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Quinta de Ventozelo: a melhor escapadinha do Douro tem esta vista

O enoturismo é um refúgio encantador, de onde qualquer hóspede sai mais feliz. Leia a crítica da NiT.
A vista é um autêntico postal do Douro
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Uma explosão colorida de aromas. É com este presente perfumado que todos os hóspedes são recebidos à chegada à Quinta de Ventozelo, um bombástico remédio natural para a boa disposição. O segredo não é imediatamente decifrável, mas percebe-se à medida que se percorrem os caminhos de terra.

Ao lado da entrada, as plantas aromáticas amontoam-se, num circo de cores e cheiros. A pouca distância estão as laranjeiras, cobertas do fruto e do colorido das flores, que atraem o zumbido incessante das abelhas. Mais em baixo, a horta e, nos socalcos a perder de vista, os 200 hectares de vinha.

Curiosamente, ou talvez não, todos estes cheiros acompanham aquela que é a experiência de viver por um ou mais dias nesta quinta do Douro — até chegarem à obrigatória prova dos vinhos, onde todos esses aromas desaguam e permitem então perceber a identidade própria de Ventozelo.

É entre curvas e contracurvas que se parte do Pinhão até ao topo, para depois descermos novamente rumo ao coração dos enormes 400 hectares daquela que é uma das maiores quintas do Douro, com mais de 500 anos de história. E é ali que, desde 2019, mora um dos mais recentes e entusiasmantes enoturismos da região.

Distribuídos pelos diferentes edifícios, é possível encontrar o restaurante e o wine bar, mas também um centro interpretativo, a receção e, claro, os 29 quartos, separados por casas distintas. À entrada, a Casa do Feitor esconde cinco quartos duplos, o mesmo número dos que existem na Casa do Laranjal — na Casa dos Cardanhos, mais abaixo, há ainda sete quartos superiores com vista privilegiada sobre o rio.

Há ainda duas tipologias a destacar. A Casa Romântica, que foi em tempos casa do jardineiro da quinta, de onde se mantêm as paredes de pedra, expandidas com um quarto de paredes em aço corten — material que, de resto, é usado em tudo o que não faz parte das pré-existências.

Saltam a vista na paisagem, brancos, arredondados, volumosos, os balões que em tempos armazenaram vinho e que, hoje, acolhem dois dos quartos mais curiosos da Quinta. São duas suites independentes recheadas de história e pormenores. Foi também a nossa casa por uma noite.

À entrada, uma escadaria cria uma pequena varanda privada e isolada, com vista sobre as vinhas e rodeada de três paredes envidraçadas que, abertas, permitem iluminar toda a sala e quarto. A sala, montada bem no centro do balão, cria um ambiente desafogado e simultaneamente acolhedor. O teto côncavo, rugoso, permite respirar; os aromas de laranja e citrinos refrescam o ambiente.

O quarto, sem ser demasiado espaçoso, é confortável e esconde a última surpresa que é quase impossível de desvendar do lado de fora: um duche duplo que pode ser usado no interior ou, abrindo a porta de vidro, no exterior — a claraboia aberta oferece toda a privacidade necessária, sem se fechar aos aromas da quinta e, porque não, à chuva, que pode substituir a água do chuveiro.

Cores ténues, decoração sóbria, elegante, um toque clássico aqui e ali. Um bom gosto a toda a prova e uma visível atenção aos detalhes que fazem toda a diferença, embora alguns escapem aqui e ali. Os madrugadores não se importarão, mas a luz do sol que nasce mesmo em frente à entrada do quarto — e que teima em espreitar pelos limites dos blackouts — pode ser um obstáculo a uma noite bem dormida.

No que toca ao alojamento, as surpresas não estão, porém, totalmente esgotadas. Nos imensos hectares da quinta escondem-se ainda duas casas privadas. A Casa Grande, que pertenceu aos antigos donos, que foi restaurada e é totalmente independente com seis quartos, sala, biblioteca, piscina privativa e muito espaço verde. Um pouco mais longe e a escassos metros do pontão que boia no rio — onde alguns hóspedes chegam diretamente — está a Casa do Rio, também independente, mas apenas com dois quartos.

De volta ao coração da quinta, é sobre toda a horta biológica, de onde saem os frutos e vegetais servidos, que mora a Cantina de Ventozelo, palco de pequenos-almoços, almoços e jantares. No exterior, uma fogueira acende-se para aquecer corpos e o ocasional petisco. Para confeções mais elaboradas e saborosas, presta-se ao serviço o vizinho forno a lenha.

O castigador tempo de primavera e a sua chuva obrigou, durante a visita, a mudar todas as operações para o interior, uma sala que encontra um bom equilíbrio entre o espírito clean e minimalista e o clássico. Estamos afinal, numa quinta, e as superfícies brancas coabitam com as madeiras e as rochas, também elas pintadas de branco e que conferem uma textura fresca ao espaço.

