Viagens

Chegaram os cruzeiros que viajam para lado nenhum — e são um sucesso

Saem de um porto, dão uma volta sem escalas, com todos os luxos, e regressam ao ponto de partida. Tudo para matar saudades das viagens.
A Roayl Caribbean vai entrar na experiência.

Já ninguém estranha praticamente nada que surja em 2020. Neste ano que parece, no mínimo, saído de uma série futurista (em mau) estilo “Black Mirror“, até as formas que as pessoas, os setores e as empresas encontraram para enfrentar o desconfinamento e as saudades de uma vida normal são muitas vezes estranhas.

Primeiro, foram criados os voos para lado nenhum: a NiT já lhe falou deste verdadeiro fenómeno. Depois, os cafés com comida de avião — isso mesmo, espaços recriados à imagem de aviões e onde, em alguns casos, mata precisamente saudades dos tabuleiros com a comida das companhias aéreas. Agora, e depois de Singapura cancelar a sua adesão à moda dos “voos para lugar nenhum”, alegadamente por críticas a questões ambientais, o país decidiu começar a permitir cruzeiros para lugar nenhum, já a partir de novembro.

Segundo a “Lonely Planet“, os navios de cruzeiro não têm permissão para parar nesta cidade desde o passado dia 13 de março, por causa da pandemia de coronavírus. O Singapore Tourism Board emitiu entretanto novas diretrizes para cruzeiros e criou um programa de certificação CruiseSafe. E é este processo obrigatório que exige, entre outras coisas, que os navios andem apenas com 50 por cento da capacidade ou menos: e que embarquem numa viagem de ida e volta sem portos de escala.

É precisamente isso que as empresas vão fazer: idas e voltas de Singapura. Destino: lugar nenhum, apenas o passeio. De acordo com a revista, duas empresas com o seu porto doméstico na cidade, a Genting Cruise Lines e a Royal Caribbean International, participarão no programa piloto. O World Dream da Genting Cruise Lines partirá a 6 de novembro, e o Quantum of the Seas da Royal Caribbean International será lançado em dezembro.

Segundo as autoridades de turismo locais, o governo irá monitorizar os resultados desta viagens-teste com cuidado nos próximos meses, “antes de decidir sobre os próximos passos para os cruzeiros”.

Os restantes protocolos do CruiseSafe incluem medidas de controlo de infecção em cada etapa da viagem do passageiro, incluindo um teste à Covid-19 obrigatório antes do embarque e a garantia de 100% de ar fresco em todo o navio. Máscaras e distanciamento social também são obrigatórios, e inspeções aleatórias serão realizadas para garantir o cumprimento. Nestas primeiras viagens, só são permitidos passageiros de Singapura.

“Este piloto é uma oportunidade valiosa para os operadores de cruzeiros reinventarem toda a experiência de cruzeiro, a fim de reconquistar a confiança dos passageiros”, disse Keith Tan, presidente-executivo do Singapore Tourism Board. “Singapura continua comprometida em apoiar e aumentar o turismo de cruzeiros na região. Continuaremos a trabalhar com as empresas de cruzeiros e as partes interessadas do setor para traçar um novo rumo para cruzeiros seguros”, concluiu.

A nova vida dos cruzeiros

Recentemente, as principais companhias de cruzeiros revelaram como estavam a gerir este regresso possível à normalidade e às primeiras viagens, em plena pandemia. A MSC Cruzeiros, a maior companhia comercial do mundo, retomou os seus cruzeiros a meio de agosto, quando o MSC Grandiosa partiu do porto italiano de Génova para a sua primeira aventura de sete noites com escalas em Civitavecchia, Nápoles, Palermo, na Sicília e Valletta, em Malta, antes de regressar ao seu porto de embarque, em Génova.

Aqui, como nas restantes companhias, a partir de agora todos os hóspedes e membros da tripulação passam por uma ampla avaliação médica antes de embarcar no navio, que inclui testes universais para todos os passageiros e tripulantes, bem como apenas excursões protegidas em terra em cada porto de escala.

Logo no embarque fez-se sentir aquele será o admirável mundo novo de um setor que procura relançar-se, evitando surtos a bordo. As entradas são diferentes, de acordo com o novo e minucioso protocolo de Saúde e Segurança da companhia. Os primeiros hóspedes chegam ao terminal de acordo com os horários indicados individualmente, e seguindo os novos procedimentos de triagem universal, que inclui medição da temperatura, exame médico de questionário de saúde e testagem por zaragatoa à Covid-19, para todos os passageiros, antes de poderem sequer entrar.

Após concluírem estas etapas e receberem os resultados do teste no terminal, os passageiros aptos para viajar, embarcam no navio de acordo com os novos procedimentos de saúde e segurança, que incluem a higienização da bagagem de mão e de porão. Depois continuam as novidades, que acabam por afetar até o funcionamento do navio e a vivência das férias. Agora, todos os hóspedes recebem uma pulseira MSC for Me gratuita, que disponibiliza opções sem contacto físico enquanto estão a bordo, tais como abrir o camarote ou realizar pagamentos. Além disso, esta ajudará a facilitar a proximidade e rastreamento, caso seja necessário.

