Quase três anos depois de ter comprado meia aldeia em Castro Laboreiro, João Amorim está finalmente a tirar o projeto com que sonhou do papel. O viajante português partilhou com os seus 279 mil seguidores, na passada quarta-feira, 7 de janeiro, que as obras para transformar o espaço num turismo rural arrancaram. O objetivo é que esteja concluído no verão de 2027.
“O que eles estão a fazer agora é construir andaimes à volta das casas para começar a construção”, começa por contar à NiT João Amorim, de 34 anos, criador do projeto cujo financiamento foi aprovado em outubro passado. “É um processo difícil porque aquilo é muito irregular, nada é plano na aldeia.”
Estes primeiros dias têm sido aproveitados para limpar o terreno e as propriedades que compõem o projeto, batizado de Fundo da Aldeia, antes da construção arrancar oficialmente. “A maior parte das casas só tinham o chão a dividir a parte de baixo e a parte de cima, mas já tem muitos anos. Portanto, está podre e vai ter de ser substituído”, revela.
As casas contam ainda com alguns apontamentos históricos, que estão a ser retirados, sobretudo carros de bois e utensílios que eram utilizados na agricultura. O objetivo é que alguns sejam guardados e outros deitados fora, caso não estejam em bom estado.
As 13 habitações distribuídas pelo terreno serão divididas em alojamentos diferentes. Haverá desde várias tipologias de quartos até casas que vão desde T1 a T3. “Vão ser todos diferentes. Duas das casas vão ter jacuzzi, por exemplo”, explica.
A construção ficará a cargo da empresa NEAR Construção, sendo que o gabinete ENARK é o responsável pela arquitetura. O interior dos alojamentos também vai ser remodelado e o objetivo é que contem com um design moderno.
“Quando partilhámos as imagens do projeto, muitas pessoas disseram que estávamos a descaracterizar as casas antigas. Percebemos o que é que querem dizer com isso, mas a verdade é que as nossas casas já tinham sido descaracterizadas há muito tempo”, sublinha. “As pessoas que lá viveram ao longo dos anos foram adaptando as propriedades para as suas necessidades. Portanto, umas eram mais altas, outras eram mais longas e outras mais pequenas.”
Além disso, o viajante e empreendedor refere que apesar de muitas terem sido construídas em pedra, outras foram também feitas em betão. Por esta razão, as construções são todas diferentes e adaptaram-se ao longo dos anos em que receberam dezenas de residentes.
Esta diferença deu também liberdade ao novo proprietário para apostar em tipologias de alojamentos diferentes e por esta razão é que conseguirá criar propostas diferentes para todos os tipos de viajantes. “Olhamos casa a casa e percebemos o que é que poderia fazer sentido, como é que podíamos dividi-la, na tentativa de ter o máximo número de alojamentos possíveis”, afirma.
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Como tudo começou
A ideia de criar um turismo rural esteve sempre presente na vida de João. “O meu pai sempre disse que gostava de ter uma casa na Serra da Freita quando se reformasse. Já tinha alguma urgência e há muito tempo que andava à procura de um sítio para fazer assim algo mais pequeno, mas os herdeiros nunca queriam vender”, contou à NiT. Diziam-lhe que era impossível.
No verão de 2022, quando fez o Caminho de Santiago, decidiu fazer uma paragem em Castro Laboreiro. “Já trocava mensagens com um rapaz, o Paulo, que tinha ali uma empresa de turismo e tive um bom feeling. Quis conhecer melhor a zona e contei-lhe desta minha vontade de comprar uma casa na Serra da Freita”, recordou.
Quando voltou ao Parque Nacional da Peneda-Gerês para passar o Ano Novo com os primos, passou por uma aldeia chamada Varziela e viu uma casa à venda. “Liguei logo à senhora, que me disse que a compra incluía quatro currais de vacas, e eu marquei logo um dia para falarmos sobre o negócio”, recordou. Juntamente com o pai e o primo, foram até à pequena aldeia desabitada e compraram a casa, mas faltava alguma coisa.
“Sempre tive aquela sensação de que a casa ficava muito longe para estar a abrir um alojamento, não justificava. A ideia era comprar mais alguma coisa, por isso começámos a dar uma volta à aldeia e vimos mais uma casa à venda”, sublinhou. Quando ligou à imobiliária, descobriu que não estavam a vender apenas uma habitação, mas sim meia aldeia.
A história da região nem sempre foi a mesma. Há mais de 50 anos, Castro Laboreiro era uma “daquelas zonas em que as pessoas viviam em duas aldeias diferentes”. Por mais pobres que fossem, todas as famílias da freguesia tinham duas casas e, duas vezes por ano, toda a população e animais mudavam de habitação.
Durante o verão, passavam os dias nas brandas, pequenas povoações em terras elevadas e soalheiras, onde havia mais pasto para as vacas. “Nesta zona das brandas nevava imenso e, às vezes, a neve ficava até julho. Isso fazia com que as vacas deixassem de ter pasto”, explica. A falta de pasto obrigava as famílias a mudarem-se, nos meses de inverno, para as inverneiras, aldeias em vales mais abrigados.

Com o aquecimento global, o inverno deixou de ser tão intenso e as famílias deixaram de sentir necessidade de ter as duas habitações. A maior parte delas mudou-se definitivamente para as brandas e a aldeia foi ficando sem habitantes.
“Muitas aldeias ficaram abandonadas e uma das coisas que mais me preocupava quando fizemos a compra era que as pessoas ficassem desconfiadas. Mas os proprietários queriam vender porque queriam ver as casas recuperadas, continuam a ter um carinho muito grande por aquele lugar”, diz.
Quando lhes contou que queria construir ali o turismo rural Fundo da Aldeia, “ficaram todos entusiasmados”. Agora, o objetivo é continuar a limpar o terreno e as propriedades para que as construção consigam finalmente avançar.
No verão de 2027, quando tudo já estiver preparado, o alojamento terá capacidade para receber 50 hóspedes. E João espera que cada pessoa que passe ali sinta o mesmo que ele.
“Viajo muito por Portugal e gosto muito, mas há poucos sítios onde sinto que ainda são selvagens e Castro Laboreiro é um desses lugares”, confessa. “É um lugar também abandonado, onde poucas pessoas vivem e onde outras tiveram de sair. Mas o que quero que os hóspedes sintam quando vierem cá é que de facto estão num sítio único, no meio da natureza.”
O objetivo do viajante é passar também os ideais que defende. Com o novo alojamento, quer contribuir para um “futuro melhor” da região.
“Ao ficarem nas nossas casas, de certeza que os hóspedes vão à aldeia, aos restaurantes, aos cafés e à padaria. Por isso, estarão sem dúvida a contribuir para uma economia mais forte nessa região, para que mais pessoas possam ficar e não ter que emigrar”, diz. “Quando o turismo é feito de uma forma inteligente e razoável, pode trazer mais valias muito grandes às regiões que estão mais desertificadas e acredito mesmo que daqui a 10 anos Castro Laboreiro será um bocadinho menos selvagem, mas vai ser um sítio melhor para as pessoas poderem viver, estar e visitar.”
Carregue na galeria para ver algumas fotografias da localidade e do projeto.

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