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A comovente história da viúva que ia ao metro de Londres para ouvir a voz do marido

Antes de morrer, o marido gravou os anúncios que passam numa das estações. Margaret McCollum insistiu tanto que a empresa mantém essa voz desde os anos 70.
Lutou e concretizou o seu desejo.

Todos aqueles que já viajaram no metropolitano de Lisboa, além da NiTfm que passa nas colunas das estações, já ouviram as duas vozes que dão avisos quanto às viagens e próximas paragens. No Reino Unido o mesmo acontece, com advertências semelhantes às nossas e com vozes que, embora desconhecidas para muitos, acabam por ter um significado importante para outros.

Ao longo dos anos, aquelas vozes com sotaques britânicos foram mudando, exceto no caso da estação de Embankment, cujo locutor permanece igual desde os anos 70. O homem responsável pelos tais avisos chamava-se Oswald Laurence, um ator que nunca teve grandes papéis e que acabou por falecer em 2007, deixando para trás os anúncios do metro. E uma viúva.

À semelhança do que aconteceu nas outras estações, Embankment também passou a ter um sistema de vozes digital, para oferecer uma maior variedade a todos os utilizadores do transporte público. Para quase todos os passageiros, esta mudança não fez qualquer diferença, mas para Margaret McCollum esta decisão foi devastadora.

Em 2012, a mulher na altura com 40 anos resolveu protestar contra aquela modificação. “Mesmo antes do Natal de 2012, os empregados da estação de Embankment foram abordados por uma senhora que estava bastante transtornada”, explica John Bull, um historiador e jornalista britânico.

Perguntou-lhes para onde tinha ido a voz, o que os deixou bastante confusos: “A voz? Que voz?”, questionaram-se. “A voz. Aquela que diz ‘mind the gap'”, ou, em português, “cuidado com o espaço” entre a carruagem e a plataforma da paragem. Informaram-na de todas as alterações, mas a mulher explicou-lhe um pouco da história daquele homem, um ator cujo maior trabalho foi dizer todos os avisos que se escutavam na linha norte do metropolitano de Londres.

Após a sua morte em 2007, eram aqueles anúncios que traziam paz à mulher viúva, e o facto de continuar a ouvir todos os dias o marido antes do trabalho aproximavam-no de uma figura que já não estava fisicamente presente. Por vezes, sentava-se na estação de Embankment apenas para ouvir a sua voz.

Os funcionário ficaram profundamente emocionados pela sua história. No entanto, não havia muito que pudessem fazer. Por isso, limitaram-se a prometer que, caso a gravação do marido ainda existisse, lhe dariam uma cópia para que ela a pudesse ouvir sempre que quisesse.

“Procuraram em arquivos e, depois de a encontrarem, restauraram as cassetes antigas. Várias pessoas trabalharam para as conseguirem digitalizar. Outras mexeram nos códigos do sistema de anúncios para o alterarem, enquanto mais trabalhadores tratavam da papelada e das isenções. Juntos, fizeram Oswald falar novamente”, explica o historiador numa thread do Twitter.

Em 2013, a sua voz voltou a ser ouvida na estação de Bankment, onde a sua mulher passava diariamente. McCollum também recebeu uma cópia especial só para ela, tal como lhe tinha sido prometido. 

Esta história conseguiu comover tantas pessoas que foi até criada uma curta-metragem inspirada no casal McCollum. Tem sete minutos e pode ser vista no YouTube. Caso já tenha esgotado um pacote de lenços a ler este artigo é melhor ir buscar outro, porque a cena final do projeto é verdadeiramente arrepiante.

Mike Flanagan é o responsável por esta pequena produção, que lhe é bastante familiar. Não porque conhecesse Oswald Laurence, mas porque o fazia lembrar de outra época da sua vida, quando era mais jovem.

“O anúncio do ‘mind the gap’ é uma parte de Londres tão icónica quanto o autocarro de dois andares. Para os londrinos esta voz tem um grande significado — muitos de nós lembra-se da voz de Oswald Laurence na linha do norte, então quando a ouvimos agora somos transportados para outro tempo. Há uma certa nostalgia para quem cresceu em Londres e sempre usou o metro”, explica.

 

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