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Cap d’Agde: a capital mundial do nudismo onde naturistas e swingers lutam entre si

Uma das praias do resort só para naturistas é "um filme porno a céu aberto". Puristas estão contra a invasão de swingers.
É a capital mundial do naturismo

Assim que os ventos frios tomam conta das praias do sul de França, as lojas fecham portas, as montras apagam as luzes e Cap d’Agde torna-se num deserto. Os mais de 20 mil habitantes de Agde podem finalmente respirar de alívio depois dos sempre sufocantes meses de verão nos quais a localidade mais do que duplica a população. Mas há mais segredos escondidos na popularidade mundial da cidade costeira.

Situada a 60 quilómetros de Montpellier, Cap d’Agde, alberga o maior resort turístico exclusivamente naturista em todo o mundo. Uma espécie de Meca para a comunidade que se sente mais livre e feliz sem roupa. Contrariamente ao que acontece noutros locais, na pequena vila cujos limites estão bem definidos — até para evitar surpresas — a vida pode ser feita integralmente a nu: ir ao talho, beber uma cerveja na esplanada, passear na marginal junto à praia, dar um mergulho. Nesta terra de liberdade, quem traz roupa é olhado de soslaio e não o contrário.

Há 50 anos, a zona costeira de Agde era radicalmente diferente — uma paisagem pontuada por pequenas casas de praia. Um areal em especial era alvo da cobiça dos (ainda) poucos naturistas. A poucos metros, junto às dunas, estava o terreno dos Oltra, dois irmãos, moradores locais, que viram nesse fenómeno uma galinha de ovos de ouro.

Em 1956 criaram um pequeno parque de campismo só para quem prefere andar sem roupa, que décadas mais tarde haveria de acompanhar a explosão do turismo naturista na região. Atualmente, no mesmo local, encontra-se o Centro Naturista René Oltra, um alojamento de quatro estrelas que nasceu com o arranque do plano de expansão do governo para alavancar o turismo na região.

Foram precisamente os irmãos Oltra que terão convencido o estado francês a incluir nas subvenções uma zona exclusivamente naturista em Cap d’Agde, que haveria de receber a designação oficial em 1973. Para desenhar o novo hotspot turístico do sul de França foram requisitados os talentos do arquiteto Jean le Couteur, que desenhou diversas infraestruturas de alojamento, bem como espaços para lojas, piscinas públicas: tudo aquilo de que uma instância necessitaria.

O resort, apesar de bem integrado em Agde, tem regras muito próprias e as suas fronteiras são delimitadas para que não surjam quaisquer imprevistos, tanto para quem não aprecia o fenómeno como para os que gostam de tirar a roupa sem serem importunados por voyeurs.

A vista aérea do resort, com destaque, para o Heliopolis (a estrutura circular).

No interior destes limites há uma série de regras a cumprir. Algumas são lei, outras são preceitos implícitos de etiqueta que se foram aperfeiçoando ao longo dos anos. Tirar fotografias ou fazer vídeos é altamente desaconselhado, assim como usar roupas — claro. Pode andar vestido, mas conte com os olhares recriminatórios. Caso opte por usar espaços comuns como bancos de esplanadas, é esperado que, por uma questão de higiene, use uma toalha ou outro tipo de roupa que evite o contacto direto.

Se durante o dia, a nudez é quase obrigatória, as regras suavizam à noite, sobretudo quando a temperatura baixa. É também a altura do dia em que os milhares de turistas aproveitam para jantar ou para frequentar os clubes e as discotecas onde, pelo menos à entrada, é desejável que se apresentem com algum tipo de roupa.

A instância turística não está aberta a visitantes ocasionais. A entrada é garantida e livre a trabalhadores e turistas com alojamento pago, mas quem vier apenas para ver e ser visto será barrados à entrada. Para poderem aceder ao espaço, terão que pagar entrada que pode variar entre 10€ a 20€ por um passe diário.

Menos flexíveis são as leis que procuram evitar excessos. Por todo o resort estão afixados cartazes que alertam para as pesadas multas aplicadas a quem ousar praticar atos sexuais em público. Uma regra desnecessária para uns, ultrajante para outros e, desde há várias décadas, absolutamente necessária. Isto porque a chegada dos swingers provocou uma espécie de pequena guerra nas praias paradisíacas de Cap d’Agde.

Se os naturistas têm lutado contra a sexualização da prática, a torrente de swingers e turistas que procuram sexo desinibido veio mostrar-se um entrave à desmitificação deste resort único no mundo. Uma mancha no currículo de Cap d’Agde que tem dado origem a batalhas campais — literalmente.

Um resort, duas fações

Desde os anos 90 que os swingers têm chegado em grande número a Cap d’Agde. Atualmente, há quem considere até que já são a maioria, em contraste com os mais puristas, os naturistas que preferem não misturar o direito de passearem como vieram ao mundo com as atividades sexuais.

O resort tem mudado ao longos dos anos. No mais emblemático edifício, Heliopolis, as diversões familiares começaram a dar lugar a bares, discotecas e clubes de swing. Da passagem do título de paraíso nudista ao de capital do sexo, foi um instante. A reação não tardou.

Em Cap d’Agde há uma praia onde (quase) tudo é permitido.

A fação naturista, horrorizada com a transformação do espaço à mão de “libertinos e voyeuristas”, contra-atacou. Em 2009, registaram-se vários incêndios nos clubes de swing, cuja responsabilidade foi atirada para “o terrorismo naturista” dos descontentes.

A raiva foi provocada pelo número crescente de casos criminais de sexo em público. Uma das praias do resort foi batizada de Baía dos Porcos e ganhou fama por ser palco de sessões de sexo ao ar livre. “Quando o sol brilha, há uma área de Cap d’Agde que se torna na capital europeia do sexo livre”, queixou-se um dos vereadores municipais da localidade, citado pelo “The Mirror”.

A notoriedade de Cap d’Agde cresceu com a chegada dos swingers. O sexo vende — e ajudou ainda mais a economia da pequena localidade turística. “Os swingers mantêm tudo a funcionar. Têm outra energia, atraem muitos curiosos” explica um dono de um negócio ao “The Guardian”

As atividades mais arriscadas — e ilegais — levaram a que fosse necessário reforçar o policiamento, isto apesar de muitos munícipes reclamarem que os responsáveis políticos optam por uma “estratégia da avestruz” e preferem ignorar os comportamentos fora da lei. Os quase 1,5 milhões de turistas que passam por Agde todos os anos poderão ter algo a ver com a decisão. 

As orgias a céu aberto decorrem sob o olhar vigilante da polícia, que patrulha as águas de mota de água, mas como revela a imprensa alemã, quando chegam a terra, os prevaricadores já fugiram há muito tempo. Assim que as autoridades viram costas, a festa continua.

Nestes 100 metros do areal, quase nada é proibido, embora tudo seja feito de acordo com um conjunto de regras muito particulares no qual, dizem, as mulheres são quem manda. Quem ousa quebrá-las, como é o caso dos ocasionais voyeurs, é prontamente castigado pelos participantes. 

Polémicas à parte, há outra matéria na qual Cap d’Agde é pioneira: contrariamente à vila adjacente, há poucos ou nenhuns relatos de roubo. “Onde é que eles iam esconder as coisas?”, afirma um lojista.

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