Turismos Rurais e Hotéis

A maravilhosa experiência de dormir (e viver) nos quartos do Torel Avantgarde

Dos pormenores decorativos às banheiras gigantes com vista sobre o Douro. Quase tudo é mágico neste boutique hotel.
A vista da piscina
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O que nos leva a escolher um hotel específico onde ficar? Há quem aponte para a importância da localização. Outros dirão que o mais relevante é o pequeno-almoço farto e recheado. Outros valorizam a vista; o spa; a piscina; o restaurante. Tudo isso é, de facto, importante. Mas com mais ou menos ofertas adicionais, o que verdadeiramente importa, arrisco dizer, será o local onde o hóspede passará mais tempo: o quarto. E se isso não ocorrer, podemos estar perante um problema.

Tem que ser confortável, mas não só. Deve ser arrebatador. Algo que nos faça querer trocar o aconchego de casa. Um sítio que, se pudéssemos, faríamos dele casa. Ora nesse parâmetro particular, o Torel Avantgarde foi desenhado para se bater com os melhores dos melhores.

A icónica Virginia Woolf é quem empresta a inspiração a uma das novas suites do boutique hotel de cinco estrelas do Porto — inserida no novo edifício, inaugurado em junho. O pé direito de respeito dá ao quarto o espaço certo para deixar respirar os tetos trabalhados. O verde aconchegante das paredes reluz com a luz que entra pelas inúmeras janelas que oferecem uma vista desimpedida do Douro e do cais de Gaia.

É espaçoso, arejado, revigorante. A decoração não desvirtua o look mais clássico, fá-lo com a elegância e simplicidade dos espaços intemporais. E a pièce de résistance esconde-se atrás de duas portas que levam à sala de estar, onde a atenção se divide entre a lareira a gás e a enorme banheira junto à janela.

Esta atenção redobrada dada aos quartos é uma espécie de imagem de marca da cadeia que nasceu em Lisboa, mas em 2017 chegou ao Porto com o seu Avantgarde. A recuperação de um velho edifício na rua da Restauração — famosa pela sua vista ímpar sobre o Douro e pela localização ideal para visitantes, a meio caminho entre a baixa e as margens do rio — deu origem a um boutique hotel que faz de tudo para cumprir a sua promessa de uma oferta avant-garde, inovadora, experimentalista.

Nasceu com pouco mais de 40 quartos, todos eles inspirados em figuras do mundo das artes, de Chaplin a Da Vinci, de Frida Kahlo a Coco Chanel. A modernidade decorativa é mais ou menos transversal, mas modificou-se com a introdução das novas suites, inseridas no segundo edifício que se juntou oficialmente ao Torel Avantgarde em junho.

Com ele chegaram suites em homenagem a nomes como Orson Welles, Galileu, Anais Nin ou Virginia Woolf, mais ajustadas à traça do antigo edifício, cuja escadaria termina numa claraboia luminosa — outro traço dos Torel onde, podendo, não se deve perder a magia da claraboia do Torel Palace Porto, a poucos quilómetros de distância.

A grande estrela é, contudo, a Maisonette, o maior quarto de todos com decoração inspirada em Alfred Hitchcock. Além de espaçoso, divide-se numa ampla sala com lareira, num quarto e no exterior mora ainda um jardim privado com uma piscina aquecida e um jacuzzi, também eles privados, pois claro.

Dito isto, é seguro dizer-se que o Avantgarde cumpre tudo o que é prometido no que toca à majestosidade dos quartos. São tudo aquilo que gostaríamos que fossem os nossos quartos lá por casa, mas cujo sonho dificilmente se tornará realidade. Isso não significa que sejam perfeitos.

Os apetrechos eletrónicos que nos permitem manusear a temperatura ao nosso gosto são, por vezes, traiçoeiros. Foi o caso. Uma luta com o ajuste de temperatura levou a um recurso à aplicação móvel da marca. Ora liga, ora desliga, ora não há conexão, assumi a derrota e mergulhei nos lençóis.

O isolamento acústico também se revelou delicado. As (raras) mas altas vozes do corredor entraram um par de vezes pelo quarto — e um som de água a escorrer revelou-se demasiado frequente para que fosse ignorado. Pequenos detalhes que não são suficientes para fazer esquecer a magia da luz do amanhecer a iluminar os tetos.

E falta, claro, uma nota digna de aplauso para o esforço feito em acrescentar, em tantos quartos quanto seja possível, estas banheiras gigantes a meio caminho já para uma plunge pool. Haverá em Portugal poucos quartos que lhes façam concorrência.

Porque não seria adequado não colocar o pé fora do quarto, exigia-se uma tour pelos dois edifícios que, sem ligação interior, obrigam a uma curta passagem pelo exterior — um par de passos penosos para quem teve o azar de o fazer entre os dias mais frios do ano na cidade. O novo edifício, além das novas suites, esconde o novo spa da Calla, de dimensões reduzidas, mas com espaço para um confortável e espaçoso balneário, uma pequenina sauna e um par de salas de tratamento.

Nem tudo passou para este espaço. Se por acaso quiser usar o banho turco ou o ginásio, terá que dar um salto até ao outro edifício. Uma ginástica que se desejava evitável.

Lá fora mesmo a tempo, tratavam-se dos acabamentos daquela que será a nova estrela do hotel: a piscina coberta de água quente que promete torná-lo ainda mais apelativo nos meses de inverno. E a poucos metros, a pequena piscina exterior onde os meses quentes prometem uma batalha acesa pelas poucas espreguiçadeiras. É um espaço que grita verão, calor e mojitos com o pé na água, mesmo no imprevisível tempo portuense.

A suite Virginia Woolf é uma das mais recentes

Essas traições térmicas tão características da cidade levaram a que fossem tomadas medidas bem-sucedidas: o espaço de esplanada fecha-se e, por detrás do vidro, há um clima ameno, reconfortante. É ali que se começa o dia com o pequeno-almoço — e em dias de sol, mesmo que gélidos, a primeira luz do dia é mais do que suficiente para convidar a uma sesta.

Mas o tempo não é de sestas, porque o pequeno-almoço é servido desde cedo, em modo buffet, sem desvarios e longas mesas de comida sem fim. É um alinhamento ponderado e equilibrado entre queijos e enchidos generosos e variados, iogurtes com toppings certeiros — e o sempre abençoado favo de mel —, os quentes clássicos de ovos e bacon. O que não pode ficar no cesto é mesmo o pão, fofo, húmido, saboroso, que vai da versão de alfarroba à de cereais, servido em fatias generosas. Isso e um fresco copo de espumante — porque um dia não são dias — e a vida está lançada.

No edifício original há ainda espaço para aquela que é talvez o spot mais famoso do hotel — também o único que está aberto ao público que não esteja hospedado —, a sala das flores que é uma daquelas paixonetas do Instagram. Pessoalmente, não a trocaria pelo esguio mas elegantemente soturno bar.

E é entre o bar e a esplanada que mora o Tenro by Digby, o restaurante que aposta numa carta sucinta, abrilhantada com as carnes do famoso El Capricho — o espaço de José Gordón que se tornou reconhecido pela qualidade das carnes maturadas, muitas provenientes de raças portuguesas. Neste caso, a oferta é mais reduzida quando comparada com a variedade oferecida pelo produtor em Léon: temos apenas o lombo de vaca maturada (83€/kg), suculento e saboroso; e o costeletão de vaca de trabalho (93€/kg); sem espaço para os famosos costeletões de boi.

De cozinha cuidada e apresentação irrepreensível, os sabores são pronunciados — aqui e ali talvez demasiado. Como entrada, os ravioli de pato (11€) surgem com um twist: a massa habitual é trocada por uma folhada, recheada com pato saboroso e acompanhados com queijo da Ilha de S. Jorge, vinho do Porto e alperce. Pedia-se um pouco menos de doçura.

Há também uma generosa cavala fumada (15€) equilibrada com os sabores do coco, cereja e limonete que equilibram bem o fumo para que não se torne enjoativo. O lombo com a assinatura de José Gordón leva vantagem sobre o costeletão, cujo peso mínimo de um quilo o torna mais complicado para dividir por dois. Já o lombo é facilmente doseável, com 500 gramas a caírem na perfeição — saboroso, no ponto, acompanhado de batata rústica e um certeiro arroz de frutos secos.

Nas sobremesas, regressam os nomes de artistas. Neste caso, Coco Chanel viu-se homenageada com um baba au rhum, entre sabores de maracujá, manga e coco. Um twist tropical refrescante e que garantiu um final adequado ao desafio do lombo. Tudo isto com um wine pairing sem grandes surpresas, mas que nunca desiludiu.

Mais importante do que este ou aquele pequeno detalhe, sobressai outro mais especial: o staff, atento sem ser intrometido, cuidadoso sem ser demasiado formal. Um pormenor que pode e deve coroar sempre uma boa experiência.

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FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Rua da Restauração 336
    4050-501  Porto
PREÇO MÉDIO
Mais de 200€
AMBIENTE
urbano

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