Turismos Rurais e Hotéis

Uma estadia no Vinha Boutique Hotel é o retrato de uma vida bem vivida

Do spa mágico à opulência dos pratos do chef Sá Pessoa. Quase nada falha neste recanto do Porto, mesmo quando a chuva cai.
Vai passar horas na piscina.
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Uns raios de sol que ameaçam um dia de verão em plena primavera, deixam-se subitamente envolver pela sombra das nuvens carregadas. Cai, desalmadamente, a chuva. É, portanto, mais um dia normal para o imprevisível clima de abril no Porto. Este poderia ser o prenúncio que poderia arruinar uma visita de sonho ao Vinha Boutique Hotel, um dos mais recentes hotéis de luxo da cidade, não estivesse ele perfeitamente apetrechado para qualquer eventualidade.

Percorrê-lo é como receber um abraço das paredes de cores quentes e texturas rugosas e macias. É um look pouco habitual, decididamente maximalista, que quebra com a aparente simplicidade nórdica que parecemos querer replicar até à exaustão em todos os recantos.

É um ambiente que vive de excessos, sem ser excessivo; que toca no clássico sem ser antiquado; que é cool sem se esforçar demasiado. É o equilíbrio pleno, conseguido pela proprietária e arquiteta Joana Poças, que tomou para sua responsabilidade o projeto do hotel, bem como da decoração.

Lá fora, a chuva impedia as saídas para os passeios pela propriedade que chegou a ser um dos maiores pomares da cidade. Em 2021 o palacete do século XV surge renovado, ele que pertenceu ao clero, foi ponto central da Quinta da Fonte da Vinha que chegou a ser uma das maiores da região e que hoje reserva 3,5 hectares para os seus hóspedes.

Aberto desde junho do ano passado, o palacete carmim faz-se agora acompanhar de um novo edifício, mais moderno, que permite que o hotel abrigue um total de 38 quartos, 19 deles temáticos. Com o luxo como tema principal, no interior destes aposentos encontramos grandes casas, de Hermès a Christian Lacroix ou a Ralph Lauren. Para chegar a este último percorre-se a ligação que une o novo e o antigo. Do outro lado da janela, a chuva continua a cair — mas já ninguém dá por ela.

A vista da varanda para os jardins que conduzem ao rio — e onde sobressai a ampla piscina — é o último dos pormenores a saltarem à vista. Da cabeceira em capitoné ao papel de parede escuro, floral, ao mobiliário robusto e imponente, tudo parece inclinar-se para o ambiente mais clássico.

No contrapeso da balança, precisamente do lado oposto, é impossível não reparar na enorme banheira assente na mármore que percorre toda a casa de banho aberta para o quarto. Um alívio necessário e bem-vindo, embora não tivesse caído mal a possibilidade de isolar a parte mais privada da casa de banho do quarto. E por falar em pormenores, vale a pena consultar o menu de almofadas, um requinte de luxo para os que sentem sempre saudades do volume e fofura ideal da sua almofada lá de casa.

O quarto Ralph Lauren é uma das 19 suites temáticas.

Os planos para aproveitar a enorme área exterior do hotel saíram furados. Em dias menos chuvosos e frios, é possível agarrar numa das bicicletas e, saindo pelo portão, aproveitar a ciclovia que liga Avintes até à Marina de Gaia, junto ao mar. Os menos ativos podem sempre espraiar-se junto à piscina. Mas, como tinha avisado, o Vinha está apetrechado para todas as eventualidades.

No subsolo, mas não menos iluminado, reside o Spa da Sisley, que é por si só um motivo para justificar uma visita ao local. Os circuitos simples pelo Spa — e que incluem a sauna, o banho turco, um duche sensorial e as duas piscinas — duram pelo menos 90 minutos e custam 35€. Apostamos que grande parte desses minutos serão passados na larga piscina que, não sendo infinita, conduz a uma enorme janela com vista para o jardim, onde sobressai uma enorme e antiga oliveira.

O número de visitantes continua a ser controlado, sob reserva, e por isso existe a garantia de que nunca estará demasiado cheio. Num pequeno recanto, outro segredo: a Vitality Pool, onde a água é mais quente, para proporcionar um relaxamento total. Através dos pequenos botões, ativam-se os jatos que relaxam costas, pernas, peito e a alma.

A Vitality Pool é outra das boas surpresas do spa.

Um pequeno senão que não joga a favor de todo este ambiente sereno: o ruído mecânico da máquina de gelo que poderia ter sido abafado com um simples pormenor: uma música ambiente. Era o toque que faltava — foi quase perfeito.

O menu do spa inclui um sem número de massagens, das faciais às desportivas, com valores que arrancam nos 100 euros e que os podem levar às salas mais privadas ou até às Nature Rooms, salas de relaxamento erguidas nos jardins. Por fim, as massagens podem também ser feitas nos quartos, por um pequeno extra.

