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All on the Board: os trabalhadores do metro que espalham poemas nas estações

Todos os dias ajudam milhões com recados deixados nas informações de Londres — que também pode ver nas redes sociais.
Os heróis mascarados.

Costuma dizer-se que uma imagem vale mais do que mil palavras; mas há palavras que às vezes confortam, acolhem, resolvem, ajudam e aconchegam. A coisa certa, dita da forma certa, batendo com a fase que determinada pessoa está a passar, pode ter um impacto tremendo, fazer um perfeito desconhecido sentir que não está sozinho, que há quem pense igual, sinta o mesmo. Pode até salvar vidas.

Dois trabalhadores do Metropolitano de Londres, um dos mais frequentados em todo o mundo, lançaram em 2017 uma iniciativa espontânea, por graça, que hoje é um verdadeiro fenómeno mundial. Ian e Jeremy, funcionários da transportadora responsável pelo metro, a TFL, começaram a escrever anonimamente nos quadros de informação de determinadas estações — aqueles placards que reportam atrasos ou dados importantes — frases e citações inspiradoras ou engraçadas, como um complemento ao seu trabalho diário no mundo subterrâneo de Londres.

Posted by All on the Board on Friday, January 15, 2021

As mensagens eram, e continuam a ser, simples, mas variadas. Muitas verdadeiramente sérias, outras genuinamente cómicas. Versam sobre uma série de temas: a perda, a depressão, o estarmos sozinhos e sentirmos que não somos bons o suficiente. Falam também sobre as datas relevantes, as estações do ano, as temperaturas ou músicas de cantores favoritos dos autores, como David Bowie, ou os Oasis. E ainda sobre os aniversários de estrelas, celebrados com poemas ou trocadilhos com os seus filmes ou músicas mais conhecidos; ou os desabafos pessoais, do próprio Ian e Jeremy, de quando estão em baixo e a lutar com as dificuldades da vida. E claro, no último ano, sobre a pandemia. 

Na sua página de Facebook, eles explicam: “Somos apenas dois rapazes de Londres a fazer a nossa parte para tornar o mundo um lugar mais pacífico”.

Mas são muito mais do que isso. As citações são intercaladas com histórias e reflexões, partilhas honestas e sentidas e têm, nota-se pelos comentários, tido um impacto real na vida de milhares de pessoas.

A intenção podia ser simples e singela, mas cresceu, tornou-se algo à escala mundial. E tem agora um livro, que é aliás um best seller na Amazon e nos livros do Sunday Times, enterrado em avaliações de cinco estrelas e agradecimentos de pessoas que dizem que as suas vidas mudaram, para melhor, por causa destas duas pessoas; que os recados que encontram pela manhã são algo por que antecipam, todos os dias.

Whoever you are and however you’re feeling please know that you are not alone. There are people and organisations…

Posted by All on the Board on Thursday, January 21, 2021

E como começou tudo isto? Até há bem poucos meses, os All on the Board era dois trabalhadores do metro perfeitamente anónimos — apenas os seus nomes próprios eram conhecidos, Jeremy e Ian, mas ninguém parecia saber bem quem ou como eles eram. As raras vezes que publicavam fotografias, faziam-no de máscara.

Não gostavam, ou gostam, de dar entrevistas — não responderam à tentativa de contacto da NiT — eram uma espécie de Banksy, diziam alguns seguidores. Claramente preferiam ser anónimos, como heróis ou justiceiros mascarados, mas aqui a sua arte ou a sua arma eram as citações de inspiração, de esperança, de graça, que recebiam os passageiros do metro e os seguidores da página no Facebook: mais de 172 mil, de todo o mundo. No Instagram, são mais de 631 mil.

De vez em quando, contavam detalhes pessoais nos seus recados diários, enquanto diziam que preferiam ser chamados pelos seus pseudónimos, criados como se linhas de metro fossem: N1 (NoOne) e E1 (EveryOne).

No entanto, no final de 2020, começaram a mudar de postura: revelaram os seus nomes completos (Ian Redpath e Jeremy Chopra) e deram as suas primeiras, poucas entrevistas. Talvez tenha sido a propósito do lançamento do seu livro, talvez por causa da pandemia, que claramente os impressionou — e aumentou o enfoque das suas mensagens da saúde mental.

Segundo explica o meio britânico “You“, tudo isto começou com um concerto do Craig David, em 2017. Os dois amigos, assistentes do London Underground estariam a trabalhar na estação North Greenwich, preparados para a multidão que iria para a Arena O2 naquela noite, quando começaram a discutir as suas canções favoritas de Craig David, o que os levou a compor um pequeno poema em sua homenagem, usando algumas das suas letras.

Wherever you are in the world right now, despite what’s going on we hope that you’re alright. @allontheboard…

Posted by All on the Board on Saturday, January 30, 2021

Impressionados com o que tinham feito, copiaram o poema para um painel de informações do metro, esperando que alguns fãs notassem durante a passagem. Foi um sucesso total: as pessoas paravam, fotografavam, riam. Ian e Jeremy já não conseguiram deixar de o fazer.

Desde então tornaram-se o tal fenómeno: conta a revista que algumas das fotos dos painéis já foram partilhadas por nomes como os U2 ou Michelle Obama. E que estrelas como Katy Perry e os Mumford & Sons viajaram de metro apenas para tirar fotos ao lado dos poemas dedicadas a eles. Por todo o mundo das redes sociais, muitos comentam, cada vez mais, que o seu enfoque na saúde mental ajudou a salvar as suas vidas.

É fácil de compreender porquê, há recados que dizem coisas como: “Embora possas não o sentir, por favor acredita, porque é a absoluta verdade. Tu eras importante ontem. Tu és importante hoje. Tu serás importante amanhã, também”. Ou: “Sejas quem fores e como te estiveres a sentir, sabe que não estás sozinho. Há pessoas e organizações com as quais podes conversar. Por favor, fala. Falar salvará vidas”.

Jeremy e Ian sempre explicaram que só queriam ajudar as pessoas a tornar o seu dia um pouco mais bonito ou alegre, mas por detrás da sua própria história pessoal há uma tragédia. Recentemente, partilharam uma publicação onde Ian contava ser aquela altura do ano (início de janeiro) o “aniversário” de quando uma jovem saltou para a frente do metro que ele conduzia. Foi um momento terrível e a sua saúde mental ficou para sempre afetada. Embora não tivesse culpa, foi impossível de impedir. Ian diz que este momento terminou a sua carreira de maquinista e quase destruiu a sua vida, e que não há um dia em que não pense nela e na sua família. 

É isso que os torna especiais: as suas historias pessoais, personalidades e valores estão sempre algures nos seus recados aos milhões de desconhecidos que os leem, bem como o seu sentido de humor. Recentemente, sobre o facto de revelarem a sua identidade precisamente agora, responderam: “Numa altura em que todos estão de máscaras, decidimos estamos tirar as nossas; é no mínimo simbólico”.

Hello You. Just checking in with you to see how you’re doing at the moment.Mentally we have both been up and down…

Posted by All on the Board on Wednesday, January 6, 2021

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