Turismos Rurais e Hotéis

Nesta aldeia escondida da Serra da Estrela, a vida é boa — e é para viver devagar

As Casas da Lapa nasceram entre o casario da pequena localidade que não é postal, mas é para guardar na memória.
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O ritual repete-se sempre que chegamos a um quarto num novo hotel. Varremos a área com o olhar, absorvemos alguns pormenores e deixamo-nos levar, inevitavelmente, até aos locais que mais puxam por nós. A ampla janela a toda a altura e largura do quarto irradia luminosidade. Abrindo os cortinados, o cenário é ainda mais deslumbrante: o verde sinuoso do sopé da Serra da Estrela serve de quadro às Casas da Lapa, hotel que se ergueu e foi construído de um conjunto de casas na aldeia da Lapa dos Dinheiros, a poucos minutos de distância de Seia.

O corpo deixa-se absorver pela pele do cadeirão estrategicamente colocado junto à janela. A mente descansa, as pálpebras relaxam e pousam naturalmente. Quem preferir, pode fazer o mesmo exercício da enorme banheira à distância de um braço. Se isto não fosse possível nesta pequena aldeia serrana, não seria possível em mais lado nenhum.

O projeto tem a assinatura de um casal com raízes na aldeia e que, em 2005, decidiram ajudar a reanimar a aldeia. Começaram com uma casa, poucos anos juntaram-lhe outra. Hoje, as Casas da Lapa engloba um total de oito casas, unidas uniformemente por uma decoração moderna e limpa, elegante e que saltita entre as áreas mais soturnas e acolhedoras — caso da sala de estar, onde imperam os couros, as madeiras e a rocha, que circundam o aconchedo da lareira — e as mais arejadas e leves, caso do restaurante e do spa.

A funcionar desde 2015, tem hoje 15 quartos, oito suites e três piscinas, além de uma biblioteca e sala de cinema. A área do spa reservada aos alojamentos exclusivos para adultos privilegia a paz e o sossego. Do outro lado, junto às três piscinas separadas pelos socalcos, ficam os quartos pensados para famílias. Escondida nesta zona exterior está uma cascata, sempre com água, mesmo no verão, para um duche fresco, retemperador e pouco usual.

Para chegar às Casas da Lapa tem mesmo que se deixar embrenhar pelas estreitas ruas. “Não é uma aldeia postal, é uma aldeia vivida”, alertava Maria Manuel Silva, proprietária. E é verdade. Não é pela beleza das suas casas que a Lapa dos Dinheiros cativa, mas basta percorrer um par de ruas para encontrar a vivência típica destas localidades serranas, acolhedora, simpática, disponível. Tudo adjetivos que encaixam na perfeição na experiência do hotel.

O cuidado e atenção estão naturalmente vincados igualmente na decoração, pautada por obras de artistas e artesãos portugueses, curadas pelos proprietários. Talento óbvio que se reflete, por exemplo, na fotogénica biblioteca, coroada com uma sala de leitura que procura replicar as buracas, salas escavadas na rocha que existem um pouco por todas as casas de aldeia da região. Um ambiente que é capaz de colocar a ler até o mais cético dos leitores.

Adaptado o corpo ao ritmo da aldeia, resta escolher o que fazer. Pode dar um salto até ao spa, de tons marinhos e límpidos, com uma piscina interior que poderia ter uma água alguns graus acima. E, já agora, uma música que pudesse quebrar o silêncio que, por vezes, se torna uma presença no espaço — sabemos que pode ser uma opção polémica, já que há quem prefira a ausência de música; e é, aliás, opção de muitos spas por Portugal fora.

As refeições fazem-se noutra sala que assume o mesmo espírito clean, recheada de apetitosos apontamentos decorativos e plantas, muitas plantas que dão vida ao espaço onde, ao pequeno-almoço, se é recebido com uma pequena seleção de produtos locais levados à mesa: destaque para os sumos naturais e uns hoje raros ovos com sabor a ovo. Variedade quanto baste para quem, como eu, se assusta com buffets demasiado avantajados e não raramente atabalhoados.

É ali mesmo que se servem igualmente os jantares, em menus diários que contemplam cinco momentos, com um valor a rondar os 40€ já com vinhos incluídos. À mesa chegou também um elenco de produtos da época, com um reconfortante creme de ervilha com ovo escalfado ou um bacalhau confitado; e um agradável surpresa final de sabores familiares reinterpretados, do doce de abóbora, requeijão e queijadinha, embrulhados numa composição fresca e gulosa. Cozinha caseira, de conforto, sem enormes pretensões, mas que cumpre o seu propósito.

Os mais aventureiros podem calçar as botas e ir à procura dos segredos naturais da aldeia, das formações rochosas às cascatas, há muitas e boas vistas para espreitar nas redondezas — e que não obrigam a grandes ginásticas, para reconfortar os menos habituados a percursos em zonas mais acidentadas. Há, no entanto, muitos trilhos mais ambiciosos, que podem ter as Casas da Lapa como ponto de partida para exploração da Serra, isto para que não se pense que na Lapa dos Dinheiros, o espírito é apenas o de alapar no sofá.

E por falar em sofá, temos a certeza que a nossa mente irá regularmente viajar até àquele recanto junto à janela, ao silêncio da paisagem e ao conforto e aconchego do maravilhoso cadeirão que nos embalou. Pelo menos até à próxima visita, porque a experiência é para ser repetida.

Carregue na galeria para ver mais imagens das Casas da Lapa.

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Rua Eira de Costa, 10, Lapa dos Dinheiros
    6270-651 Guarda - Portugal
ESTILO
turismo de aldeia
PREÇO MÉDIO
entre 151€ e 250€
AMBIENTE
serra

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