Tudo começou pela receção. No ano passado, Catarina Vieira e a equipa do Chão do Rio, um turismo rural que existe desde 2010 em Seia, aperceberam-se que era cada vez mais difícil fazer a manutenção dos telhados em giestas das oito casas que compõem o alojamento.
O vento, que se tornou cada vez mais agressivo ao longo dos anos, fazia com que a manutenção — que, idealmente, só deveria ser feita de três em três anos — passasse a ser realizada com maior frequência. Isto porque acabava por destruir parte dos telhados mais facilmente.
“Tomámos consciência que era insustentável manter as giestas e não era possível continuar mais assim”, refere a proprietário do espaço, de 50 anos. “Começámos também a perceber que não tínhamos a matéria-prima com esta frequência”.
As giestas eram retiradas do próprio terreno e, quando a manutenção era feita de três em três anos, tinham tempo para se renovar. No entanto, quando a manutenção passou a ser mais frequente, a fundadora percebeu que não teriam matéria-prima suficiente para todas as casas.
Foi assim que, em maio último, numa tentativa de encontrar uma solução, a proprietária do espaço, de 50 anos, teve a ideia de remodelar o telhado da casa onde está a receção. O resultado, que apostou na substituição das giestas por um telhado mais tradicional decorado com lambrequins recortados, acabou por agradar à fundadora. Mas só mais tarde, em novembro, é que arrancaram as transformações das restantes casas. Catarina decidiu então usar este novo material e replicar a ação nos restantes alojamentos.
Entre 3 e 13 de novembro, fechou as portas do turismo rural para arrancar com as remodelações exteriores. Quando começou a pensar na remodelação, Catarina refere que só queria uma coisa: que as casas continuassem a estar integradas na natureza e ligadas à tradição da região. Uma das preocupações, quando decidiu assumir o novo material, era que o encanto das residências desaparecesse.
Em conversa com a equipa, Sofia Borges, uma colaboradora que já trabalha há vários anos no espaço, apontou a arquitetura da Casa Doutor Afonso Costa, como uma construção notável na região. “Fomos ver e pensei logo que faria todo o sentido termos decorações à beira do telhado.”
Foi assim que surgiu a ideia de juntar os lambrequins e o melhor; pintá-los de cores diferentes, de forma a combinar com as janelas de cada casa. “Isto permitiu-nos, de facto, manter uma atmosfera de conto de fadas muito especial e, se calhar, até mais romântica”, aponta.

Catarina refere que, apesar de não serem tão comuns, ainda existem vestígios de lambrequins em várias construções, sobretudo na serra. Para tornar a decoração clássica, que remonta ao final do século XIX, ainda mais especial, contactou uma amiga designer para criar um desenho próprio para o turismo rural.
“Ela inspirou-se nas folhas do carvalho, que está presente na nossa imagem, mas que também nos diferencia. Temos vários carvalhos ao redor das casas”, explica. A partir do desenho, a empresa José Garcia realizou o corte a laser dos lambrequins para o primeiro teste, que decorreu na receção. Depois, alargou a produção em novembro.
Um dos principais desafios da obra mais longa, que decorreu em novembro, foi lidar com o tempo. “Em maio, programámos o nosso fecho em novembro, perto do que seria o verão de São Martinho, porque até era tradicionalmente uma altura em que tínhamos menos chuva e fazíamos a manutenção dos nossos telhados”.
No entanto, o tempo acabou por não ajudar: nos 10 dias em que estiveram encerrados, houve chuva em cinco. “Fizemos a construção em tempo recorde, ou seja, nos cinco dias em que tivemos sol”, recorda, entre risos.
Além do novo material mais resistente nos telhados, os carvalhais presentes no terreno são outra aposta do espaço para combater as alterações climatéricas.
“Estamos a restaurar uma área com cerca de quatro hectares, que designámos de Floresta da Esperança, onde o carvalho é a espécie dominante”, explica. “Faz sentido, mais uma vez, no contexto das alterações climáticas, porque é uma espécie extremamente resiliente ao fogo e até permite quebrá-lo pela humidade que retém debaixo das suas folhas e no subsolo.”
Em 2022, o turismo rural foi afetado por um incêndio que surgiu sem aviso e de forma inesperada. O mesmo já tinha acontecido em outubro de 2017. No mais recente, as chamas destruíram mais de 25 mil hectares, distribuídos em seis concelhos, do Parque Natural da Serra da Estrela.
O alojamento esteve dois meses fechado para recuperar e depois do verão, só reabriu em outubro. Agora, espera que as novas mudanças ajudem a evitar que isso volte a acontecer.
O Chão do Rio conta atualmente com oito casas, sendo que uma delas é dupla e destinada a grupos maiores. As diárias para um casal começam nos 145,36€ e as reservas podem ser feitas online.
Carregue na galeria para ver algumas fotografias da nova fase do turismo rural.

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