Não é demasiado grande, dá-se a um ambiente mais intimista e acaba por não fazer ninguém chorar pela impossibilidade de fazer as refeições na esplanada. A carta tem a assinatura de Miguel Castro e Silva e aposta, como seria de esperar, nos sabores portugueses da região, na sua maioria com confeções simples, sem grandes artifícios mas com muito sabor.

Comida tradicional, legumes biológicos e bom vinho — são assim as refeições em Ventozelo

Aos almoços, há sempre pratos do dias, que deixam espaço para o maior cuidado e escolha dos jantares. O polvo era o convidado especial desse dia, saboroso, ligeiramente inconsistente na textura — por contraste, os espargos rechonchudos e amanteigados brilharam e deram origem a um daqueles momentos em que pensamos: se isto são verdadeiros espargos, o que raio são aquelas coisas verdes e fibrosas que nos impingem nos supermercados?

Para acompanhar, está sempre disponível o lote de vinhos de produção própria da quinta, quase todos disponíveis a copo, com direito a dois blends feitos pelo próprio chef, também eles mais gastronómicos.

Ao jantar, o cenário muda de figura: com a carta em pleno funcionamento, somos convidados a escolher entre cinco entradas, seis pratos principais e dois pares de guarnições — e nem os vegetarianos foram esquecidos, com direito a duas opções.

Se o paté de carne barrosã com picles da quinta deslumbrou no sabor, ainda que ligeiramente seco, a tarte de caça com trompetas podia ter sido repetida em mais duas ou três doses: massa crocante, recheio saboroso e húmido.

O mesmo de pode dizer da posta de vitela barrosã com molho vilão — aqui servida com os tradicionais milhos, confecionados com tomate e ervas. Pequena desilusão com a sobremesa, a farófia com frutos vermelhos e bolo preto de canela, que apesar de agradáveis, pareciam elementos que teimavam não casar no prato.

Ao fim de três visitas à Cantina, em horários diferentes, as caras tornaram-se familiares. O atendimento, informal quanto baste, foi atencioso e acolhedor, embora por vezes demorado. As mesmas caras acompanharam-nos ao almoço, jantar e no dia seguinte ao pequeno-almoço — porventura um reflexo da crise da falta de mão de obra na hotelaria.

Pela fresca, ao pequeno-almoço, não se espere um buffet farto. Os horários são previamente reservados e permitem um serviço à carta, na mesa. Um tesouro para quem, como eu, não troca o cuidado e comodidade deste serviço pela fartura das mesas a abarrotar de queijos, pães e folhados.

Foco na qualidade, do pão, do café, do bolo e das compotas e mel. Há ainda iogurte com granola, frutos e alguma charcutaria e queijos, bem como os clássicos ovos com bacon ou cogumelos. Para terminar, um convidado surpresa: umas deliciosas panquecas de aveia, feitas ao momento com três acompanhantes: chocolate, requeijão e mel, ou maçã caramelizada. Se puder, peça sempre esta última hipótese — dia que comece assim, dificilmente correrá mal.

É fora de portas que se vive a quinta e importa dar nota da piscina infinita, entretanto fechada até que o tempo permita o seu uso a cem por cento. Ela é, contudo, um pequeno bónus, porque Ventozelo (e o Douro) estão longe de ser um resort veraneante. É uma quinta e, por aqui, há muito mais para conhecer e aproveitar.

É trocar os chinelos pelas sapatilhas e botas, pegar num dos audioguias e aventurar-se por um dos vários trilhos sinalizados que percorrem a quinta — uns mais complicados, outros nem tanto — e o levam às vinhas e parcelas mais icónicas e escondidas. Alguns requerem transporte e levam os hóspedes aos confins da quinta. O esforço pode sempre ser recompensado com um bom copo de vinho branco no regresso.

Ventozelo promove também passeios de jipe, atividades gastronómicas e até levar os hóspedes a pôr as mãos na horta. Na verdade, há muito mais para fazer, quando se cansar de ler refastelado nos cadeirões com as vinhas a servirem de moldura às páginas.

E não seria uma visita digna sem explorar e provar os vinhos que são a razão de ser da quinta. É aqui que o círculo se completa: sugestionados ou não pelos aromas arrebatadores da quinta, é impossível não os reencontrar no copo, nos aromas perfumados da Touriga Nacional ou na fruta do Viosinho.

É, no fundo, uma experiência completa do Douro, numa só quinta, que convida a provar cada copo, a visitar cada vinha e a viver cada uma das atividades. Uma tarefa inglória para um escasso dia que, no entanto, foi suficiente para nos cravar na memória olfativa os cheiros (e o charme) inconfundíveis de Ventozelo.

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FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Quinta de Ventozelo
    5130-135 S. João da Pesqueira - Portugal
ESTILO
turismo rural
PREÇO MÉDIO
Mais de 200€
AMBIENTE
wine house

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