Viagens

A família que se mudou para a República Dominicana e faz tours só para portugueses

Samuel e Raquel Marques vivem no país caribenho há 28 anos e, em 2016, fundaram a empresa Rimain Tours.
Lançaram a Rimain Tours.

Há 28 anos, a República Dominicana era muito diferente do que é hoje em dia. Naquela época, o boom do turismo ainda não tinha acontecido e a maioria das estradas era de terra batida. Quem morava longe da capital, Santo Domingo, tinha de fazer demoradas viagens de carro sempre que era preciso comprar mantimentos em abundância. Era o que acontecia com a família de Samuel e Raquel Marques, que se mudou para as Caraíbas há quase três décadas.

Na época, moravam em Rio San Juan, uma aldeia que possuía apenas uma pequena mercearia. O hipermercado mais próximo, o Carrefour, ficava na capital. Demoravam três horas e meia a chegar lá, ou seja, tinham de reservar um dia inteiro para ir às compras — um “pequeno” esforço que faziam para viver no paraíso.

“Arrendámos uma casa em frente a uma praia deserta. Era enorme e muito barata, porque o país ainda não estava explorado pelo turismo. Foi nessa praia que os meus filhos aprenderam a andar. Era tudo muito castiço, agora está tudo muito diferente”, começa por contar à NiT a mãe, Raquel, de 52 anos. 

Confessa que sente saudades dessa época, quando os filhos frequentavam a escola, e as janelas e portas de casa estavam sempre abertas devido ao calor e humidade. “Tínhamos um cão muito grande, o Silva, semelhante a um pastor alemão, que saía de casa e ia para a escola para se deitar aos pés deles. Ficava lá um pouco e depois regressava. Era uma vida tão bonita, tão natural — foi isso que nos cativou na República Dominicana”, adianta.

A oportunidade de viver em Rio San Juan surgiu de forma inesperada, mas, quando a receberam, não pensaram duas vezes. Já se tinham apaixonado pelo país quando lá passaram férias nos anos 90, com os filhos Ricardo e Maria, de três e um ano, respetivamente. 

“A minha filha sofria de asma e em Portugal estava sempre com ela no hospital devido às humidades. Fazia muitos tratamentos e, quando viemos de férias durante 15 dias, vim equipada com tudo o que era necessário. Para minha surpresa, a Maria nunca ficou mal e não precisou de nada, estava sempre saudável”, recorda.

Quando regressaram a Portugal, a miúda voltou a ter problemas de saúde. Esse foi um dos principais motivos que levou os pais a ponderarem mudar-se de Lisboa para a República Dominicana, em 1998. Na altura, Raquel trabalhava numa loja de antiguidades e Samuel no setor das artes gráficas, mas decidiram arriscar. Tiram cursos online de turismo e, no final, tinham direito a fazer um estágio de três meses nas Caraíbas. Podiam escolher rumar à Jamaica, Cuba ou República Dominicana — optaram por este último e foi o início da mudança.

Voltaram ao país onde tinham sido felizes e Maria, como da primeira vez, voltou a ser uma criança saudável. Durante esse período trabalharam com a Soltour, que na altura era o único operador turístico que levava portugueses para aquele destino. Entretanto, fizeram-lhes o convite: hospedarem-se nos hotéis Bahia Príncipe para receberem os turistas nacionais.

A mudança para as Caraíbas 

“Não hesitámos. Regressámos a Portugal, vendemos todos os nossos bens, pegámos nas malas, nos miúdos e viemos para cá. Nem espanhol sabia falar, mas correu tudo bem”, relata. A Maria, por exemplo, deixou de ter dificuldades de respiração e atualmente, aos 28 anos, “é uma excelente atleta”.

A “experiência foi maravilhosa”, apaixonaram-se ainda mais pelo clima, pelas pessoas, pela comida. Entretanto, tiveram mais uma filha, a Inês, agora com 22 anos, e todos se adaptaram muito bem ao novo estilo de vida. Cresceram a saber falar três idiomas (português, espanhol e inglês) e como verdadeiros caribenhos: pessoas que estão sempre contentes, que adoram música e dançar. Afinal, habituaram-se a lidar com a animação diária dos hotéis, onde o ambiente era de férias e sempre mais alegre.

O dia em que chegaram à República Dominicana.

O único problema era mesmo os meses de inverno, em que não havia voos a partir de Portugal e quase não havia trabalho. “Decidimos montar o nosso próprio negócio. Existiam umas excursões naquela zona da ilha onde as pessoas montavam a cabalo e iam até ao rio. Íamos a essas tours e tirávamos fotografias, imprimimos em T-shirts e vendíamos no final do dia”, recorda.

