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Conheci Nitynawã: a super-mulher que criou um projeto de sucesso no Brasil

O cronista da NiT Miguel Lambertini esteve na Reserva Indigena da Jaqueira, na Bahia. Foi uma experiência de vida.
Uma viagem lúdica.

Quando vi o roteiro da viagem ao Brasil, que o canal AXN White me enviou, além do passeio de barco para visitar praias paradisíacas , uma das coisas que mais me chamaram a atenção foi a visita à Reserva Indigena da Jaqueira. Fiquei muito curioso, porque o mais perto que eu alguma vez tinha estado de uma comunidade destas era quando ia ao parque dos índios na Serafina.

Apesar de ter um aspeto algo lúdico, que surge talvez do facto de ser, assumidamente um local turístico, a Reserva Indígena Pataxó da Jaqueira, é muito mais do que uma “aldeia de índios”. Até porque como aprendi nesta visita, o termo índio é demasiado genérico para compreender a multiplicidade de aspetos da cultura indígena brasileira. Em contrapartida, “indígena” é uma palavra que significa “natural do lugar em que vive”. Este termo exprime que cada povo, de onde quer que seja, é único. E essa é uma das primeiras realidades que percebemos ao visitar este verdadeiro oásis de 827 hectares de Mata Atlântica preservada, onde vivem os Pataxó. Mas quem são estes nativos que criaram, desenvolveram e mantêm um ponto de etnoturismo com o objetivo de promover a afirmação da cultura do seu povo e a preservação ambiental da região?

Os Pataxó são um povo indígena brasileiro seminómada que em 2010 totalizava cerca de 12 mil pessoas. Vivem, na sua maioria, na Terra Indígena Barra Velha do Monte Pascoal, a sul do município de Porto Seguro. É neste local que se encontra a Reserva Indígena Pataxó da Jaqueira, situada a apenas 12 quilómetros do centro de Porto Seguro, na Bahia, onde vivem 34 famílias que ainda assumem alguns dos costumes milenares que foram passados geração após geração. Muito desse trabalho de investigação e preservação dos hábitos culturais foi responsabilidade de Nitynawã, uma das líderes da aldeia e uma verdadeira enciclopédia viva sobre a História da tribo Pataxó, em Porto Seguro. É esta mulher de rosto carregado mas amigável que inicia a visita ao espaço, convidando-nos a sentar em semi círculo dentro de uma grande estrutura de madeira em formato de fórum, com cobertura de palha. Aqui escutamos com atenção a incrível história de vida de Nitynawã. São contos de superação e liderança no feminino que se confunde com a origem da própria reserva.

Esta mulher que até à sua juventude não falava uma palavra de português, explicou-nos de forma eloquente como em 1951, no famigerado ‘Fogo de 51’, um dos mais significativos episódios da luta pelos direitos dos povos indígenas no País, a sua aldeia foi invadida por elementos das forças armadas que incendiaram as palhotas, violentaram mulheres e mataram vários membros da tribo. Tal como os restantes sobreviventes deste ataque, Nitynawã, as suas duas irmãs e os pais dispersaram-se pela região e viveram de forma nómada e isolada durante vários anos, Até que em meados dos anos 90 as três irmãs, Nitynawã, Jandaya e Nayara decidiram fincar raízes no local, ao perceberem que o desmatamento da área era um risco cada vez mais iminente. E uma vez que precisavam de recursos para sustentar a tribo e preservar o lugar, as irmãs decidiram abrir a sua aldeia como ponto turístico.

Dito assim até parece algo fácil, mas como nos contou a fundadora desta comunidade, as irmãs encontraram muita resistência. Por um lado, por parte do governo, que temia que a abertura de uma aldeia para visita de turistas pudesse prejudicar o objetivo real da demarcação de terras indígenas – a manutenção da cultura e do modo de vida dos membros da tribo. Por outro lado, e como se não bastasse, tampouco eram bem vistas por lideranças de povoações vizinhas, que não admitiam que três mulheres gerissem uma aldeia. Nitynawã e as suas irmãs superaram todas as adversidades e hoje a reserva, com casas de taipa e uma atmosfera que recria o estilo de vida de um típico povoado indígena brasileiro, é muito mais do que apenas um ponto turístico. É, acima de tudo, uma iniciativa louvável que une a sociedade civil a um mundo que merece ser conhecido e reconhecido. Mas é também um pólo de agregação da cultura indígena daquela região. Nitynawã partilha com orgulho que, até ao momento, “conseguiram catalogar seis mil palavras na língua pataxó e que a reserva alberga uma escola com ensino bilíngue de português e patxohã, a língua oficial da tribo.

“Pode ensinar-nos algumas palavras?”, perguntei. Nitynawã respondeu com entusiasmo: “Iamissú” signigica Deus, “Kijeme” é casa e obrigado diz-se “Awery”. “O idioma dos Pataxó é quase tão bonito como os cocares de cores garridas, feitos de penas de papagaio, que adornam a cabeça de Nitynawã.”

O passeio guiado pela reserva inclui visita à horta, à escola e a uma casa típica, além de levar o grupo por um caminho repleta de armadilhas, com demonstração prática do funcionamento de cada uma. No final, os turistas podem participar de um ritual de música e dança, além de saborear algumas das opções gastronómicas indígenas. E que maravilha de opções….Enquanto saboreava um delicioso peixe acabado de assar numa folha de patioba, olhei para cima e sussurrei “Awery Iamissú”.

Descobrir as riquezas da cultura indígena.

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