Viagens

Bárbara Veiga: a ativista e fotógrafa que navegou pelos sete mares durante sete anos

Encontros com piratas na Somália e tempestades em alto mar. A brasileira de 38 anos visitou mais de 80 países por mar e tem muitas histórias para contar.
Já atravessou mais de 80 países por mar.

É conhecida como Sea Woman (Mulher do Mar) e não é difícil perceber porquê. Bárbara Veiga tem 38 anos, nasceu no Rio de Janeiro, no Brasil, mas é no meio do mar que se sente bem. Navegou por sete mares durante sete anos, visitou mais de 80 países por mar e tem uma imensidão de histórias para contar. 

Fotógrafa, repórter, ativista, autora do livro “Sete anos em sete mares” e co-fundadora da Liga das Mulheres pelo Oceano, Bárbara Veiga quer levar o seu trabalho multifacetado além fronteiras com o objetivo de dar visibilidade às causas socioambientais. A viver em Portugal há cerca de dois anos, a NiT esteve à conversa com a brasileira, responsável pela exposição fotográfica “Mundo Insular”, um registo das suas viagens, que pode ser visitada no Espaço Espelho d’Água até ao dia 8 de junho, quarta-feira. 

Bárbara Veiga.

Passou por lugares como Cuba, Austrália, Maldivas, Japão, Fiji, Islândia e Antártida, mas foi no Rio de Janeiro que começou a escrever o início de uma história sem fim. Cercada por montanhas e pelo mar, teve a sorte de crescer num país tropical que estimula a relação com a natureza e o mar. “Era onde passava os finais de semana, onde refletia, onde me diverti desde a infância até à adolescência”, começa por contar Bárbara Veiga. 

Tanto a fotografia como o ativismo surgiram de forma natural. A arte sempre esteve presente na sua vida e já nos tempos da escola não largava a máquina fotográfica. Queria fotografar não só a beleza ao seu redor, mas também o contraste de realidades que existem no Brasil. Foi a partir dessa premissa que se começou a interessar por mostrar, através das imagens que captava, locais que são, para muitas pessoas, inalcançáveis. 

“A minha vontade é mostrar com profundidade a história dos lugares e as pessoas que traduzem a realidade que vivemos. Quero mostrar uma verdade mais poética da nossa existência, não só no contexto de documentação mas também de reflexão do que podemos preservar, desde a espécie humana até à natureza, como as ilhas”, explica. Ilhas essas que, apesar de distantes e isoladas, são “pedaços de terra flutuante que fazem parte do continente e da nossa realidade histórica”. 

Bárbara estudou jornalismo, cinema e artes visuais. Três ramos que acabaram por se complementar e foram fundamentais para que a ativista pudesse falar, de forma diferente, sobre aquilo que acredita: a preservação da vida. “Sempre quis ser o Tintin, uma personagem que representa alguém que quer aprofundar a história. Ser uma mulher que vai mostrando a realidade também é um grande desafio dentro do contexto do patriarcado, onde temos de vencer muitas barreiras para encontrar esse espaço de respeito”.

Não foi um plano traçado ou uma jornada escolhida, “simplesmente aconteceu”. Começou a trabalhar com organizações internacionais, como a Greenpeace, Sea Shepherd, Amazon Watch, Instituto Labour Organization e Avaaz, até que surgiu o primeiro convite, na altura com 21 anos: uma missão contra a desflorestação da Amazónia, ao serviço da Greenpeace. 

Apesar de ter crescido junto ao mar, foi a primeira vez que entrou em contacto com o mundo da navegação, uma “oportunidade mágica”. “Cruzei a costa toda do meu país, que é enorme. Atravessámos o Atlântico até chegarmos à Amazónia e foi a primeira oportunidade que tive de experimentar o oceano e entender que a água é um elemento muito importante para mim e para todos nós”, recorda. 

Chegar à Amazónia foi o ponto de partida para entender que o oceano era, de facto, a sua casa, só ainda não sabia que o iria ser durante sete anos. Foram surgindo novos trabalhos e missões pelo mar, a ativista de 38 anos aprendeu a navegar, tornou-se marinheira e comprou um veleiro em segunda mão, o “Papaya”, que estava abandonado há mais de 20 anos. Passou oito meses a restaurá-lo e dividia o tempo entre morar “na casa flutuante”, trabalhar com as organizações, e apresentar performances artísticas. 

Com a companhia da máquina fotográfica em todas as aventuras, “a ideia é fazer com que toda a gente possa ter acesso à imagem, mostrar como o oceano transforma os nossos dias”. “O meu desejo é que as minhas imagens possam transmitir essa sensação de conectividade e fazer parte da terra. É a única casa que temos”, sublinha a fotógrafa. 

Visitou 85 países por mar, onde viveu realidades diferentes e procurou entender o dia a dia daquelas pessoas que cresceram num mundo completamente diferente. “O universo das ilhas em particular chama-me muito à atenção, por viverem num sistema diferente do convencional. Chegar por mar é diferente de apanhar um avião, é entender o cheiro da terra, identificar determinados elementos. Atravessar o mar fez-me entender essa questão histórica de forma especial”, diz a ativista. 

Uma das viagens.

