Viagens

Barcelona quer que as Ramblas sejam para os moradores — e não para os turistas

O projeto já é antigo, está até atrasado, mas ganha agora mais urgência: é que a zona mais vibrante da cidade está moribunda.
Já foi um dos pontos centrais.

São um caso como tantos outros, em que um espaço quase perfeito foi vítima do seu próprio sucesso. E depois veio uma pandemia e deu o golpe final. La Rambla de Barcelona — em Portugal, costumamos dizer “as Ramblas” —, uma das zonas mais incríveis, vibrantes e movimentadas do mundo vai mudar radicalmente, para se tentar salvar. Até porque entre o excesso de turismo (e negócios e alojamentos locais para aí voltados); um terrível atentado há poucos anos e agora o novo coronavírus, está como nunca esteve. Moribunda, dizem os locais.

Segundo o jornal “The Guardian“, o plano da vereação local desta Ciutat Vella é audaz e ambicioso: pretende transformar uma das ruas mais movimentadas do mundo num “centro de arte envolvente do sul da Europa”. Muito menos voltado para turistas, mais para cidadãos locais, um hub cultural que resista aos anos e às flutuações económicas, e que leve a vida de volta para uma zona tão nobre da cidade.

O jornal britânico lembra que, a vários níveis, Barcelona tem sido nos últimos anos um exemplo para os piores defeitos do turismo excessivo, mas aspira agora a ser um modelo para outras cidades: que antes apostavam tudo no turismo e começam a perceber que não é eficaz, a longo prazo, ser assim.

A pandemia e o confinamento, com os constrangimentos mundiais em relação às viagens, tornam tudo isto mais urgente do que nunca, mas o plano até já estava delineado. Passa por reinventar a Rambla e devolvê-la aos moradores da cidade.

“A crise expôs a fraqueza de um modelo baseado num setor económico, o turismo”, disse Jordi Rabassa, vereador da Ciutat Vella, a parte mais antiga e mais visitada da cidade, ao jornal. “La Rambla é o centro desta monocultura económica e estamos a trabalhar para trazer a população local de volta à rua mais emblemática de Barcelona.”

E acrescentou: “a Ciutat Vella pode ser um modelo de como passar de uma monocultura para algo mais diversificado que emprega e atende às necessidades dos residentes por meio da criação de empregos na cultura, tecnologia, ecologia e iniciativas sustentáveis”.

Segundo o “The Guardian”, até agora, parecia que tudo ali dependia dos turistas. Nos últimos anos as rendas tinham disparado, tudo era turismo. Veio o vírus e muitos negócios não chegaram a reabrir desde o bloqueio de março, muitos nunca o farão e as medidas de bloqueio mais recentes — Espanha está novamente em estado de emergência — deverão agravar a situação.

Já no passado 10 de outubro, o jornal espanhol “El Periodico” relatava, sobre esta que dizia ser “a espinha dorsal” de Barcelona, o seu passeio “mais conhecido e polémico”, que a Rambla estava a morrer.

O turismo há muito que baniu os moradores locais e a Covid-19 fez o mesmo agora com os de fora. O resultado são cortinas reduzidas e um caminho vazio. Não há vizinhos, não há moradores locais, não há bairro. Portanto, a La Rambla amanhece tão deserta quanto escurece. Uma paisagem desolada. E um grito de advertência comovente: ‘La Rambla está a morrer'”, escreve este meio.

O mesmo acrescenta que o alerta é partilhado de forma praticamente unânime entre cidadãos, comerciantes e a autarquia local — que já aprovara, em 2016, um plano que propôs a requalificação física da rua e novas estratégias de ação em habitação, comércio e cultura.

Sobre isto, o “The Guardian” acrescenta que todos, de políticos a investidores privados e feirantes do mercado, concordam que a cultura é o que atrairá os barcelonenses de volta à La Rambla, e isto inclui apostas em cultura, como a ópera, e na mais popular também. Tudo poderá começar com o grande Teatre Principal, inaugurado em 1603 e fechado desde 2006 e que já vai ser requalificado por um privado. Outros espaços renascerão como pólos culturais.

O La Boqueria, o colorido e icónico mercado de comida — onde, nos últimos anos, nenhum cidadão de Barcelona ia — também deverá ser repensado e reinventado, defendem.

A Boqueria.

A única questão parece ser afinal uma das mais importantes: como e quando concretizar tudo isto. Neste momento, o caminho parece ser através dos privados ou de um consórcio público-privado. O tal plano aprovado pela câmara em 2016 e depois semi-concretizado numa proposta vencedora de concurso em 2018, previa a expansão do espaço pedonal, um espaço verde, uma nova vida perto do antigo porto — mas está parado.

O plano nem tem data para avançar. Na passada sexta-feira, 23 de outubro, a “ABC” espanhola contava mesmo que a longa espera e o cansaço dos residentes do distrito de Ciutat Vella levaram a que um comerciante criasse, na fachada da sua loja, um contador dos dias em que esperava esta reforma urgente já aprovada pela câmara municipal.

No contador, nessa data, dizia-se que 1.610 dias já se tinham passado desde a aprovação do Plano de Planeamento Especial e nada fora feito: a Rambla continuava sem reforma. O investimento previsto para o projeto da autarquia, de 400 mil euros só numa fase inicial que deveria estar a ser lançada este ano, estagnou com a pandemia e nas próximas semanas deverá ser decidido se há verbas para a reforma avançar ou se terá de ser adiada novamente — nesse caso com as mudanças a incidirem sobretudo nas tais parcerias público-privadas.

Finalmente, os responsáveis e forças locais vão destacando que o plano não é erradicar o turismo de todo, mas apostar num tipo de turismo diferente: mais exclusivo e não dos visitantes que gastam pouco e bebem nas ruas, afastando os restantes. No fundo, fazer do passeio mais emblemático de Barcelona um espaço de referência cultural, com uma oferta comercial e gastronómica “de excelência”, para visitantes e locais.

O ano passado, antes da pandemia do novo coronavírus, cerca de 100 milhões de visitantes passaram pela La Rambla.

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