Um voo adiado fez Alexandra Vinagre e Alberto Garcia encontrarem-se por acaso. Os dois portugueses, que não se conheciam, mas que tinham um amigo em comum, estavam em Bali, na Indonésia, quando decidiram marcar um café.
Tudo aconteceu em novembro de 2017, quando Alexandra tinha o voo marcado para regressar a Lisboa, mas foi informada de que a viagem fora adiada para dois dias depois devido à erupção de um vulcão.
“Naqueka altura, um amigo nosso já tinha nos dito que devíamos encontrar-nos porque estávamos no mesmo sítio, mas foi num tom de brincadeira e não levei muito a sério”, conta à NiT. “Quando percebi que tinha o voo atrasado, decidi enviar uma mensagem ao Nuno [Alberto Garcia].”
A líder de retiros e o arquiteto encontraram-se para tomar café e tiveram uma conversa breve. Logo perceberam que tinham muitas coisas em comum, mas foi só mais tarde, quando regressaram a Portugal, que exploraram a relação.
Hoje, Alexandra, de 46 anos, e Alberto, de 52, são casados e acabam de lançar um projeto especial no Algarve. O casal lisboeta transformou um antigo armazém ferroviário, em plena Estação da Luz, em Tavira, numa casa própria e num novo alojamento para receber outras pessoas.
A história começou em 2022, quando o casal cometeu uma “loucura”, como muitos amigos e familiares lhe chamam, e concorreu a um concurso público para adquirir o armazém. Alberto, como arquiteto, sempre gostou de se aventurar em projetos deste tipo.
O casal acabou por ser o escolhido e prosseguiu com a compra do imóvel, a poucos passos dos trilhos do comboio. “Na altura, nem sequer sabíamos o que é que íamos fazer com o armazém”, confessa Alexandra. “Mas quando viemos visitar a região, ficámos completamente apaixonados por este lugar, porque é uma localização muito especial.”
Em setembro de 2021, o casal fez as malas e mudou-se para uma casa na vila de Cabanas de Tavira, para acompanhar os trabalhos no terreno. As obras arrancaram em outubro daquele ano e em junho de 2022, já estava a viver na nova casa.
O antigo armazém passou a ser a residência do casal e do filho, Henrique, de cinco anos. Porém, Alexandra e Alberto viram também ali uma oportunidade de criar um refúgio para outras pessoas terem a experiência de dormir naquela localização.
Na zona exterior, os proprietários transformaram um contentor marítimo num estúdio, chamado de Luz Retreat, que começou a receber reservas em junho. A estrutura de cerca de seis metros foi mantida na íntegra.
No interior, há um quarto com vão envidraçado a toda a largura e uma casa de banho compacta. Ali, prevalece o tom terracota, com pavimento em madeira e caixilharia preta. No exterior, há também um tanque para os hóspedes se refrescarem no verão.

Na casa principal, que funcionava como armazém, os fundadores optaram por manter a linguagem da arquitetura ferroviária, com o volume simples, os vãos em arco e a pedra à vista. O interior, por sua vez, foi completamente reconvertido numa habitação T2.
Alberto, que tratou de toda a parte arquitetónica, apostou em materiais como madeira, pedra, betão afagado e azulejo manufacturado. Na cozinha, foram privilegiadas bancadas em betão com frentes de madeira e ilha com tampo em madeira maciça.
A Estação da Luz continua ativa e, nos meses da época alta, Alexandra explica que passam por ali cerca de 10 comboios por dia. As carruagens começam a circular pouco depois das seis da manhã e as últimas passam “antes das 23 horas.”
Quanto ao barulho, Alexandra explica que os comboios viajam sempre muito devagar. Além disso, desde julho que a Linha do Algarve passou a ser exclusivamente elétrica, o que tornou tudo ainda mais tranquilo.
Além disso, a co-fundadora refere que a localização tem sido uma mais-valia, sobretudo quando tem de ir para Lisboa visitar familiares ou por questões profissionais. “Saio da porta de casa, apanho o comboio e chego em Entre Campos quase quatro horas depois. Não deixa de ser engraçado termos essa possibilidade”.
Nos primeiros meses em que se mudaram para a nova casa, Alexandra partilha que recebiam várias visitas inesperadas. “As pessoas saíam do comboio e não percebiam que isto era uma casa ou um café. Como temos uma mesa na rua, vinham bater à porta e perguntavam se podiam entrar ou a que horas abríamos”, diz.

Recentemente, Alberto conseguiu convencer Alexandra a comprar um pequeno barco a motor, que tem sido uma aventura para o casal e para o pequeno Henrique. Nos últimos meses, a embarcação tem permitido que a família explore a Ria Formosa e até visite praias desertas.
“Sempre que fazemos esses passeios, também convidamos os hóspedes para se juntar a nós”, refere. “Vamos a praias quase desertas, que tem a água super clara, parece que estamos nas Maldivas.”
O objetivo de Alexandra é ainda realizar retiros ao longo do ano, além de atividades culturais, como concertos ao ar livre, almoços e jantares intimistas, e até apresentações de livros.
“A partir de setembro, vou começar a desenhar solo retreats, com estadias de dois ou três dias”, explica. “Ainda estou a desenhar o formato final, para também trazer algumas pessoas que queiram ficar aqui, mas também com uma estadia mais intencional e ligada ao trabalho que tenho feito durante tantos anos.”
A lisboeta é especialista em bem-estar pessoal. Lançou o livro “Até Onde Quer Chegar?”, em janeiro de 2017. No espaço que construiu, quer criar experiências para outras pessoas terem um acompanhamento mais próximo e personalizado.
As diárias no Luz Retreat variam entre os 150€ e os 220€. As reservas podem ser feitas online.
Carregue na galeria para ver algumas fotografias da casa e do alojamento criados pelo casal.







