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A família que largou tudo para viajar com os filhos regressou a Portugal

Durante oito meses, André Carvalho e Carolina Quina deram a volta ao mundo com os três filhos menores.

 
A família que largou tudo para viajar com os filhos regressou a Portugal
A família esteve oito meses em viagem (foto de Emi Photography)

Venderam a casa, desfizeram-se de quase tudo o que tinham e anunciaram à família e amigos que iam viajar. A 19 de outubro, André Carvalho e Carolina Quina partiram em direção à Tailândia com os três filhos menores — Leonor (oito), Pedro (cinco) e André Maria (um ano e meio). Esta sexta-feira, 9 de junho, terminaram a aventura que durou oito meses e voltaram a aterrar no Aeroporto de Lisboa. À sua espera estavam aproximadamente 30 pessoas, entre familiares e amigos.

“É tão bom regressar como partir”, conta à NiT o patriarca da família, André Carvalho. “Foi muito bom ir, estar fora, viajar, mas também foi bom voltar.”

Andaram de avião, barco e autocaravana, percorreram destinos tão diferentes como a Austrália, Vietname ou China. Foi quase um ano de correrias, onde (quase) nunca houve tempo para descansar. Carregar malas e apanhar transportes transformou-se na sua rotina, assim como tentar sempre conhecer mais sobre os sítios que visitavam.

“Um dos nossos principais objetivos desta viagem era podermos estar em família durante muito tempo seguido. Cá estávamos sempre limitados por horários, só podíamos estar juntos ao final da tarde e aos fins de semana. Foi fantástico poder fazer isso.”

E fizeram-no mais até do que estavam à espera. Tudo por causa dos filhos, que foram incansáveis durante toda a viagem.

Quando a família Blue Olive chegou ao Aeroporto de Lisboa, tinham aproximadamente 30 pessoas à sua espera.

“Fizemos uma série de coisas que achávamos que eles não seriam capazes de fazer, ou que se iriam queixar o caminho todo. Subir um vulcão em Bali numa caminhada de duas horas que começa às duas da manhã? Adoraram. Fazer uma caminhada de 12 quilómetros na Nova Zelândia? Pensámos: é melhor serem só quatro. Eles insistiram tanto que fizemos os 12. Aliás, durante toda a viagem fizemos várias caminhadas de 10, 11, 12 quilómetros. Era um hábito que não tínhamos e que adquirimos.”

Curiosamente, era nas coisas mais triviais como ir jantar fora que às vezes eles levantavam problemas. “Quando achávamos que eles não iam ser capazes, eles mostravam-nos que eram. Quando achávamos que não ia haver problema nenhuma, era quando havia.”

Em jeito de balanço, André Carvalho e Carolina Quina — ou a família Blue Olive, como ficaram conhecidos devido ao nome que deram ao blogue onde foram contando as suas aventuras e à agência de viagens homónima que criaram —, têm dificuldade em eleger um destino favorito.

Gostaram muito de Bali pelas pessoas, e de Yangshuo, na China, pela paisagem. Nas zonas do interior em particular, onde praticamente não havia turistas, os chineses faziam fila só para poder tirar uma fotografia com os miúdos.

“Eles ficavam extasiados, sobretudo com o Pedro [o filho do meio], que tem o cabelo mais loiro, assim para o amarelo claro. Os miúdos que passavam na rua queriam todos tocar no cabelo dele.”

Fila de pessoas para tirar fotos com os filhos de André Carvalho e Carolina Quina.

A Tasmânia também lhes ficou no coração — foi como estar num jardim zoológico aberto, com milhões de animais por todo o lado. Hanoi, no Vietname, é um destino onde esperam regressar em breve.

“É uma cidade fora do comum, que parece ter ficado parada há 50 anos. No sábado à noite há crianças na rua a jogar ao elástico e adultos campeões neste jogo.”

A Nova Zelândia foi provavelmente o país que mais os desiludiu. “Sei que há pessoas que fizeram esta viagem e que vão dizer que foi o favorito delas. Para nós foi uma desilusão.”

André Carvalho explica melhor. “Se nos perguntarem qual foi o destino mais bonito onde nós estivemos, nós respondemos a Nova Zelândia. Se nos perguntarem qual foi o que nós gostámos menos, a resposta também é a Nova Zelândia. Isto porque não há nada para fazer lá além da paisagem. É tudo muito bonito, mas do ponto de vista cultural não tem nada — contacto com pessoas, costumes. É muito forte numa coisa, mas não tem o resto.”

Como não havia supermercados na zona, André decidiu improvisar com o que tinha. O jantar de Natal foi arroz com salsichas

A Austrália também foi um país marcante. Foi numa praia deserta em Kangaroo Island que passaram a noite de 24 de dezembro.

“Estávamos literalmente no fim do mundo, num sítio onde não havia nada para fazer. Na caravana, estacionados dentro de um parque de campismo, começámos a pensar onde é que haveríamos de passar o Natal. Decidimos ir para uma praia onde não havia ninguém.”

Como não havia supermercados na zona, André decidiu improvisar com o que tinha. Resultado? Arroz com salsichas. E foi esse o jantar de Natal. “Foi um momento que nos marcou muito.”

O momento mais complicado aconteceu na Indonésia, quando o filho mais novo, André, caiu a brincar na piscina e partiu a cabeça.

O filho mais novo do casal, André, depois de partir a cabeça.

“Fomos para o centro de saúde, mas eles lá disseram que não podiam fazer nada e fomos para o hospital. Não estávamos no sítio ideal para isto acontecer, não era o mesmo que estar em Portugal — não havia anestesias, tivemos que o agarrar porque ele foi cosido a sangue frio.” O bebé André, que tinha acabado de fazer dois anos, levou quatro pontos. Não foi o ponto alto da viagem, mas tudo se resolveu.

Há três dias em Portugal, para André Carvalho e Carolina Quina agora é altura de recomeçar.

O dinheiro que tínhamos para a viagem era a diferença que nos faltava para pagar o empréstimo da casa ao banco e o que lucrámos com a venda. Foi esse dinheiro que usámos. Vamos começar do zero. Por agora ficaremos em casa de um familiar, mas a agência de viagens já está a dar algum rendimento. Dentro de dois meses esperamos estar arrendar uma casa.”

Arrependimentos? Nenhuns. A experiência, a aprendizagem, as coisas que viram e as pessoas que conheceram vão valem nenhum dinheiro do mundo. Mas a família Blue Olive ainda está na fase de querer matar saudades — por mais incrível que a viagem tenha sido, há muitas pessoas que querem voltar a ver e, verdade seja dita, sonos para pôr em dia. Bem, pelo menos os pais. Para os miúdos a energia é inesgotável.

“Uma hora depois de chegarem a casa já só queriam ir para rua ter com não sei quem”, ri-se André. “Nós só queríamos descansar.”

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