Em simultâneo, todos os membros da tripulação passam por semanas de rastreamento de saúde igualmente rigorosas, incluindo três testes Covid-19 em várias fases, bem como um período de isolamento antes de iniciarem as suas funções. Cada membro da tripulação passa a ser testado regularmente e a sua saúde monitorizada.

Ao longo do itinerário do navio, os hóspedes podem desembarcar para conhecer os diferentes portos mas apenas como parte de uma excursão em terra da MSC Cruzeiros para usufruir dos diferentes portos de escala com um nível adicional de protecção, de modo a que sua experiência em terra esteja alinhada com os elevados padrões de saúde e segurança a bordo.

Há mais: uma vez a bordo, dependendo dos resultados do rastreio e de acordo com o histórico médico e de viagens do passageiro, um segundo rastreio ou teste de saúde será necessário durante a viagem. E claro, dentro do navio há novos critérios de limpeza e higienização com introdução de diferentes métodos de limpeza e a utilização de desinfetante próprio para hospitais.

Até o ar terá de ser sempre seguro: é feito um saneamento do ar a bordo com tecnologia de luzes UV-C altamente eficaz, matando cerca de 99,97% dos micróbios. Em navios onde o convívio costumava ser parte da experiência, o distanciamento social é possível através da redução da capacidade dos passageiros a bordo, permitindo mais espaço para os passageiros, aproximadamente 10 metros quadrados por pessoa, baseado numa capacidade geral de 70%.

A capacidade das áreas é reduzida, as atividades adaptadas para permitir grupos mais reduzidos e os hóspedes devem reservar antecipadamente todos os serviços e atividades de forma a gerir o número de participantes. Quando o distanciamento social não for possível em espaços públicos, como nos elevadores, será pedido aos passageiros que utilizem uma máscara facial. As máscaras serão disponibilizadas diariamente no camarote e oferecidas pelo navio.

Em termos médicos, há também serviços melhorados: com tripulação qualificada e treinada, o equipamento necessário para testar, avaliar e tratar pacientes suspeitos de contraírem o vírus e a disponibilidade de tratamento gratuito no centro médico de bordo para qualquer passageiro com sintomas. Camarotes especificamente isolados para o efeito passam a estar disponíveis para assegurar o isolamento, de quaisquer casos suspeitos ou contactos próximos. Se um caso suspeito for identificado, um plano de resposta a contingências é ativado, em colaboração próxima com as autoridades nacionais de saúde.

Mesmo com todas estas medidas, a indústria dos cruzeiros, que era uma das mais crescentes dos últimos anos, sofreu um embate fortíssimo com a pandemia — tão forte que até já nasceu o primeiro cemitério de cruzeiros mundial, onde estão a ser desmantelados diversos navios, como a NiT já noticiou.

Os voos para lado nenhum

Em setembro, soube-se então que os “voos para lado nenhum” eram a nova moda deste insólito 2020. No dia 17 de setembro, foi revelado que um voo de sete horas da Qantas para lugar nenhum esgotou em 10 minutos. Não era caso único: parecia ser apenas o início de uma nova e crescente tendência, nascida para apaziguar o desejo de viagens — os voos que saem e regressam ao mesmo lugar, sem nunca parar.

Segundo a “CNN“, depois de meses a tentar contornar as restrições globais, algumas companhias viram a solução: voos para lugar nenhum, ou viagens aéreas que acontecem exclusivamente com o propósito da viagem, não com o do destino.

O mais incrível é que os viajantes aderiram em massa a esta moda do viver a viagem como a própria experiência de voo, da emoção da descolagem às vistas incomparáveis ​​da janela da cabine. A tendência tem vindo a crescer e diz o “Washington Post ” que estes voos já ocorreram em Taiwan e no Japão. Mas a adição mais mediática à lista foi mesmo o tal voo de sete horas da australiana Qantas, que entretanto já aconteceu: saiu de Sydney a 10 de outubro e voltou no mesmo dia, sem paragens ao longo do caminho, cumprindo assim todas as restrições de viagens internacionais.

Provando quão populares são agora estes voos, a viagem da Qantas esgotou em apenas 10 minutos, de acordo com a companhia aérea, com passageiros ansiosos para simplesmente partir, um momento em que a Austrália parou quase todos os voos extra-fronteiras.

Neste caso, na verdade, não era só a viagem que aliciava: os passageiros sobrevoaram a Grande Barreira de Corais, o monólito Uluru e o Outback australiano, nas mais baixas altitudes possíveis. No entanto, tendo em conta o valor elevado dos bilhetes (sobretudo com o facto de ser um voo para lado nenhum) o sucesso foi inesperado. É que os passageiros pagaram entre 700 a dois mil euros por estas sete horas no ar, e mesmo assim os 134 lugares desapareceram nos tais dez minutos, o que já faz antecipar novas partidas.

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