Turismos Rurais e Hotéis

Este pequeno hotel é perfeito para conhecer o lado mais belo do Alentejo

O Dá Licença junta arte, natureza e suites espaçosas. Tudo isto no meio das planícies alentejanas.
É preciso dizer alguma coisa?

Em terra de mármore, os dois mentores do Dá Licença não quiseram fugir à tradição. Foram à procura de mãos habituadas a trabalhar a pedra e compraram dois blocos que, durante mais de um mês, foram esculpidos à mão por um artesão reformado. Hoje, essas duas banheiras de mármore maciça são peças de destaque em dois dos nove quartos do Dá Licença.

O boutique hotel tem poucos quartos, mas não é humilde nas dimensões. O mais pequeno tem 40 metros quadrados. O maior chega aos 180. É o antídoto para a “saturação das cidades”, uma forma de combater a tendência de nos “agruparmos em espaços cada vez mais reduzidos”, todos “uns em cima dos outros”. A explicação é dada por Vítor Borges, o elemento português da dupla que imaginou o hotel em Estremoz.

Formado em Belas Artes e com uma carreira ligada ao têxtil e à moda — esteve à frente da loja da Louis Vuitton nos Campos Elísios, em Paris; e foi diretor-geral para a seda da Hermès —, fartou-se das viagens constantes que o levavam a dois e três países diferentes na mesma semana. Emigrado desde 1994, retomou a ligação perdida com Portugal anos mais tarde, quando foi escolhido por Cavaco Silva para integrar a Diáspora de Conselheiros de Portugal. Nesse regresso, acompanhou-o Franck Lagneau, ligados às artes e galerista em Paris durante mais de 20 anos, onde explorou a Arte Nova e o design antroposófico.

“A certa altura encontrei-me naquela situação em que ou continuava a trabalhar no luxo até me reformar ou decidia fazer um projeto mais pessoal”, conta à NiT o português de 51 anos. Optou pela segunda opção.

“Achei que em Portugal havia potencial para fazer algo de topo, de qualidade, mas que não era a tendência que existia cá. Há muitos projetos que se copiam uns aos outros, seguem a tendência e a oportunidade do momento, mas não há muitos projetos sensíveis e pessoais, como o nosso.”

O reencontro com o Alentejo, terra da sua mãe, fez-se na Herdade das Freiras, criada em 1830 e onde durante muitas décadas se produziu azeite. Abandonada em ruínas desde os anos 80, mostrou ser o local ideal para que Borges e Lagneau assentassem. E foi o que fizeram durante mais de dois anos, onde acompanharam e guiaram as obras de recuperação durante 24 sobre 24 horas.

Os trabalhos arrancaram em 2014 e terminaram em 2019. Foi então que devolveram ao mundo os 120 hectares, as 13 mil oliveiras e os 1900 metros quadrados de área. Um espaço amplo, livre e despojado que quiseram ver refletido também no espaço reservado aos hóspedes, que ali podem descansar “sem estarem em cima uns dos outros”.

A coleção de arte do francês de 50 anos é o sangue que corre no hotel, que pontua espaços sociais, suites e quartos. E é tão grande que obrigou à adaptação de um antigo lagar, hoje galeria que alberga as peças que não encontraram lugar nas salas e corredores. “O objetivo era e é o de criar uma conversa entre a arte e a natureza”, nota Vítor Borges.

O projeto de arquitetura procurou preservar o edifício que ali já existia, sobretudo de forma a evitar criar novas paredes. Isso obrigou a um aproveitamento das divisões já formadas, o que jogou a favor dos hóspedes. A suite Rock, por exemplo, ficou instalada no local onde o pastor guardava o rebanho, o que deu origem a um quarto e uma casa de banho de dimensões avantajadas.

São cinco suites e quatro quartos, feitas as contas finais. Todas radicalmente diferentes na disposição, mas com um fio que as une: “O espólio e a coleção, composto por peças que vão de 1880 a 1950”, esclarece Vítor.

“O que diferencia os quartos são as cores que usámos em função da exposição. Há espaços mais frescos, outros para pessoas que gostam de mais calor, mais adequados para quem prefira o final do dia, ou mais frescura ou mesmo mais calor”, nota.

