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Bruno trocou a praia pela neve. Está a “sobreviver” à noite polar com 2 meses sem sol

"O fenómeno é mágico e incrível, mas, ao mesmo tempo, trágico". O português só volta a ver o sol no final de janeiro.

Ir ao ginásio ou passar algum tempo em bares são algumas das atividades que a população local faz em Tromsø, na Noruega, desde que o sol deixou de aparecer, em novembro. A cidade, que está agora a passar pela chamada noite polar, fica completamente às escuras durante dois meses. E há um português, a viver por lá, que partilha como é viver a rotina sem luz solar.

Bruno Miguel Serra, natural do Algarve, trocou o bom tempo e as praias no sul de Portugal pela neve, em novembro de 2022. Desde então, todos os anos, tem passado por este período, um fenómeno que ocorre quando o sol não alcança uma altitude suficiente para ser visível acima da linha do horizonte no Círculo Polar Ártico e Antártico.

Nos primeiros dias da noite polar em Tromsø, em novembro, ainda é possível ter duas ou três horas com céu limpo (mas muito nublado). A partir de dezembro, e até 21 de janeiro, fica tudo às escuras.

“A verdade é que muitas pessoas romantizam a noite polar. Mas dois meses sem sol, de facto, mexe muito connosco”, começa por contar à NiT Bruno, de 34 anos. “Todos os meus amigos sabem que sou uma pessoa muito virada para o calor e para o sol. Portanto, estar sem isso durante tanto tempo, mudou-me bastante.”

O português, que trabalha atualmente na área do turismo, já “sobreviveu”, como o próprio diz, a três noites polares. Mas só agora é que decidiu começar a partilhar nas redes sociais a realidade do fenómeno que deixa Tromsø sem sol durante dois meses.

“Costumo dizer que o fenómeno é mágico e incrível, mas, ao mesmo tempo, trágico”, afirma. “É desafiante porque não há nada em Portugal que se compare a isto, mesmo que estejamos na Serra da Estrela. Aqui, temos grandes cargas de neve e a cultura norueguesa é muito menos social em comparação com a nossa.”

Nos últimos anos, Bruno tem vindo a criar uma rotina que lhe permite sobreviver à noite polar sem enlouquecer. No primeiro inverno na cidade, esteve a trabalhar num glamping e o dia a dia era tão intenso, que acabou por não ser muito afetado pela falta de Sol.

“Havia vezes que estava a almoçar e olhava para o relógio e pensava ‘Espera lá, estou a almoçar ou a jantar?’. Ficava mesmo a questionar porque estava tudo escuro”, recorda. “Mas como tinha uma vida muito agitada, quase não sentia. Claro que era estranho, mas há uma certa habituação.”

Várias vezes por semana tinha também a oportunidade de dormir no glamping onde trabalhava, que tinha domos transparentes. Quase todas as noites, conseguia assistir às auroras boreais sem sair da cama.

No segundo ano, porém, teve a noite polar mais difícil até então. Isto porque estava a trabalhar num escritório, sem grande contacto com o exterior, e sentia sono logo ao início da tarde. “Não conseguia ser produtivo”, recorda.

Nesta altura, começou a tomar suplementos de vitamina D, para responder à carência da luz solar. O mesmo aconteceu no terceiro ano, em 2024, mas a meio do fenómeno acabou por passar por um burnout e sair do escritório.

Por sorte, conseguiu logo trabalho numa empresa turística especializada em registar e digitalizar a íris dos olhos para criar recordações. No ano passado, durante a noite polar, esteve 15 dias em Lisboa para receber formação e foi assim que descobriu uma forma de tornar tudo mais fácil.

“Tínhamos bastante sol em Lisboa e deu para aliviar. Foi assim que percebi que a estratégia é esta: temos de fazer qualquer coisa, sempre fora de Tromsø”, partilha. “Pelo menos, é uma das coisas que tem resultado comigo.”

As auroras acontecem com frequência durante a noite polar.

Do ginásio ao solário e aos suplementos

Este ano, Bruno tem adotado uma estratégia diferente dos últimos três. O sol começou a perder força no final de outubro e desde novembro que não há luz na cidade. Nesta altura, uma das atividades mais comuns para distrair são precisamente os mercados de Natal e os desportos de neve.

“Estou a criar com duas amigas uma associação para integrar as pessoas que vêm de fora”, partilha. “Um dos projetos que temos em mente é criar uma aplicação que vai ligar todos os eventos que existem em Tromsø, quase como se fosse uma agenda cultural.”

Outro objetivo que pretendem fazer é uma marcha associada à saúde mental. “É uma coisa muito pesada aqui, sobretudo na noite polar”, refere. “Infelizmente, os casos de suicídio, de depressão e de ansiedade aumentam exponencialmente nessa altura, principalmente para as pessoas que não estão habituadas a viver neste extremo.”

Bruno explica que a cultura no norueguesa, durante o inverno, é sempre dividida em duas atividades: “Ou trabalhas e vais ao ginásio ou vais a um bar gastar dinheiro e beber imenso.” Em Portugal, confessa que sempre gostou de ir a festas e beber uns copos com os amigos, mas desde que se mudou para a Noruega tem mudado de vida.

“Os noruegueses são mais frios do que os portugueses e quando bebem álcool, parece que libertam todas as emoções de uma só vez e nem sempre na melhor forma”, aponta. “É um bocadinho assustador e ainda experimentei isso  à noite com amigos meus do trabalho.”

Para tentar fugir a esta realidade, o português tem adotado uma estratégia que passa, maioritariamente, por ir ao ginásio todos os dias e praticar desporto. Além do suplemento de vitamina D, Bruno tem experimentado solários, que garantem, durante alguns minutos, a exposição à vitamina.

Entre outubro e março também organiza, pelo menos, uma viagem por mês com os amigos a locais que tenham sol. É a estratégia que encontraram para fugir à escuridão. “A sauna é também uma das coisas que é primordial fazermos na noite polar”, revela. “Vamos a saunas que estão no porto e, depois, quando saímos, saltamos para o mar. A água é muito fria, mas é um choque térmico que nos dá energia.”

@brunomiguelserra repor a vitamina D e acalmar os animos em tromsø🤗😅🇳🇴😍 #tiktokportugal #fypportugal #emigrar #noruega #tromso ♬ original sound – Bruno Miguel Serra

Outra estratégia que faz em casa é ter uma espécie de “candeeiro” (que mais parece um tablet) que recria o ciclo do sol. “É recomendado ligarmos quando estamos a tomar o pequeno-almoço. Dura cerca de 15 minutos”, revela.

No geral, para sobrevier a escuridão, o português aconselha manter um estilo de vida saudável e ter algumas distrações. É também importante ter paciência, sobretudo nos primeiros dias do fenómeno, quando as pessoas “estão mais sensíveis” e com as emoções à flor da pele.

A 21 de janeiro, o sol vai voltar a nascer e para celebrar, os cidadãos tendem a oferecer entre si um doce típico. “É muito parecido com as nossas bolas de berlim, mas é coberto com chocolate e tem creme de baunilha no interior.”

Este ano, Bruno vai também receber a família pela primeira vez para celebrar o Natal e o Ano Novo. “Vêm do Algarve e vai ser um choque gigante verem esta neve e esta escuridão”.

Carregue na galeria para ver algumas fotografias da vida de Bruno em Tromsø.

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