Fez muitas viagens no seu veleiro e outras tantas em embarcações maiores, uma delas até à Antártida, numa missão para impedir a matança das baleias. Foi também no continente mais frio do planeta que enfrentou um dos momentos mais intensos da sua vida.

“Estava a sair da Antártida em direção à Austrália e tive que mudar a rota para a Nova Zelândia. A marinha do país fez uma chamada de urgência a avisar que um barco norueguês com três tripulantes, entre 25 e 35 anos, estavam em risco e à deriva nas águas gélidas da Antártida, a pedir socorro. A marinha não ia conseguia chegar a tempo então pediram que voltássemos para tentar resgatá-los. Enfrentámos a pior tempestade das últimas dez décadas, declarada pela marinha da Nova Zelândia, num lugar de muita vulnerabilidade”, relembra Bárbara. 

Colocando a sua própria vida em risco, calcularam a rota para tentar chegar até lá. Pelo caminho, só encontraram vestígios de pessoas que tentaram sobreviver, mas nem os corpos nem o barco foram encontrados. “Foi um momento de profunda reflexão sobre a importância da nossa vida, a vulnerabilidade. A vida é um sopro e esse momento foi muito forte. Não consegui salvar essas vidas, mas a experiência  deu-me mais força para continuar o meu trabalho.”

Igualmente belo e instável, o mar “é um lugar de vulnerabilidade” e nunca se sabe o que pode acontecer quando se navega pelos oceanos. Desde grandes tempestades, mudanças de rotas à última da hora ou até mesmo encontros com piratas na Somália.

“Estava a viajar no veleiro com mais uma pessoa e ouvi o barulho de um motor a aproximar-se e subi para ver o que era. Estavam quatro homens num barco, não sabia de onde vinham, mas estava a 35 milhas da costa. Cruzámo-nos com estes homens que provavelmente estavam com fome e a passar dificuldades”, relembra.

Num mar conhecido por ser perigoso devido à abordagem dos piratas, como mostra o filme “Capitão Phillips”, protagonizado por Tom Hanks, o sentimento de insegurança não tardou a aparecer. 

Sem saber se estavam armados ou como comunicar com eles, uma vez que não tinham um idioma em comum, e sem saber como reagir, Bárbara pegou numa cesta de piquenique e colocou vários alimentos que tinha no barco. “Para mim foi muito impressionante a tensão de me sentir vulnerável com quatro homens que não sabia de onde vinham. Entreguei a cesta ao que parecia ser o líder do grupo, que olhava bem profundamente para os meus olhos.”

Foi aí que, através de gestos, mostrou que estava com uma infeção e que, na verdade, precisava de medicamentos. “Peguei na caixa de primeiros socorros e ofereci-lhe antibióticos. Tentei fazer gestos para mostrar que era para tomar um de manhã e outro à noite”, conta. Nada de grave aconteceu, mas só quando o barco desapareceu no horizonte naquele fim de tarde é que conseguiu voltar a sentir alívio. 

“Foi uma daquelas experiências que as pessoas dizem que viram a vida num filme. Não me fizeram mal e gosto de reforçar e estimular as pessoas a repensar o que é ser pirata, porque na verdade essas pessoas dependem da economia local e cresceram naquele meio. A nossa responsabilidade é entender essa realidade social”, reforça.  

A barreira linguística foi, possivelmente, um dos maiores desafios das viagens em países longínquos, como o Iémen ou o Sudão, mas nada que a linguagem corporal não resolvesse. Destaca ainda a força das pessoas que, mesmo em países em guerra e a viverem situações de vulnerabilidade extrema por não terem onde dormir, estavam sempre com sorrisos na cara. 

Além da máquina fotográfica que registava as realidades destes países por que passou, Bárbara navegava sempre com a companhia de um caderno, onde anotava todas as experiências. Preencheu mais de 50 cadernos ao longo dos sete anos nos mares, que mais tarde se viriam a tornar no livro “Sete anos em sete mares”, escrito e narrado pela ativista, lançado em 2019. “Foi como viver a história três vezes. A primeira a navegar, a outra a escrever e a terceira através da narração”.

Após vários anos a navegar nos mares, agora viaja por terra com o mesmo objetivo de sempre: consciencializar as pessoas e mostrar que todos podemos fazer parte da mudança. Apresenta performances artísticas, é responsável por várias exposições e dá palestras por todo o mundo. 

Há dois anos veio viver Portugal e diz sentir-se em casa. No ano em que se celebra a década do oceano, a ativista e fotógrafa apresenta a exposição “Mundo Insular”, para reforçar a urgência de revolucionar o ambiente em que vivemos e reinventar os nossos hábitos. Inaugurada no dia 7 de maio, Bárbara Veiga apresentou uma performance com um vestido feito com material reutilizado para mostrar que também a moda pode ser trabalhada de forma consciente.

Estão expostas 26 obras que nos dão a sensação de estarmos a atravessar ilhas em diversas partes do mundo. “São imagens de lugares que me marcaram muito, o acervo é grande porque são muitos anos de trabalho e de dedicação para mostrar esses lugares da forma mais detalhada possível”.

De seguida, carregue na galeria para conhecer alguns trabalhos de Bárbara Veiga. 

ver galeria

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT