Durante a primeira década de vida, Maria Martins viveu com os pais e os dez irmãos em Gourim, uma aldeia isolada na Serra da Arada, no concelho de São Pedro do Sul, distrito de Viseu. São poucas as memórias que ainda tem do lugar onde cresceu, mas recorda-se bem das condições de vida naquela região.
“A vida era dura porque eram tempos difíceis, de fome ainda e muita pobreza”, recorda à NiT. “Não havia apoio dos meios que hoje existem para os cultivos no campo, nem as ferramentas, era tudo manual”.
Naquela época, por volta dos anos 60 e 70, a aldeia não tinha luz, nem sequer água potável. “Eram condições muito precárias, mas não deixava de ser o meu lugar.”
Assim foi a vida até a morte dos pais: António Martins, em 1983, e Custódia Rita, no ano seguinte. Nesta altura, a família Martins já era a última a viver na aldeia. Maria, a mais nova dos irmãos, tinha 11 anos e foi viver para casa de familiares, onde durante vários anos esteve a trabalhar como empregada doméstica em troca do alojamento. Foi assim durante o resto da adolescência, até conseguir juntar dinheiro para comprar a própria casa, em Viseu, onde vive atualmente.
“Fomos os últimos moradores de Gourim. Depois, a aldeia ficou entregue a ela mesma, abandonada durante anos”, sublinha Maria Martins, de 53 anos.
A vontade de regressar à aldeia onde nasceu sempre esteve presente, mas só no início dos anos 2000, quando os irmãos decidiram sortear entre eles a casa dos pais na região, é que conseguiu cumprir esse sonho.
“Senti sempre uma vontade, desde pequenina, de voltar ao lugar onde eu nasci e cresci”. E acrescenta: “Tinha esse chamamento de voltar às minhas origens como forma de reencontrar a minha criança que ficou lá perdida.”
Depois do sorteio, acabou por ser a escolhida para assumir a propriedade. Em 2009, arrancou com os primeiros trabalhos de topografia e, no ano seguinte, avançou com as obras. Depois de quase três décadas deixada ao abandono, só “restavam as paredes” da propriedade.
“Estava mesmo em ruína, como muitas ainda que estão lá”, recorda. “Foi um processo de remoção, de reconstrução, de aproveitamento da traça original da casa. Foi possível manter a traça e toda a estrutura original.”

As obras duraram cerca de um ano, com “vários desafios” que Maria teve de enfrentar e períodos em que chegou mesmo a pensar em desistir. Um dos principais problemas era o acesso em terra batida, que não permitia a chegada de uma grua ou qualquer outro equipamento mais moderno.
“Os materiais foram todos levados de trator, não era possível ali instalar uma grua na serra para a reconstrução, nem andaimes. Foi tudo feito de forma artesanal”, recorda. “Com muita luta, persistência e força de vontade, consegui superar estas dificuldades.”
A Casa Margou foi oficialmente inaugurada em 2011. O objetivo inicial era que a moradia funcionasse como um “lugar de reencontro”, onde os irmãos se pudessem encontrar todos os anos — uma vez durante o verão e outra no Natal.
“Como vivíamos todos distantes, não tínhamos contacto, nem convivência. Praticamente já não nos conhecíamos muito bem”, partilha. Desde então, o encontro anual passou a realizar-se durante o mês de agosto.
Pouco tempo depois, em 2015, decidiu abrir a Casa Margou ao turismo. Foi também por essa altura que começou a organizar retiros, mas só com amigos e familiares.
Ao longo dos anos, o negócio tornou-se mais sério. Hoje em dia, realiza quatro experiências ao longo do ano — uma para cada estação.
“Os retiros, no fundo, são para as pessoas viverem toda a envolvência do lugar. Acaba por convidar a essa introspecção e silêncio, que normalmente não têm no dia a dia”, refere à NiT. “Nas cidades, há muito ruído e distração. Portanto, quando vão para ali, o facto de não terem rede móvel e estarem entre as montanhas acaba por ajudar a desligar.”
O próximo retiro chama-se “Descobre o Teu Sol Exterior” e vai decorrer entre 19 e 21 de junho. Custa cerca de 268€ por pessoa. Este valor inclui alojamento, atividades de partilha e pensão completa, com alimentação vegetariana.
A Casa Margou dispõe de quatro quartos, duas salas (uma delas com lareira e outra com vista para a montanha), uma cozinha e um espaço exterior, com piscina. Maria vive atualmente em Viseu, mas visita a propriedade com frequência, mesmo fora da época dos retiros.
Além desta habitação, a única construção recuperada na aldeia é uma capela. “Também fui eu que a recuperei, um bocadinho por consequência do incêndio de 2016. Foi feito o movimento de pedido de restauração, mas quem dinamizou e fez todo o processo fui eu.”
Além dos retiros, a Casa Margou está disponível para aluguer, durante um período mínimo de duas noites. Os preços das diárias variam mediante o número de pessoas. Para um casal, por exemplo, rondam os 55€.
As reservas podem ser feitas através da página do espaço ou da plataforma Airbnb.
Carregue na galeria para ver algumas fotografias da Casa Margou.







