Viagens

75 mil quilómetros e 29 países. Joana e André percorreram África de autocaravana

O casal português transformou uma carrinha numa casa sob rodas, para fazer a viagem “devagar e com calma”.

Em julho de 2022, Joana Peixoto (30 anos) e André Patrício (37 anos) deram início à aventura de uma vida. Com a Caracunda, uma Toyota Hiace com mais de 20 anos, partiram de Moçambique (país onde viveram seis anos) rumo a Portugal.

O casal resolveu despedir-se de África com uma viagem inédita. Calcorrearam o continente com uma “carrinha usada para transporte de passageiros em Moçambique” que transformaram numa casa sob rodas. A Caracunda (o nome que escolheram para o veículo) foi a grande protagonista desta jornada. Percorreu 75 mil quilómetros, com alguns entraves pelo meio, e atravessou 29 países. 

Apesar de ambos terem nascido em Portugal — ela é de Sintra e ele de Pombal —, o casal conheceu-se na província de Niassa. Joana trabalhava na gestão de projetos de cooperação para o desenvolvimento, ligados à educação e direitos das crianças, e André era coordenador de emergência médica.

Há cerca de dois anos, decidiram que estava na altura de regressar a Portugal. Porém, queriam fazer a viagem “devagarinho e com calma”. Chegaram ao nosso País no início de fevereiro e contaram à NiT algumas das aventuras que viveram pelo caminho. 

Após quase dois anos de viagem com a Caracunda, regressaram a Portugal. Como se sentem?
Acho que ainda estamos a regressar. A mente e a alma ainda estão a aterrar.

Foram quantos meses, ao certo?
Um ano e dez meses, quase dois anos. Deixámos a nossa casa em Moçambique, pela primeira vez, em junho de 2022, quando começámos a viver dentro da Caracunda, mas ainda viemos a Portugal, por volta de setembro ou outubro, e só depois regressámos para a maior aventura.

A Caracunda já tem mais de 20 anos. Como se portou nesta viagem?
Portou-se muito bem. Ouvimos a vida toda dizer que os Toyotas eram carros para a vida e agora podemos confirmar. No Botswana tivemos um problema com um tubo rasgado que fez sugar areia para dentro do motor e isso levou a uma intervenção muito grande no motor. Desde aí que sentimos que não ficou a 100 por cento, mas seguimos viagem e ela continuou-se a portar-se muito bem.

Assim que atravessámos a África Central e chegámos à Nigéria, deixámos o carro numa oficina na cidade de Benin. Os rapazes eram sapateiros e não mecânicos, e acabaram por estragar muitas coisas. Deixaram-nos o carro em pior estado do que já estava, e aí é que se gerou um problema muito maior. Quando chegámos ao Gana, a Caracunda estava presa por fios e as coisas do motor estavam muito feias, tudo mal encaixado, mas conseguimos sempre resolver as situações.

 
 
 
 
 
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Passaram em estradas em muito mau estado, foram obrigadas a trocar de pneus muitas vezes?
Não, por acaso não. Só na Namíbia, que nos destruiu os pneus. Não por serem estradas más, mas porque eram praticamente todas em terra batida ou em pedra. Basta haver uma pedra mais afiada e destrói logo os pneus.

Ao longo dos últimos meses, quais foram os momentos que mais vos marcaram?
Conseguimos destacar imensos momentos de beleza no sentido de que aquilo que estávamos a viver era incrível. Mas acho que aqueles momentos em que estávamos menos preparados, em que tínhamos de nos safar, eram os que nos davam mais pica. É um sentimento de superação muito grande.

Os animais, as cascatas, as montanhas, o deserto, tudo isso é incrível, mas a sensação de ter cumprido a missão de chegar do ponto A ao ponto B, com o nosso carro, é maior do que tudo.

As pessoas ficavam curiosas quando viam a Caracunda?
Muitos achavam que éramos um táxi e achavam piada.

Qual foi a melhor parte da viagem?
As pessoas, sem dúvida. Até nos países conhecidos por serem mais problemáticos, as pessoas eram incríveis. 

Conseguem destacar algumas? 
Lembro-me do nosso guia de montanha no Kilimanjaro, que é de facto uma pessoa excecional e tinha uma empresa de trekking. Depois lembro-me logo do Nico, o nosso guia turístico da Namíbia que veio falar connosco só porque viu o nosso carro e achou piada. Uns dias mais tarde, fomos jantar com ele e a esposa.

O sultão dos Camarões é uma das melhores pessoas que já conhecemos. Já viveu em França, tem uma posição de poder e de prestígio, mas a humildade com que ele nos recebeu e tudo o que fez por nós… Não sei se há muitas pessoas assim no mundo. 

Basicamente só o fomos visitar, mas no dia seguinte, como íamos passar numa fronteira que, na verdade, não é oficial, um dos chefes dos serviços aduaneiros criou-nos muitos problemas, inventou muitas histórias e bloqueou a nossa saída. Tivemos lá bastantes horas a tentar resolver a situação e quem nos ajudou foi o tal Sudão, que falou com a polícia e a migração. Era uma figura importante e estando ele presente, ninguém ia tentar boicotar nada. 

