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“Cast Away” da vida real: este homem viveu durante 30 anos sozinho numa ilha deserta

Depois de se reformar, Masafumi Nagasaki passou a viver como um ermita, longe das multidões. Hoje, é obrigado a viver num pequeno apartamento.
O japonês é o mais velho náufrago voluntário do mundo

A ilha mais distante. Foi esse o nome com que os japoneses da prefeitura de Okinawa batizaram a pequena ilha ao largo da ilha maior de Iriomote. Há dez anos, nesse minúsculo pedaço de terra com pouco mais de mil metros de largura, a “Reuters” encontrou Masafumi Nagasaki.

O japonês, então com 76 anos, era o seu único morador. Sem roupas e com a pele marcada pelo sol, o homem escondia uma história incrível. Chegado à idade da reforma, decidiu passar os seus dias longe de tudo e todos. Encontrou na pequena ilha junto a Taiwan o lar perfeito.

Ao fim de uma década, contudo, a reforma dourada de Nagasaki parece ter chegado ao fim. Esse final inesperado precipitou-se em 2018, quando um pescador — eles que raramente passam pela ilha — encontraram Nagasaki desfalecido na praia. A sua fragilidade era evidente e as autoridades não o autorizaram a regressar à ilha onde vivia há mais de duas décadas.

Foi recolocado na ilha de Ishigaki, onde ainda vive, mas a 16 de junho pôde regressar temporariamente a Sotobanari, apenas para matar saudades. “Não faço o que a sociedade me diz para fazer, mas sigo as regras do mundo natural. Não podemos bater-nos com a natureza, por isso temos que lhe obedecer completamente”, explicava em 2012 sobre a vontade de permanecer isolado. “Foi isso que aprendi quando vim para aqui.”

Trabalhou como fotógrafo e depois na indústria do entretenimento, até que se reformou. Quando deixou de ter obrigações laborais, decidiu deixar tudo para trás e refugiar-se em Sotobanari — uma experiência transformadora.

Pouco tempo depois de chegar à ilha, ela foi atingida por um tufão que destruiu tudo no seu caminho: as árvores que forneciam a valiosa sombra, a tenda onde dormia e até as roupas. “Estava sempre a queimar ao sol. Nessa altura pensei que ia ser impossível viver na ilha”, confessou.

Habitou-se a estar sozinho, um verdadeiro ermita. As roupas passaram a ser opcionais, até que se livrou definitivamente delas. Usava-as apenas na viagem semanal de barco, para ir comprar alguns mantimentos, que comprava com a mesada reduzida enviada pela família de pouco mais de cem euros.

Alimentava-se à base de bolos de arroz e eventualmente foi deixando de matar animais para comer, de pescar, de caçar. Passou a ter pena deles. Sobreviveu também graças à água da chuva, que recolhia e usava para cozinhar e tomar banho.

Poucos se atreviam a passar pela ilha, apesar da proximidade. As correntes fortes das águas tornavam-na num local pouco hospitaleiro para sessões de lazer e mesmo as águas eram pouco propícias para a pesca. Assim, Nagasaki podia ficar sozinho, sem roupas e sem preocupações.

“Andar nu noutros locais não dá, mas aqui, na ilha, é normal. É como um uniforme”, explica. “Nada de triste acontece aqui. Uma vez vi um pássaro morto na selva, senti pena, mas apenas isso. Nunca fiquei triste aqui, não se sobrevive com esse tipo de sentimentos. Aqui temos que ser realistas e obedecer às leis da natureza.”

Passou perto de 30 anos na ilha

Viver na ilha trazia os seus perigos, como as comuns víboras venenosas com quem coabitava. “Sempre assumi o risco a partir do momento em que decidi viver aqui. Os animais apenas atacam quando tentam sobreviver. Os mosquitos, por exemplo, fazem-no para se reproduzirem. Mas os animais não magoam os outros apenas porque querem. Só os humanos o fazem, conduzidos pelo seu egoísmo. Na ilha, estou livre de tudo isso.”

Isso não significa que não sentisse falta da civilização. Sentia, mas apenas de uma ferramenta útil: os isqueiros. Sobre o dinheiro e a religião, acusou-as de serem as coisas que “estão a destruir o mundo”.

A viver na civilização desde 2018, Nagasaki assume que sentiu muitas dificuldades em voltar a adaptar-se à cidade. Fez poucos ou nenhuns amigos e manteve-se isolado, agora num pequeno apartamento. Saía apenas para limpar as ruas, um hábito que trouxe da ilha.

Os aparelhos eletrónicos tornaram-se também num mistério para si, já que nunca os usou antes de se mudar para a ilha. Mas finalmente, quatro anos depois, as autoridades permitiram que Nagasaki pudesse voltar momentaneamente a Sotobanari.

Assim que chegou novamente às areias da antiga casa, atirou as mãos para o ar. “Irei proteger esta ilha enquanto for vivo. Custe o que custar”, frisou.

Pelo caminho, deixou um desejo curioso: morrer no meio de um tufão para que nunca ninguém o possa ajudar, mas também para não ser um estorvo para ninguém no final dos seus dias. “Encontrar um sítio para morrer é importante e decidi que este seria o meu”, explicou sobre a ilha.

Infelizmente, as autoridades não deixarão que isso aconteça, mesmo que na cidade se mostre muito mais debilitado e incapaz de cuidar de si próprio. A última viagem durou um par de dias, antes do regresso final a Ishigaki e à sua nova casa. Ainda assim, Nagasaki não abandonou a ilha triste. Voltou feliz por ter podido dizer adeus ao lar.

Nagasaki não se adaptou à vida na cidade

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