Sem dominar a paisagem dos interiores do Dá Licença, a mármore acabou por, inevitavelmente, tornar-se num elemento omnipresente. Até porque Borges e Lagneau mantiveram-se firmes na tese de que “estes projetos” servem para “promover o que é local, o savoir faire e a matéria-prima da região”.

Foram eles próprios a desenhar muitas das peças feitas de mármore, das banheiras presentes em dois quartos, a alguns lavatórios — e as divisórias em cubos, presentes em dois quartos, que “levam ao extremo a capacidade de cortar a mármore para mostrar transparência e luz”.

Pequenas e finas lajes de mármore criam uma divisória intermédia entre o quarto e a piscina. E consoante a luz exterior, criam um efeito espantoso. “São como se fossem páginas de livro, colocadas de forma a criar um pátio que dê frescura no verão. É algo bastante surrealista, porque ao por do sol, aquele espaço transforma-se numa obra de arte.”

No exterior, ao redor da piscina e forma de lua cheia e que é o principal cartão de visita do local, recusaram plantar relva por questões de sustentabilidade. No seu lugar nasceu um “tapete de mármore de Estremoz”, feito com restos a que chamam bagos de arroz.

Franck e Vítor, os dois mentores do projeto (Foto: Isadora Faustino)

Borges descreve o Dá Licença como um retiro rural. É um destino onde se trocam os ecrãs pelas páginas, o ruído pelo silêncio. E isso obrigou a um jogo de equilíbrio entre luxos e restrições. Para os donos do espaço, “viver no campo não tem que significar “viver de forma simples”.

Decidiram, por exemplo, não instalar qualquer tipo de ar condicionado. “Pessoalmente tenho uma certa alergia [ao AC]. Era uma coisa que me incomodava. Achamos que se vamos para um espaço de silêncio onde não se ouve nada, não tem lógica depois termos uma máquina a trabalhar dentro do quarto”, explica. O aquecimento e arrefecimento faz-se com auxílio dos painéis solares e de um sistema de piso radiante.

Continua o jogo de balanço: não colocaram qualquer televisão, mas instalaram projetores onde é possível passar qualquer um dos DVD da coleção pessoal de Borges e Lagneau, cinéfilos assumidos — e este último chegou mesmo a ser ator no início da sua carreira. Quem preferir pode trazer os seus próprios filmes ou ligar-se pela wifi às plataformas de streaming. Cinema, sim. Televisão, não.

O dia na herdade começa, como sempre deve ser, pelo pequeno-almoço. Esqueça o formato buffet. Aqui é tudo personalizado, com direito a crepes feitos na hora, vários tipos de ovos e, claro, a fruta fresca local. Depois, entra em ação Vítor Borges, que é também o cozinheiro de serviço.

Ser chef foi sempre o seu sonho desde miúdo, que concretizou agora já chegado aos cinquenta. Com a ajuda dos produtos locais e sazonais, garante que não se compromete com uma só cozinha.

“Sou um criativo, gosto muito da parte do improviso, de nunca repetir a mesma coisa”, diz. Pode, portanto, contar com uma mescla de culinárias do mundo. “Como a decoração, os objetos vêm de muitos países diferentes, eu vivi em países diferentes. São essas as inspirações que vou buscar.”

Se o pequeno-almoço está incluído na estadia, já os almoços podem variar, embora assentem normalmente em opções mais leves e frescas. Ao jantar, o preço é sempre fixo: 40€ por pessoa, o que inclui couvert, prato principal e sobremesa.

E nem pense que pode passar pelo Dá Licença para uma visita de médico. Adaptar-se ao ritmo do local “leva o seu tempo”, explica Borges, que estipulou a estadia mínima de duas noites como regra da casa. Uma estadia que na época baixa pode começar nos 300€ por noite até aos 750€. Na alta, o mínimo sobe para os 320€ e o mais alto dispara para os 850€.

Carregue na galeria para ver mais imagens deste verdadeiro paraíso na planície alentejana.

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Outeiro das Freiras – Santo Estêvão, 7100-580 Estremoz
    7100-580 Estremoz
ESTILO
hotel
PREÇO MÉDIO
mais de 250€
AMBIENTE
rural

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