um dia sem percorrer as páginas de um livro, pode mesmo ser considerado um paraíso. 

O responsável por dar vida a este projeto turístico diferenciador é David Azevedo Lopes, de 56 anos, e natural de Lisboa. “Conheci Cabrela porque tinha uma pessoa amiga com uma casa lá. Foi aí que percebi que podíamos estar muito perto de Lisboa e, ao mesmo tempo, sentirmo-nos longe”, começa por contar à NiT o proprietário da Casa das Letras. 

Com uma arquitetura que tem sido preservada ao longo do tempo e com uma comunidade que se apoia em tudo, a Vila de Cabrela — onde foi gravada a primeira série portuguesa da Netflix, “Glória” — tem vindo a perder grande parte da população. As creches fecharam, assim como as escolas, e deixaram de existir miúdos suficientes para formar uma turma. 

Ainda assim, foi por esta pequena vila que ainda guarda recordações do século passado que David Azevedo Lopes se apaixonou. Tanto que acabou por arranjar uma casa em Cabrela, mesmo ao lado de um prédio abandonado que já nem telhado tinha. Por outro lado, tinha uma imensidão de memórias e histórias por contar.

Nos primeiros dias de vida foi uma igreja, construída no século XII. Pouco depois, passou a ser uma igreja albergue onde recebeu os peregrinos que vinham da rota sul do Caminho de Santiago. Com a extinção das ordens religiosas em Portugal, o edifício desempenhou, durante vários anos, muitos papéis importantes para a comunidade. 

Foi a Casa do Povo, local de encontro, de música, de bailes e de apoio social. Foi um posto médico e chegou a ter uma ala com uma cela onde se colocavam os presos que iam ser apresentados ao juiz. Já no final do século XX, era lá que os idosos passavam os dias e antes de ficar ao abandono foi a creche da vila.

“Acontece que deixou de existir crianças, por isso a creche fechou. Então começámos a pensar recuperar isto, mas queríamos diferenciar-nos de outros projetos”, recorda o proprietário. Com uma enorme biblioteca que foi construindo desde miúdo e apaixonado por livros desde que se lembra, pensou: “Por que não criar um projeto de leitura pública?”

Com o apoio da família, amigos e editoras, conseguiu arranjar milhares de livros que pudessem ser postos nas mãos da comunidade. Numa parceria com a Fundação Altice e com a Junta de Freguesia, inaugurou em 2020 uma pequena biblioteca instalada numa antiga cabine telefónica, recuperada para o efeito.

Foi também em julho desse ano que nasceu a Casa das Letras Bed & Books, um alojamento local de características únicas no Alentejo “para os que amam os livros e a leitura”. 

Com uma decoração cuidada e quartos amplos que convidam a viajar pelos temas das centenas de livros disponíveis por lá, os espaços e o mobiliário “foram pensados por arquitetos, designers, escritores, jornalistas, decoradores, cozinheiros a que se juntaram os carpinteiros, os pedreiros, os eletricistas e os pintores”. E foi tudo reconstruído pelas próprias pessoas da terra. 

Pensado ao ínfimo pormenor, o alojamento local tem objetos de decoração (e não só) que não se encontram em mais lado nenhum. É o caso do piano, comprado num leilão, que pertenceu ao rei D. Carlos. Com mais de 120 anos, o instrumento continua em muito bom estado e pode ser tocado pelos hóspedes.

Também criaram candeeiros inspirados em livros e uma decoração que “puxa pela ligação à literatura”. Mais do que um alojamento, a Casa das Letras tem também uma agenda cultural de eventos, abertos a todos os que queiram participar. “Queremos que os livros sejam uma forma de promover o turismo literário. A estratégia da casa também passa por trazer pessoas até aqui”, sublinha. É precisamente por esse motivo que não param de organizar iniciativas que promovam a literatura na comunidade.

No Dia Mundial do Livro, a 23 de abril, foi inaugurada aquela que é apelidada como a mais pequena biblioteca do País, em Cabrela. Trata-se de uma casinha de madeira, construída pelos carpinteiros da vila, onde cabem 48 livros. Para celebrar a inauguração do espaço, que fica no lado exterior da casa, convidaram 48 cidadãos portugueses de várias profissões  — desde o Ministro da Cultura à cabeleireira da terra — a apresentarem um livro que os marcou. 

A Casa das Letras tem três quartos literários e temáticos, cada um com um nome diferente. O quarto Ulissipolis — um dos nomes históricos da cidade de Lisboa — é o quarto das viagens, “uma evocação do mundo, que é também literário”. Já o quarto Estevais vai buscar o nome a uma aldeia de Trás-os-Montes e é “o quarto da força interior do País”. O Alentejo “é o quarto da planície sem fim” e é o maior de todos.

Como não podia deixar de ser, o alojamento local tem uma biblioteca dentro de casa com centenas de livros disponíveis, com título que agradam a todos os hóspedes que, assim que chegam, têm de preencher um pequeno inquérito com os gostos literários e musicais. “Temos uma caixa chamada a caixa do tesouro que entregamos aos hóspedes e lá dentro estão os livros e CDs que escolhemos com base nas preferências das pessoas”, acrescenta.

A Casa das Letras é um dos poucos alojamentos no Alentejo com o certificado Green Key. “Somos uma unidade amiga do ambiente e temos uma ampulheta para que as pessoas não se esqueçam do tempo quando estão a tomar banho”, explica David.

Um dos grandes destaques do alojamento é o famoso quarto do nada, onde se pode fazer tudo. É um quarto completamente vazio que é deixado à imaginação dos hóspedes. “Estamos repletos de objetos, cheios de tralhas. Temos um quarto que não tem absolutamente nada para as pessoas lá fazerem o que quiserem”, explica o responsável.

Podem fazer aulas de ioga, meditação, deitar-se no chão ou ficar simplesmente a ler um livro. O que importa é que os hóspedes se consigam desligar do mundo lá fora. É “o quarto do nada que tanta falta nos faz”.

A casa oferece ainda uma sala de estar comum com salamandra e mesa de snooker, uma sala de formação para reuniões e workshops, uma cozinha totalmente equipada, um jardim com barbecue, piscina e bicicletas, um parque infantil e “uma terra de gente boa que o pode ajudar a ter uma estadia inesquecível”. A casa tem capacidade máxima de oito hóspedes e os preços por noite variam entre os 250€ e os 300€, dependendo da época. 

De seguida, carregue na galeria para ficar a conhecer melhor a Casa das Letras Bed & Books.

ver galeria

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Pç. da República nº1
    7050-406 Montemor-o-Novo
ESTILO
alojamento local
PREÇO MÉDIO
Mais de 200€
AMBIENTE
rural

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT