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A aldeia abandonada aqui ao lado que está a ser reconstruída pelos antigos residentes

Mais de 100 famílias foram obrigadas a deixar a zona nos anos 60 para a construção de uma barragem que nunca aconteceu.

Na década de 50 do século XX, quase 150 famílias foram notificadas para abandonar as suas próprias casas nas aldeias espanholas de Jánovas, Lavelilla e Lacort, na região de Aragão. O motivo era a construção de um reservatório e de uma barragem mesmo às margens do rio Ara. No entanto, a obra nunca chegou a arrancar.

“Os residentes mantiveram as suas rotinas enquanto a empresa hidroelétrica derrubava árvores, destruía canais de irrigação e cortava o fornecimento de água e eletricidade”, lê-se no site do governo de Aragão sobre a história de Jánovas, a aldeia mais afetada. Nos anos 60, os alunos e professores chegaram mesmo a ser retirados à força da escola local.

O mesmo aconteceu com os moradores que ousaram permanecer nas suas próprias casas. Até que, em 1984, a última família abandonou a região. Desde então, a aldeia ficou completamente deserta. Nessa altura, as obras da barragem ainda não tinham começado, mas tudo indicava que o projeto iria avançar mais cedo ou mais tarde.

Nas duas décadas seguintes, o terreno chegou a ser alvo de atividades preliminares, como estudos e demarcações, mas as construções continuavam sem arrancar. O atraso acabou por ir ao encontro do aumento da consciência ambiental em todo o mundo e, em 2001, foi publicado um relatório com um parecer desfavorável à construção devido aos impactos significativos que geraria na natureza envolvente.

O documento foi suficiente para suspender o projeto e, três anos mais tarde, as concessões para exploração hidroelétrica foram consideradas caducadas — o que acabou por descartar por completo a construção da barragem.

Em 2008, foi então iniciada a devolução dos terrenos e casas expropriadas aos antigos proprietários ou herdeiros — muitas pessoas morreram sem terem oportunidade de regressar a casa. O processo, porém, só chegou ao fim no ano passado.

A aldeia antes de ficar em ruínas.

A reconstrução da aldeia tem sido gradual

Nos últimos anos, a aldeia tornou-se uma atração turística devido às paisagens incríveis que a rodeiam. Muitas das construções, incluindo as suas mais de 40 casas, acabaram por ser entregues às ruínas. Outros edifícios chegaram mesmo a ser demolidos pela Iberduero, empresa responsável pela construção da barragem.

A reconstrução da localidade tem vindo a acontecer gradualmente nos últimos anos, sobretudo pelas mãos dos herdeiros dos antigos moradores. Em 2021, foi concluída uma das fases da urbanização de quatro ruas no centro da aldeia, o que permitiu que os residentes dessem início à construção de, pelo menos, oito casas.

Hoje, a reconstrução gradual continua, mas o processo é lento, especialmente porque depende de cada residente. A região conta ainda com vários marcos históricos, que apesar de continuarem a ser visitados, estão também a necessitar de restauros.

Um deles é a Igreja Paroquial de San Miguel de Jánovas, que foi parcialmente reconstruída nos últimos anos. Já a ponte Colgante de Jánovas, sobre o rio Ara, remete para o século XIX e é considerada um monumento de interesse cultural.

A aldeia, que está completamente rodeada por montanhas, tem também atraído vários visitantes curiosos em acompanhar o seu processo de reabilitação e percorrer os trilhos disponíveis entre a vegetação. Além da ponte principal, a região possui passadiços que permitem explorar o rio Ara.

A reconstrução da localidade tem também sido apoiada pelo governo de Aragão, que, desde 2016, diz ter investido 440 mil euros na restauração das redes de água potável, eletricidade e saneamento da aldeia. “Para já, Jánovas continua a ser uma aldeia em coma”, apontou o governo. “Os poucos viajantes que lá chegam ficam cativados pela atmosfera fantasmagórica e tentam afastar a ideia de que um fantasma possa aparecer na próxima esquina.”

Carregue na galeria para ver algumas fotografias de Jánovas.

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