A chuva terá sido, então, uma bênção. Foi este o único pensamento que nos acompanhou de volta ao quarto, já com corpo e mente perfeitamente relaxados e em sintonia. Quando não há esplanada, recolhe-se ao calor do bar, o Reserva, escondido por detrás de um corredor “limpa palatos”, onde em contraste com o espírito do Vinha, impera o branco total , nas paredes, nos ramos que percorrem o espaço, até dar lugar à montra da adega onde se exibem, com volúpia, algumas preciosidades engarrafadas.

Mais aptas a saírem da garrafa estão, no bar, as bebidas que são matéria-prima dos cocktails de assinatura do Reserva. É um espaço pequeno, íntimo, sensual quanto baste, mas onde também é possível passar para um petisco e pratos mais leves. Os pesos pesados, esses ficam reservados para o Vinha, o restaurante gastronómico que em março apresentou a sua nova carta assinada pelo chef Henrique Sá Pessoa — que veio substituir o chef Renato Cunha — e que por lá passará pelo menos uma semana por mês.

Pequeno no tamanho mas grande na ambição, o espaço de fine dining tem apenas capacidade para 27 pessoas. Na verdade, a opulência da pequena sala faz-nos esquecer que temos companhia. No centro, um enorme lustre de cristal serve de centro a um espaço dominado por um exotismo amazónico. Os sóbrios tons pretos, verdes, conjugam-se com os padrões florais e animais. Sem exageros.

O Vinha é o restaurante de fine dining do hotel.

Os novos pratos trazem mais da mesma filosofia que já existia: sabores bem portugueses, tratados com pinças. A montra da nova carta faz-se no menu de degustação com cinco momentos, poucos mas bons, para não cansar e evitar longas maratonas — o suficiente para percorrer a rota de sabores bem portugueses, que começam com um tártaro de carapau com algas, suportado por uma massa estaladiça, leve, quase impossivelmente fina. No contrapeso, uns aconchegantes croquetes de rabo de boi com compota de cebola.

Começa a viagem com um figo confitado em calda de açúcar com noz caramelizada, acompanhada (e contrabalançada) por uma espuma de queijo de cabra com 22 meses de cura — um casamento clássico que não embasbaca, mas que cai sempre bem. Uma nota para a super cremosa manteiga dos Açores, levemente fumada e pintalgada com pedras de sal, que acompanha o pão, e que poderia ser um momento em si próprio — dane-se o colesterol.

O menu traz ainda uma azevia a vapor com puré de ervilha e um óleo de chouriço de porco preto, combinados por um molho hollandaise de noisette que serve de elo de ligação; o robalo com espuma de crustáceos e arroz de carabineiro, intenso, como se quer, com a dose perfeita de acidez; e uma terrina de cabrito com zest de tomilho e migas de grelos.

O robalo com arroz de carabineiro.

Para terminar, a acidez crocante as texturas de maçã verde a abrirem o caminho a um Abade de Priscos incomum, feito sem gordura — na verdade, pela textura, ninguém o diria —, acompanhado de sorvete de tangerina e crumble de amêndoa. Tudo isto acompanhado com um wine pairing certeiro, de uma dupla de espumantes no arranque, aos curiosos brancos e com a sempre surpresa agradável da escolha de um colheita tardia para acompanhar a sobremesa — e cortar levemente na doçura.

Neste trio de espaços para comer e beber, sobra o Terroir, o amplo e luminoso espaço junto ao jardim onde são servidos os almoços e os pequenos-almoços. Na mesa principal encontrámos alguma fartura em pouca variedade. A fruta era fresca, mas pouco variada. Os folhados saborosos, cereais, iogurtes, o pão fresco, nada desiludiu, mas não acompanhou o nível de luxúria que se elevava até então. A surpresa, porém, estava guardada para a pequena ementa livremente disponível a pedido e colocada na mesa.

Quatro opções eram sugeridas, o clássico ovo estrelado, uma omelete, os waffles (de massa saborosa e húmida) e, a estrela, o ovo a baixa temperatura com bacon, pão torrado, legumes biológicos e jus de cebola e gengibre. Um prato digno de restaurante, com os vegetais cozinhados no ponto, crocantes, saborosos, envoltos na gema cremosa. Digno de ser, por si só, a peça única deste pequeno-almoço.

O ovo BT que coroou o pequeno-almoço

Faltou, claro, aproveitar o que a chuva não deixou, o ambiente de sol e calor do exterior deste hotel que, mesmo às portas do Porto, parece ser já mais uma peça do Douro vinhateiro. Essa experiência ficará para depois, mas neste dia de chuva, o Vinha superou uma prova difícil e mostrou que é um hotel à prova de tudo — e que no campo da pura opulência, terá muito poucos rivais na cidade.

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FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Rua Quinta Fonte da Vinha, 383
    4430-487 Vila Nova de Gaia Vila Nova de Gaia - Portugal
ESTILO
hotel
PREÇO MÉDIO
mais de 250€
AMBIENTE
rio

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