Disponibilizou-se a ajudar-nos, mesmo não nos conhecendo de lado nenhum. E não foi o único, havia sempre alguém que estava disposto a ajudar-nos. Acaba por ser engraçado, não é? Crescemos todos com a ideia de que os africanos estão sempre a pedir e é tudo muito pobre, mas a verdade é que estavam sempre dispostas a ajudar e acolhiam-nos como se fôssemos da família.

Onde passaram mais tempo sem ver ninguém?
Provavelmente na Namíbia, numa zona que é o Skeleton Coast, um parque nacional no deserto onde fizemos centenas de quilómetros sem ver ninguém. No Quénia também andámos muito tempo na estrada sozinhos, mas passámos por muitas comunidades Maasai. Como estão dentro da floresta, quase que nem dávamos por eles. 

Viveram alguma situação mais perigosa?
A que salta mais à vista é a que aconteceu na Guiné-Bissau. De repente, estávamos rodeados por 100 homens armados. Estávamos a fazer campismo selvagem, no meio de umas plantações de cajus, escondemos a carrinha no meio das árvores e pensava que estava tudo bem. Não existiam vilas nas proximidades, mas a certa altura vimos uma luz lá ao fundo, que depois desapareceu. Estávamos dentro da carrinha a fazer chá quando percebemos que estava alguém lá fora. Saímos os dois e começámos só a ver luzes a aparecer na floresta. Não paravam de chegar homens, todos uma espingarda ou um pau.

E depois, o que aconteceu?
Conseguimos conversar com eles, alguns gritavam a dizer que não podíamos estar ali. Pedimos para se acalmarem e explicámos quem éramos e lá perceberam. Basicamente eram os homens da aldeia mais próxima, que se organizaram todos para ver o que acontecia, porque esta é uma zona onde costumam roubar muitos cabritos. Acabámos a noite a de mãos dadas com uma data deles. No dia seguinte passámos com a carrinha pela vila e parecíamos estrelas de cinema.

Qual foi o país que mais vos surpreendeu, seja pela positiva ou pela negativa?
Nigéria e Angola. Angola por ser um país diferente, crescemos em Portugal a pensar que todos nos tentavam assaltar, mas é o maior engano que pode haver. Os angolanos são amorosos, além da diversidade de paisagens que existe no país. Apesar de ter sido um país muito complicado, estava que a Nigéria fosse pior.

 
 
 
 
 
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Complicado em que sentido?
É o país mais populoso e há sempre coisas a acontecer. Depois, vive muitas situações de conflito e insegurança por razões diferentes. Tínhamos de ter muita atenção com tudo, nas zonas mais centrais há conflitos internos e alguns ataques que têm levado a muitos raptos, o que nos deixava um pouco inseguros. As estradas estavam cheias de checkpoints e nem sempre eram militares. Parámos umas 250 vezes, sem exagero. Algumas vezes eram apenas homens a bloquear a estrada, a bater com paus e pregos, para te pedir dinheiro. A qualquer momento abrem novos pontos de controlo. Pediram-nos muitas vezes dinheiro, mas nunca cedemos. Fazíamos umas piadas e continuávamos a andar, mas ficávamos sempre tensos, a pensar que poderia acontecer alguma coisa. Ao mesmo tempo, foi muito giro. Havia sempre pessoas em todo o lado, e quando realmente comunicavas com elas, percebias que eram acolhedoras.

Relativamente aos pontos mais turísticos, destacam alguns?
Subir o Kilimanjaro é uma experiência de uma vida. África do Sul também tem alguns dos sítios mais bonitos, como o Parque Nacional Kruger ou o de Drakensberg. Zâmbia também é incrível, principalmente as Victoria Falls, que são realmente impressionantes, bem como as Epupa Falls, na Namíbia. Ficámos com pena de não explorar alguns sítios mais turísticos em Marrocos e na Mauritânia, mas é tão perto de Portugal que temos intenção de regressar mais tarde.

Tinham algum orçamento mensal ou diário?
No início tínhamos mais ou menos uma ideia, mas depois desistimos um pouco. Tínhamos uma poupança com a qual estávamos confortáveis para mexer e foi isso que aconteceu.

Quanto gastaram em combustível, por exemplo?
É capaz de ter andado perto dos 10 mil euros, até porque o combustível é muito mais barato do que na Europa. Na maioria dos países anda à volta de um euro por litro.

Agora que regressaram a Portugal, quais são os planos?
Ainda não temos bem um plano, até porque precisamos de descansar um pouco e estar com a nossa família e amigos. Depois, gostávamos muito de transformar esta viagem num livro, porque há muitas coisas que gostávamos que não se perdessem.  Mesmo que não seja uma coisa muito grande, só mesmo para as pessoas mais próximas ou para quem tiver interesse em ler. Efetivamente gostamos de escrever e não queremos perdes estas memórias. Também temos muitas imagens e vamos dedicar-nos um bocadinho a criar conteúdos que consideramos interessantes, mais para as redes sociais, ou quem sabe para uma exposição. A seu tempo.

Carregue na galeria para ver algumas fotografias da viagem do casal. 

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