Antes de inaugurar o seu primeiro alojamento nos Açores, Daniela Guilherme quis ter a certeza de que tudo estava como tinha planeado. Afinal, desde o início que o objetivo era criar um refúgio acessível a todos, incluindo pessoas com limitações físicas e mentais.
Uma das primeiras visitas que recebeu foi de uma pessoa conhecida com mobilidade condicionada, que andou pela casa construída de raiz com a cadeira de rodas. “Nada se comparou à emoção que senti quando ela me disse que não subia a um primeiro andar há sete anos”, recorda à NiT Daniela, de 28 anos.
A 28 de maio, Daniela começou oficialmente a receber hóspedes na Terrassi Villa, um novo alojamento em Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira. O projeto foi construído de raiz ao longo do último ano e esteve sempre presente na mente da açoriana, fundadora da Forsocialmedialovers., uma agência de comunicação ligada às marcas pessoais.
Toda a propriedade foi pensada ao pormenor para receber hóspedes de todos os tipos, incluindo invisuais, pessoas com daltonismo, dislexia, mobilidade condicionada, entre outras condições e limitações.
“Trabalhei durante um ano e meio numa consultora tecnológica e durante muito tempo, falou-se de acessibilidade. Era um tema que sempre esteve presente em mim, mas que, talvez, nunca tinha dado muito valor”, explica.
Embora nunca tenha lidado com qualquer limitação, seja física ou mental, a comunicadora começou a pensar cada vez mais no tema. E quando decidiu arrancar com o seu próprio alojamento, sabia que teria tudo isso em conta.
“Pensei que tinha de ter um propósito, ou seja, quando o alojamento foi pensado, o objetivo era que fosse mesmo para todos”, sublinha. Começou por fazer pesquisas e não demorou muito tempo a perceber que “não existia nada do género no mercado”.

A propriedade tem capacidade para receber até sete adultos e foi toda construída de raiz — conta atualmente com dois quartos, um sofá-cama e uma poltrona-cama. Além disso, tem uma sala de estar, uma cozinha totalmente equipada e um terraço.
O objetivo de Daniela era também que tudo fosse funcional. “Temos uma plataforma elevatória que permite às pessoas irem para o primeiro piso e estarem à vontade”, aponta. “Temos também uma rampa que faz o desnível entre a parte interior e a exterior, para o terraço.”
Uma das partes mais desafiantes foi tornar tudo acessível. A fundadora, juntamente com a equipa de arquiteto e designers de interiores, pensou desde o tamanho dos móveis até aos detalhes nos quartos e na cozinha.
O lava-loiças, por exemplo, é aberto por baixo para uma pessoa com cadeira de rodas “conseguir encostar-se o mais possível.” Para conseguir fazer tudo isto, Daniela contou com o apoio de pessoas que sentem na pele a falta de acessibilidade.
“Foi uma sensibilidade que fui adquirindo. Não tenho qualquer tipo de deficiência e a minha família também não. Mas andava na rua e percebia a dificuldade que as mães com os carrinhos de bebés e as pessoas com cadeiras de roda sentiam”, afirma.

Enquanto construía o projeto, acabou por criar parcerias com pessoas conhecidas que tinham esta sensibilidade. Entrou também em contacto com a ACAPO – Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal para tornar tudo acessível também para pessoas invisuais.
“Em breve, vamos também ter um monitor que permite que as pessoas falem diretamente para perceber a área da casa e como é que as coisas estão distribuídas. Isto é um processo ainda a ser construído”, aponta. “Na questão das rampas, também tivemos uma pessoa de cadeiras de rodas que foi lá ao alojamento testar tudo.”
A fundadora teve também especial atenção às cores da decoração. Os tons de verde da cozinha, por exemplo, foram escolhidos com a ajuda de pessoas daltónicas. “O resto é tudo em tons amadeirados. Portanto, é um estilo rústico, mas muito minimalista”, acrescenta.
Um dos maiores desafios que teve durante a construção da Terrassi Villa foi também o de fazer com que outras pessoas percebessem a importância da acessibilidade e o impacto na vida de quem dela necessita. Enquanto procurava empresas para construir a casa, por exemplo, deparou-se com várias que acreditavam que bastava colocar uma rampa para tornar o espaço acessível.
“A falta de sensibilidade das pessoas em várias áreas de negócio, e mesmo dentro dos próprios organismos governamentais, foi a minha maior dor”, sublinha. “Muitas pessoas não se apercebem do impacto que isso tem.”
Todo este pensamento foi também para além da construção da casa. Daniela tem feito parcerias com empresas locais para que os hóspedes com limitações consigam também aproveitar a ilha.
Uma delas é a Terceira Tours, uma empresa de turismo focada em experiências de slow travel que passou a contar com oito tours específicos para pessoas com deficiência. Já o Upstudio, um estúdio de Pilates na região, tem uma máquina preparada para pessoas com deficiência motora.
Por fim, a Spot Tours disponibiliza transfers em carrinhas adaptadas e o Café São Bento instalou rampas para receber os hóspedes da Terrassi Villa. “Interessa-me ter parcerias com pessoas que são sensíveis à causa, que têm, de certeza, um amor genuíno por aquilo que também estou a construir.”
Os hóspedes podem ainda optar por pequeno-almoço (20€ por pessoa) ou refeições mais completas, como almoço e jantar. Neste caso, os valores variam e o projeto está preparado para criar menus de várias dietas (como vegan, vegetariano ou gluten free).
As diárias rondam os 175€ e as reservas podem ser feitas online.
Carregue na galeria para ver algumas fotografias do novo alojamento Terrassi Villa.