Em 2013, a Soltour fez-lhes uma nova proposta e mudaram-se para o México, que começava a receber muitos voos de Portugal e precisava de pessoas que soubessem falar a língua. Com os três filhos, foram para a Riviera May e por lá ficaram durante uns anos, também a trabalhar nos hotéis Bahia Príncipe. Até que, em 2016, decidiram dar “um passo em frente”.

O início da Rimain Tours

Já conheciam o mercado, sabiam os gostos dos portugueses e tinham condições para criar a própria empresa. Em março desse ano, foram à Bolsa de Turismo de Lisboa para apresentar a Rimain Tours, uma agência que faz excursões no México e República Dominicana para grupos portugueses. O nome surgiu com base nas iniciais dos três filhos: Ricardo, Maria e Inês.

Em abril, começaram a ter os primeiros clientes e a fazer as excursões, inicialmente apenas no México, para descobrir os tesouros de Yucután (Chichen Itza, cenote Ik Kil e Valladolid). Ao início eram cerca de quatro a seis turistas portugueses por dia, mas o número foi aumentando consideravelmente. “No dia que tivemos 10 clientes, ficámos muito felizes. Era uma loucura. Depois começou o boca a boca e chegou a um ponto em que tínhamos 30 pessoas para levar nas excursões”, recorda.

Apesar de estarem a viver no México, nunca se esqueceram da República Dominicana e queriam também começar a apostar no destino onde os filhos cresceram. Em 2018, o pai, Samuel, foi sozinho para lá para lançar a empresa no país — e as excursões pela Ilha Saona e Samaná hoje são um verdadeiro sucesso. Já receberam, inclusive, pessoas como o Toy e o cantor Nuno Ribeiro, que animaram as tours.

 
 
 
 
 
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Entretanto, em 2020, com a empresa já nos dois países, decidiram dar outro passo e abrir a própria agência de viagens online. Apresentaram-na em Portugal a 7 de março, dias antes de “fechar o mundo” devido à pandemia. “Foi um desespero para nós, não havia turismo e só queríamos regressar à nossa casa. Conseguimos voltar para o México e ficamos lá os quatro meses de quarentena, até começarmos a organizar pacotes personalizados. Fomos a primeira empresa a conseguir trazer portugueses para a República Dominicana”, confessa. Aos poucos, consolidaram o nome da empresa no mercado e foi “o boom da Rimain Tours”.

Hoje a filha mais nova, Inês, é uma das principais responsáveis pelas excursões à ilha Saona e Samaná. Contudo, na adolescência “era louca por computadores” e adorava videojogos. “Passava dias fechada no quarto, às vezes, tínhamos mesmo de desligar a Internet. A cerca altura queria um daqueles computadores de gamers e o pai disse-lhe que se queria um, tinha de ir trabalhar”, recorda a mãe.

Na altura com 18 anos, começou a ir com Samuel para as excursões, “meio contrariada”. Envergonhada, ao início não falava muito com os clientes, até que se começou a soltar e “passou de oito para 80”. “De repente começa a dançar, a rir, a fazer coreografias, que era o que via nos hotéis. Era uma nova Inês, um furacão que todos adoram, com uma energia que não acaba”, confessa.

Com Ricardo, agora com 29 anos, a situação foi semelhante, mas no México. “Sempre foi muito brincalhão e naturalmente cºomico. Lançou o mercado no México de uma forma incrível”, revela. Já a filha do meio, Maria, chegou a trabalhar na Rimain Tours, mas hoje tem os seus próprios projetos na Cidade do México.

Com a procura cada vez maior, a família sentiu necessidade de alargar a equipa. Hoje, já contam com 22 colaboradores na República Dominicana, a maioria locais. As excursões, contudo, são sempre feitas em português, para grupos só de portugueses.

Nas Caraíbas, uma das tours mais procuradas é a da Ilha Saoma (75€ por pessoa). A bordo de uma lancha rápida ou catamarã, o grupo vai até uma piscina natural, uma “maravilha da natureza em águas protegidas”, onde têm tempo para nadar à vontade, com bebidas a serem servidas na água. A viagem segue até ao canal de Catuano, até chegarem à ilha, com “areia branca radiante e águas cristalinas”. O regresso é feito com muita animação, com “ritmos tropicais, brinde de bebidas nacionais, música e alegria”. As reservas podem ser feitas online.

Carregue na galeria para ver algumas fotografias da família e das excursões que organizam no outro lado do mundo. 

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