Viagens

A cidade hippie de Copenhaga está dividida: moradores lutam para expulsar traficantes

A "cidade livre" há muito que deixou de ser pacífica e o "sonho hippie perfeito" está em risco devido ao aumento dos gangues.
A guerra começou.

Já lá vão mais de 50 anos desde que Christiania, o refúgio de anarquistas, hippies e artistas no coração de Copenhaga, na Dinamarca, se tornou num bairro livre e autónomo, com regras e até uma moeda própria. É conhecido especialmente por ter uma atitude liberal em relação à canábis e ao mercado de drogas, mas já não é tão pacífico como em tempos foi — ou tentou ser.

Christiania é hoje um território controlado por gangues de traficantes que estão a destruir tudo aquilo que o bairro conquistou em 1971,  quando se autodeclarou uma cidade livre. Nos últimos anos, o crime organizado tem assumido cada vez mais o controlo e a violência crescente tem abalado toda a comunidade.

Fartos da violência destes grupos, os hippies mais velhos da cidade, que transformaram uma antiga base naval numa comunidade livre, querem expulsar os criminosos que dominam o lucrativo mercado do haxixe e da canábis. Os moradores juntaram-se à polícia no último sábado, 6 de abril, para recuperar a Pusher Street, a rua principal que é também o epicentro da venda de droga. Com pás e pés de cabra na mão, os residentes arrancaram os blocos retangulares que compõem o pavimento para abrir caminho para um projeto de restauração.

Juntos, agarraram nas pedras pesadas e atiraram-nas para os carrinhos de mão, uma por uma. Os restantes aplaudiram o momento. “Estamos a desmontar a Pusher Street. A partir de hoje está fechada. É uma espécie de festa de encerramento”, disse à “BBC” Pia Jagger, uma das moradoras, enquanto estava a carregar uma enorme pedra.

Durante todo o dia, a famosa rua com cerca de 100 metros de estrada ergueu uma nova placa onde se lia “Hoje, a Pusher Street está fechada”. “Nos últimos cinco ou seis anos não estive muito aqui porque tenho filhos e não me sentia muito segura. Hoje trouxe os três e estamos todos a ajudar”, contou Sofie Ostergaard, outra residente. Para a maioria, este protesto foi “um momento histórico”.

Conhecidos como Christianites, os moradores já tinham tomado a decisão drástica de fechar a rua em agosto do ano passado, quando o território registou o quarto assassinato em três anos. A guerra entre os hippies e os criminosos, contudo, parece estar longe de terminar.

Uma das residentes de Christiania.

Embora seja ilegal na Dinamarca, a canábis é vendida abertamente no bairro de Christiania há décadas e tudo parecia funcionar bem. A venda e compra de droga sempre foi tolerada na Pusher Street, embora informalmente. 

Tudo mudou na década de 2000, quando o mercado se tornou maior, mais visível e mais atrativo. A situação começou a ficar fora de controlo há cerca de três anos, quando começaram a chegar os gangues organizados, responsáveis pela onda de esfaqueamentos e tiroteios fatais que abalaram a comunidade.

Muitos dos traficantes locais originais foram expulsos. Outros acabaram mesmo por morrer, como aconteceu em agosto do ano passado, quando um homem de 30 anos foi morto a tiro após mais uma batalha pelo território. “Duas pessoas entraram. Mataram um homem a tiros e feriram outros quatro. Foi aí que dissemos basta”, disse Hulda Mader, a líder dos “anarquistas com regras”, que se tem queixado do aumento de esfaqueamentos e assassinatos.

A polícia já invadiu várias vezes o local, mas sem sucesso: dia após dia, os traficantes insistem em regressar. Agora, o objetivo passa por mudar toda a infraestrutura da rua principal e “começar a construir outras coisas”, como forma de colocar um fim a este “capítulo cheio de violência”. “É um dia que representa o início do fim, das raízes muito, muito profundas que os gangues de crime organizado estabeleceram neste bairro de Copenhaga”, enfatizou o ministro da justiça dinamarquês, Peter Hummelgaard.

Para os moradores, o mais importante é salvaguardar Christiania, para que continue a ser uma parte vibrante, colorida e criativa da Dinamarca. Para isso, precisa “de ser um lugar sem gangues criminosos organizados”.

O grande objetivo da operação é fechar o famoso centro de comércio de haxixe e receber fundos governamentais para a revitalização da zona. Novos espaços artísticos, parques infantis e lojas estão entre as ideias para o que poderá eventualmente substituir a Pusher Street.

Com a remoção simbólica dos paralelepípedos pelos residentes e a presença de funcionários dinamarqueses, esta ação marca um passo significativo no sentido da recuperação da autonomia de Christiania, a cidade livre que se distanciou do resto do mundo, mas que precisa agora de ajuda para evitar que o “sonho hippie perfeito” seja destruído.

A cidade livre de Christiania

À entrada do bairro de Christiania existe um grande placard com algumas regras que têm de ser respeitadas pelos visitantes: não é permitido fotografar, não corra porque causa o pânico e divirta-se. Também é legal comprar e vender haxixe, ato que foi ilegalizado no resto do país.

Esta região de Copenhaga foi autoproclamada de “bairro autónomo” em 1971 e tem um passado e presente muito ligado a drogas. Nele moram cerca de 900 cidadãos incluindo hippies, anarquistas, artistas e músicos que se mudaram para lá como uma forma de protesto contra o governo da Dinamarca. Anteriormente, a área onde estão agora instalados era um complexo militar.

Os primeiros habitantes desta localidade tinham em comum ideais anarquistas, como a rejeição de certos valores morais e convenções sociais. Também desprezavam os ideais capitalistas posteriores à Segunda Guerra Mundial. Os hippies que migraram para lá desejavam, maioritariamente, um espaço verde e aberto onde pudessem criar os seus filhos longe da agitação frenética de Copenhaga.

O bairro dispõe de todos os serviços que são necessários para a subsistência humana: escolas, cafés, artesãos e pequenas mercearias. Até tem uma empresa — Christiania Bikes — onde são produzidas bicicletas usadas por toda a capital da Dinamarca. Todas as trocas efetuadas na região são feitas com uma moeda própria, o Lon.

Após a implementação da comunidade em 1971, vários órgãos estatais tentaram remover os habitantes de lá por serem uma força reivindicativa que punha em causa a paz do local, mas foram todos em vão devido ao elevado número de moradores e à área ocupada pelos mesmos.

A vida neste subúrbio central constrói-se com base num espírito de comunidade muito forte. Nesta autoproclamada região, a liberdade artística também reina: a maioria dos edifícios estão deteriorados e são bastante velhos, mas o que lhes dá um maior encanto são os graffitis interventivos espalhados por toda a parte. A arquitetura típica é caracterizada por ser individualista e pitoresca devido ao seu estilo alternativo.

No território de Christiania não existem contratos de arrendamento nem compras de imóveis. Basta escolher uma casa e ficar com ela como se fosse sua. O sistema jurídico, aquele que trata dos problemas e conflitos dos habitantes, é realizado de modo coletivo, ou seja, tudo de forma democrática baseada num consenso geral. A ideia é que todos tenham responsabilidade pelos seus atos em sociedade. 

Atualmente, cerca de mil residentes, incluindo 250 crianças, vivem em alojamentos e chalés de madeira cobertos de grafitti ao longo das muralhas históricas de Copenhaga. Com locais de música, cafés vegetarianos e lojas de souvenir, é também um dos principais destinos turísticos do país.

De seguida carregue na galeria para conhecer melhor o mundo de Christiania.

 

ver galeria

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT