Há mais de uma década, Inês e João Sequeira Gonçalves decidiram conhecer a ilha de São Miguel, nos Açores. Embora tenham ido em alturas distintas, os dois irmãos lisboetas ficaram rendidos à região e perceberam que queriam criar ali um negócio que desse a conhecer toda a beleza e cultura do arquipélago.
“Começámos à procura de um espaço para criar um alojamento e percebemos que havia pouca coisa ainda na ilha”, começa por contar à NiT Inês, empresária e especialista em hospitalidade, de 35 anos. “Em vez de construir algo novo, gostávamos de recuperar o património para oferecer uma oferta mais distintiva ligada à arte e à natureza”.
Durante as pesquisas, encontraram um moinho de água do século XVI abandonado, mesmo à beira-mar, na Praia do Monte Verde, na zona de Ribeira Grande. Naquela cidade, Inês explica que existiam 14 construções deste género, conhecidas como os Moinhos da Condessa, e aquele era o mais próximo da praia — fica “a 149 passos do mar”, para sermos mais exatos.
Inês e João, empresário e consultor de 40 anos, decidiram investir na propriedade em 2022 e, após dois anos em obras, inauguraram no verão de 2024 o Moinho da Areia. A propriedade dispõe de cinco quartos individuais que podem ser alugados separadamente ou em conjunto para grupos maiores.
“Os moinhos funcionavam num circuito de água comum, que passa por todos, e, portanto, todos trabalhavam para criar alimentos para a população”, explica. “Este estava totalmente abandonado e recuperámos o edifício da forma como se vê hoje”, diz.
Desde o início, os dois empresários queriam manter alguns apontamentos originais do edifício e, mesmo com a decoração mais moderna, não deixaram de apostar em elementos da ilha. A direção criativa e interiores ficou a cargo de Joana Subtil.
Para a decoração, colaboraram com artistas e artesãos locais, como Beatriz Brum, natural da ilha de São Miguel, e Aida Bairos, de Santa Maria. Além disso, também contaram com trabalhos de Rita Sevilha e Marta Ramos, fundadora do projeto Ginger & Stitch, ambas naturais do continente.
“Nos quartos, fizemos uma coleção de mobiliário e acessórios a partir de madeira e pranchas de skates que iam ser desperdiçados”, refere. “Também decidimos apostar em ligeiras linhas amarelas e azuis.”
Cada quarto tem também uma peça de arte única “feita a partir de impressão de peixes da região com tinta de choco em lençóis reutilizados, que seriam desperdício da indústria horeleira”.
Através de uma técnica japonesa semelhante à serigrafia, apresentam uma representação à escala real de diferentes espécies marinhas da região como o peixe-porco, o alfonsim, e a raia, numa colaboração com a artista Luzalba, nome artístico de Daniela Silva Ferreira.
A empresária refere que todos os quartos têm uma linguagem comum, mas com “apontamentos distintos, tendo em conta os nossos valores de comunicar a arte, a preservação dos oceanos e a utilização dos materiais endógenos da ilha”. Os fundadores preservaram também duas das três mós do moinho original, onde antigamente eram moídos os cereais, sobretudo trigo e centeio, para fazer pão.

“O som do oceano é constante”
Para a mesa de refeições, onde servem os pequenos-almoços, Inês e João optaram por trabalhar também com a carpintaria local. Além disso, apostaram em peças de vime feitas por artesãos e outros materiais da região, como a madeira criptoméria.
“As obras demoraram cerca de dois anos. Estávamos no continente, mas viajávamos muito para lá para conseguir fazer todo o acompanhamento”, refere Inês. “Foi um processo longo por ser um edifício único e protegido por várias entidades.”
Todo o projeto aposta em cores relacionadas à paisagem, sobretudo o verde e o terracota. Na sala de estar, as mesas foram feitas com plástico reciclado a partir do lixo encontrado na praia. “Trabalhámos também em conjunto com um aluno da arquitetura de Lisboa e fizemos estes protótipos com ele”, explica. “Tivemos lá sempre a ver se estava na cor certa e com a estética que procurávamos”.
Nas casas de banho, há ainda azulejos tradicionais pintados à mão, que dão um efeito “pixelizado”. Cada peça foi colocada individualmente para conseguirem misturar várias cores e criar um ambiente diferente.
O moinho dispõe ainda de um terraço com uma vista de 360 graus. “Há muitos casais que vão para lá surfar e se uma das pessoas ficar no terraço, consegue ver o companheiro ou companheira no mar”, aponta a co-fundadora. “O som do oceano é uma constante. As ondas do mar são mesmo uma companhia”, acrescenta.
Além do Moinho da Areia, Inês e João estão a trabalhar em outros projetos ligados ao turismo na ilha. Este, porém, ficará sempre marcado como o primeiro edifício que recuperaram no arquipélago.
O alojamento tem uma estadia mínima de duas noites e os valores começam nos 160€ para um casal e com pequeno-almoço incluído. As reservas podem ser feitas online.
Carregue na galeria para ver algumas fotografias do Moinho da Areia.

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