Ana Ribeiro e Jorge Coutinho acordaram às cinco da manhã desta quarta-feira, 28 de janeiro, com o barulho quase ensurdecedor das rajadas de vento causadas pela depressão Kristin. A designer de interiores tentou ver pela janela o que se passava, tanto na própria casa como no jardim do turismo rural que construiu mesmo em frente, mas não teve sorte. Deitou-se na cama, colocou a almofada por cima da cara e esperou pela manhã seguinte.
“Senti tudo, mas não consegui ver nada”, recorda à NiT Ana, de 63 anos. “Estava tudo às escuras. O meu marido só me disse para sair da janela porque aquilo estava um temporal enorme e não podíamos sequer aproximar-nos.” O casal, que é proprietário do turismo rural Poço e Meio, na vila de Ancião, distrito de Leiria, vive mesmo em frente ao espaço que, por sorte, não tinha hóspedes nesta noite.
Só na manhã seguinte, quando acordou, é que teve noção dos estragos causados pela tempestade Kristin. “Estávamos e ainda estamos sem rede telefónica, eletricidade e Internet”, conta Ana, explicando que teve de se deslocar a Coimbra, a mais de 40 quilómetros de casa, para conseguir ter acesso à rede.
Os estragos mais intensos aconteceram no exterior do turismo rural, onde tinham um campo de padel, uma piscina, um Espaço Zen com algumas cadeiras e casotas onde guardavam as máquinas. A piscina, que contava com uma cobertura telescópica de vidro, ficou também completamente destruída.
“A cobertura da piscina desapareceu e voou tudo. Não há mais nada”, diz, referindo que há vidros espalhados por todo o jardim da propriedade e é quase impossível andar pelo local.
O mesmo aconteceu com o campo de padel. Os vidros partiram-se e parte da estrutura voou para a entrada do turismo rural. “Há vidros por todo o lado e a casa das máquinas também ficou sem telhado”, refere. “Até agora não sei como estão as máquinas porque só tivemos tempo de cobrir o telhado de manhã.”

O espaço contava ainda um pátio coberto que era mantido por “pilares grossos” e era utilizado para servir os pequenos-almoços, almoços e jantares para os hóspedes. “Partiu tudo e nem foi só a parte da palha. Toda a parte estrutural, incluindo os postes de madeira, foram juntos. É uma coisa brutal.”
Junto à piscina, tinha também um “puff cor-de-rosa enorme”, dentro da cobertura telescópica, que voou “cerca de 200 metros” e foi parar ao jardim do vizinho. “Parece que já passaram vários dias, mas foi ontem. É mesmo um pesadelo.”
Por sorte, as estruturas das casas não foram afetadas, com exceção de uma ou duas telhas que ficaram ligeiramente levantadas. “Agora ainda não sabemos como está a parte elétrica”, confessa. “O portão do nosso vizinho também desapareceu e conhecemos pessoas aqui nos arredores que até ficaram sem a chaminé.”
Ana explica que a região é habitada, sobretudo, por pessoas de idade que nem sequer têm telemóvel. Por esta razão, assim que conseguiu ligar-se à rede, entrou em contacto com os familiares dos vizinhos para explicar que estão bem de saúde.
“A Proteção Civil veio de carrinha desobstruir os caminhos todos. Na minha estrada, houve uma árvore que caiu, com um diâmetro tão grande que nem as autoridades conseguiram cortá-la”, revela. “Tiveram de mandar vir não sei quem para a tirar. Não sei se já conseguiram. Era de um tamanho monumental.”
O próximo passo para o casal, que ainda não faz ideia do valor dos danos, é esperar pela resposta do seguro. Em fevereiro, tinha reservas marcadas para o turismo rural, mas já tiveram de ligar aos hóspedes e cancelá-las.
“Estamos a tentar contactar alguns hóspedes, porque nem sei quando é que vamos ter aquilo a funcionar outra vez”, lamenta. “Eles conseguem estar dentro da casa, claro, mas nós tínhamos as nossas mais valias, como o campo de padel, a piscina, o pátio onde fazíamos as refeições e tudo isso. Agora está tudo cheio de destroços e vidros por todos os lados.”
O turismo rural já tinha sobrevivido aos incêndios do verão
Ana é natural de Cascais e Jorge, arquiteto, é natural do Porto. Estão casados há quase 20 anos e sempre tiveram o sonho de ter um turismo rural. Decidiram encontrar um local que fosse uma espécie de meio-termo entre as regiões onde vivem e foi assim que descobriram a aldeia de Ancião.
“Sempre gostámos de receber pessoas, no fundo. Portanto, decidimos arranjar um sítio dentro do norte que fosse a meio caminho do Porto e de Lisboa”, explica. “Encontrámos uma propriedade engraçada e reconstruímos todo o espaço.”
Na altura, parte do terreno estava em ruínas e o casal fez quase tudo de raiz. “Modulámos, reabilitámos e aproveitámos tudo o que eram as ruínas”, recorda. “Idealizámos um espaço para termos uma mais-valia, criámos um campo de padel, algo que ninguém tinha na zona naquela altura. Agora já existe um clube.”
Além de construírem a própria casa, criaram também um refúgio mesmo ao lado com quatro suites e capacidade para até 10 hóspedes. Foi ali que construíram o campo de padel e todos os destaques do turismo rural, inaugurado em 2021.
No verão passado, o casal também apanhou um susto com os incêndios na região. Embora o fogo não tenha atingido as duas propriedades, esteve “muito perto” e os bombeiros tiveram de utilizar a água da piscina do turismo rural para o conseguir conter.
“Já não havia água em lado nenhum e nós oferecemos a da piscina”, partilha. “Os nossos vizinhos chegaram a ter várias árvores queimadas, mas os bombeiros conseguiram salvar as casas que estavam habitadas.”
Ana e Jorge recordam-se de “andarem com baldes na mão” e de irem buscar os vizinhos que viviam mais afastados, muitos deles idosos. “Apesar de não sermos de lá, criámos bastantes amizades e tentamos dar sempre apoio. Nesta altura, muita gente não queria deixar as casas e tivemos de ajudar.”
O casal esteve várias horas na região durante os incêndios, até que os bombeiros lhes pediram para sair. “Tivemos de pegar no carro e fugir”. Mas logo conseguiram regressar e não tiveram qualquer dano.
Desta vez, não tiveram a mesma sorte. Agora, não sabem quando vão poder reabrir o turismo rural, que faria cinco anos em 2026, e nem quando vão começar os trabalhos de limpeza das estruturas espalhadas — só o podem fazer quando tiverem a resposta do seguro.
“Pelo menos ali à nossa volta, ninguém, por enquanto, se magoou. Está toda a gente a arranjar os telhados e também já há espaços criados para prestar apoio e para as pessoas irem carregar o telemóvel”, explica. “O mais difícil são as pessoas que estão sozinhas e nós não sabemos, isso é que é o pior.”
Carregue na galeria para ver as fotografias da destruição no turismo rural Poço e Meio.

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