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Casal descobre que foi filmado a ter sexo em hotel. Há centenas de outros casos

Uma reportagem da BBC denunciou o universo das câmaras escondidas nos hotéis chineses.

Foi durante uma pesquisa numa plataforma com vídeos porno que estava habituado a ver que Eric (nome fictício) descobriu um conteúdo insólito. Desta vez, não estava a assistir a pessoas desconhecidas a terem sexo, mas sim a ele próprio e à namorada num quarto de hotel.

Na semana anterior, o casal tinha ficado hospedado num hotel em Shenzhen, no sul da China, sem saber que não estava sozinho. No quarto onde Eric e Emily ficaram, havia uma câmara escondida que gravou toda a estadia, incluindo os momentos íntimos.

O caso aconteceu em 2023, mas só se tornou público agora, em março deste ano, depois de ter sido referido numa reportagem partilhada pela BBC. A estação britânica mergulhou no universo das câmaras ocultas da China, que tem sido um problema no país durante a última década.

No entanto, só nos últimos dois anos é que o assunto se começou a tornar viral. Graças às redes sociais, vários criadores de conteúdos, sobretudo mulheres, têm partilhado vídeos para ensinar outras pessoas a identificar câmaras escondidas em quartos de hotéis.

De acordo com a reportagem da BBC, há centenas de vídeos íntimos, gravados recentemente sem o consentimento dos hóspedes, a serem vendidos em plataformas porno. O jornalista Wanqing Zhang esteve a monitorizar vários sites durante sete meses e descobriu conteúdos captados por 54 câmaras diferentes.

“Isto significa que milhares de hóspedes podem ter sido filmados durante este período, segundo as estimativas da BBC, com base nas taxas de ocupação típicas”, escreveu. “É improvável que a maioria saiba que está a ser filmada”.

Eric, uma das vítimas mais recentes, contou à equipa de reportagem que desde a adolescência que consome pornografia em que aparecem pessoas desconhecidas, muitas delas filmadas sem o seu consentimento.

“O que me atraiu foi o facto de as pessoas não saberem que estão a ser filmadas”, disse o homem, agora com mais de 30 anos. “Acho que o porno tradicional parece demasiado encenado, demasiado falso.” No entanto, desde que descobriu o vídeo dele e da namorada, que deixou de consumir este tipo de conteúdo.

Esta indústria que envolve os quartos de hotel é, muitas vezes, divulgada através do Telegram. Embora a rede social esteja banida na China, continua a ser utilizada para atividades ilegais. Foi precisamente aí que Wanqing Zhang descobriu um vendedor de conteúdos sexuais filmado em hotéis.

“Um dos mais notórios comerciantes de pornografia com câmaras escondidas que encontrei foi um agente conhecido por ‘AKA'”, contou, acrescentando que se fez passar por consumidor para ter acesso ao conteúdo. O jornalista pagou cerca de 54€ para aceder a um dos sites de transmissão em direto promovidos pelo homem.

Após o pagamento, teve a opção de escolher entre cinco transmissões em direto diferentes, cada uma com vários quartos de hotel. As câmaras escondidas eram ativadas assim que um hóspede acionava a energia, inserindo o cartão-chave.

Além de assistir em direto, o jornalista tinha a possibilidade de retroceder as transmissões e descarregar vídeos arquivados. No próprio Telegram, descobriu pelo menos seis mil vídeos em arquivo, gravados desde 2017.

No canal do vendedor AKA, viu também diversos comentários de utilizadores a conversarem sobre os vídeos disponíveis e as câmaras em hotéis. “Eles celebram quando um casal começa a ter relações sexuais e queixam-se se apagam as luzes”, relatou, acrescentando que as mulheres são frequentemente descritas como “vadias”, “prostitutas” e “putas”. 

A investigação descobriu pelo menos outros 12 vendedores de vídeos íntimos gravados em hotéis. Só AKA terá faturado mais de 18 mil euros desde abril do ano passado. Os canais disponíveis no Telegram também ultrapassam os 10 mil subscritores.

Em abril de 2025, o governo chinês anunciou novas regulamentações para tentar conter esta indústria. As autoridades exigem que os proprietários de hotéis realizem inspeções regulares para detetar câmaras escondidas.

No entanto, de acordo com Blue Li, membro de uma organização chamada RainLily, que ajuda as vítimas a remover da Internet vídeos explícitos gravados secretamente, a procura pelos serviços do grupo está a aumentar cada vez mais. E são poucos os casos que chegam ao tribunal. 

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