Turismos Rurais e Hotéis

Vinhos, natureza e estrela Michelin: o hotel de luxo que já chegou a Viseu

Tem sete quartos fantásticos onde ainda não pode dormir. Neste recanto tudo é delicioso — e bonito.
Vai ter que esperar

A visão do edifício futurista e minimalista surpreendeu Pierre de Lemos. As linhas eram elegantes, sinuosas, tentadoras. “Mas isto em Silgueiros?”, questionou incrédulo o filho do empresário têxtil que teve a visão de levar Portugal ao mundo, trazendo o mundo até à pequena freguesia de Viseu.

A autoestrada dá lugar a um percurso cada vez mais estreito. Uma viragem apertada à direita leva-nos a um caminho ainda mais estreito, primeiro entre pequenas casas, depois entre a paisagem selvagem. O caminho abre-se à entrada da Quinta de Lemos, a cerca de 10 minutos de Viseu.

Foi ali que o empresário português, que cedo se mudou para a Bélgica para estudar — e onde criou um império do têxtil —, decidiu em 1997 deixar parte do seu legado. Um pequeno terreno foi crescendo e hoje a quinta de 50 hectares é uma espécie de paraíso no interior.

Vinhos de excelência, um restaurante com estrela Michelin e quartos de fazer suspirar. Se hoje é possível beber os vinhos da quinta e provar os pratos do chef Diogo Rocha, será mais difícil dormir uma noite numa das sete luxuosas suites. Não será por muito tempo.7

O Mesa de Lemos ganhou a primeira estrela Michelin em 2019

Pode dizer-se que este é um dos hotéis mais bonitos do País onde (ainda) não pode ficar. Poderiam já estar ao dispor de todos, não fossem uns quantos contratempos e uma imprevista pandemia intrometerem-se nos planos.

“Nós vamos abrir ao público”, afiança à NiT Pierre de Lemos, o presidente-executivo da empresa criada pelo pai e que hoje gere os caminhos da quinta. Se os primeiros terrenos foram comprados no final dos anos 90, a adega só ficou de pé em 2001. Mais tarde, em 2014, nasceria o centro de todas as atenções, o moderno edifício projetado pelo atelier Carvalho Araújo e decorado por Nini Andrade Silva.

A herança têxtil

Criado com espaço de restaurante e três suites, os quartos foram inicialmente usados como showroom dos produtos da marca, fabricados ali a dois passos, na fábrica da Abyss & Habidecor. Na verdade, frisa Pierre de Lemos, o grupo tem agora cinco faces:“A Habidecor é a nave mãe, que começou tudo, a produzir tapetes de casa de banho. Depois veio a Abyss, com a geração mais nova. Mais tarde começámos a experiência dos lençóis, tudo o que há para casa, ainda mais luxuoso. E demos-lhe o nome de Celso de Lemos em homenagem ao meu pai. Depois vem o vinho e o restaurante, que hoje tem uma estrela Michelin”, esclarece.

Claro que sim, todos os têxteis são da marca própria

As toalhas são, aliás, o orgulho de família. É com elas que começa a refeição no restaurante estrelado — os famosos exemplares que o “Wall Street Journal” apelidou de “melhor toalha do mundo”, vendida nos melhores armazéns do mundo.

“Temos uma relação direta com os nossos clientes, não há distribuidores. E esta relação fazia com que fôssemos ter com eles a qualquer lado. Chegou a um ponto em que quisemos mostrar-lhes Portugal, o que significava a etiqueta ‘Made in Portugal’. Decidimos construir uma casa, nem sabíamos bem o que queríamos, mas sabíamos que tinha que ter um restaurante”, explica.

É nessa casa que recebem ainda hoje clientes todas as semanas. Clientes e amigos que têm o prazer de vir conhecer o que de melhor há no país e, pelo caminho, pernoitar nos quartos exclusivos que partilham o teto com o restaurante Mesa de Lemos. E claro, o objetivo era apenas um: o de convencer os clientes a dormirem entre os lençóis sedosos da marca e, dessa forma, convencê-los a fechar negócio.

O edifício

Betão, vidro, rocha. É este o trio que define o edifício que é muito mais do que a mera acumulação dos materiais. Talvez por isso tenha tido a honra de fazer parte da lista de finalistas do Edifício do Ano do portal ArchDaily.

A ala dos quartos

É um piso único, sem construção em altura que pudesse perturbar a paisagem. De um lado, a rocha maciça, do outro apenas vidro. É que em sítio algum desta casa há ecrãs. “Não há televisões nem nunca haverá. As nossas televisões são os vidros, o Portugal que está lá fora”, frisa.

O que hoje parece ser consensual, deixou algumas reticências no seio da família. “Vou ser sincero. Quando vi o projeto, a minha reação foi: ‘Que espetáculo de edifício, mas aqui? Em Silgueiros? Têm a certeza?’. Não estava a ver bem a coisa, o meu pai é um visionário, eu sou mais pragmático”, recorda.

No interior há hoje sete suites, todas elas iguais, com um quarto completamente aberto à natureza, onde a única separação é um vidro que une chão e teto, a todo o comprimento. As casas de banho são igualmente amplas e abertas — a privacidade está, ainda assim, garantida. Bem como está garantido que toda a roupa de cama e de banho é da marca própria, “como não podia deixar de ser”.

A piscina interior da Quinta

Paredes de betão despojadas, cruas, arte nas paredes, rocha, ar puro. Fora dos quartos, há ainda uma piscina interior aquecida, que com o restaurante cumpre a trilogia deste edifício que em breve será um pequeno hotel de luxo.

De resto, Pierre de Lemos garante ligação absoluta e imprescindível com a natureza. Programas de vindimas, gastronomia, produção de azeite, fauna e flora da região, passeios pela quinta. Tudo para mostrar “o melhor de Portugal”.

Hoje recebem já muitos pedidos para pernoitar, mas por enquanto isso só é permitido em situações muito excecionais. Com vinhos de prestígio, cada vez mais premiados e elogiados, o enoturismo está também na mira de Pierre de Lemos, que deixa apenas uma garantia a quem ficou a salivar e a suspirar por uma noite de sonho na Quinta de Lemos: “Dentro de dois anos estaremos abertos”. Pelo que se vê, a espera vai valer a pena.

Por enquanto, ainda não pode dormir nestas suites

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