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Da reforma à fama mundial: a nova vida do homem húngaro que virou meme

O mundo conhece-o como Harold. A família trata-o por András, o homem que viu a vida virada do avesso por causa de uma foto.

A cara de Harold era uma entre muitas, multiplicadas até à exaustão em cenários genéricos nos bancos de fotografias. Mas este homem tinha algo de especial: uma expressão inquietante despertou a atenção de alguém que a partilhou algures na Internet — foi assim que o fenómeno começou.

De caneca na mão, em frente ao portátil, Harold — nome de batismo da Internet — fita diretamente a câmara. Sorri, mas o olhar parece não acompanhar a feição alegre. Era a expressão de alguém que finge um sorriso que esconde uma profunda tristeza ou dor. Nascia assim o meme de Hide the Pain Harold, ou Harold que Esconde a Dor.

Enquanto a imagem varria as redes sociais, na Hungria, um homem chamado András Arató vivia a sua vida calmamente. O reformado não sabia sequer o que era um meme, até se cruzar com Harold. Harold era, na verdade, um meme criado a partir de imagens suas, tiradas por um fotógrafo profissional, meses antes, e que foram partilhadas num banco de fotografias. “Inicialmente foi uma experiência chocante. Fiquei sem saber o que fazer”, confessou em 2019, no palco da TEDx em Kiev, na Ucrânia.

Tudo começou uns anos antes, numa viagem à Turquia. O engenheiro eletrotécnico de profissão registou toda a viagem e partilhou-a nas redes sociais. As imagens captaram a atenção de um fotógrafo profissional que o convidou para ser modelo. Posou como funcionário de escritório, como reformado e até como médico.

Nunca pensou muito nesse trabalho, até que alguns meses depois, resolveu fazer uma pesquisa para ver onde é que a sua cara estava a ser usada. Esbarrou com a sua imagem no site de um hospital americano. Mas nada o preparou para ver a sua cara transformada num meme. “Alguns eram bem-humorados, outros eram ofensivos”, recorda.

“A minha reação inicial foi a de acabar com tudo aquilo. Fazer desaparecer tudo”, disse. Ponderou as diversas opções, até chegar à conclusão inevitável: “É a natureza da Internet: não é possível fazer desaparecer nada.”

Resolveu esperar que o tempo trabalhasse a seu favor e que a imagem fosse desaparecendo. “Estava totalmente enganado. O fenómeno chegou a mais países.”

O mais estranho sucedeu quando, em 2017, alguém conseguiu chegar até si e lhe enviou um email. Era um utilizador anónimo que decidiu procurar o homem por detrás do meme que, dizia ele, achava que não existia. “Ignorei o pedido, mas ele insistiu tantas vezes que acabei por lhe enviar uma prova.”

A imagem de Arató a segurar num papel que o identificava tornou-se viral e destruiu todas as esperanças que o húngaro ainda nutria de que o meme acabasse por desaparecer. Não só estava por todo o lado, como meio mundo sabia o seu verdadeiro nome.

Hoje com 76 anos, Arató decidiu aproveitar tudo o que esta fama súbita tinha para oferecer. No seu país natal, encontrou um part-time como DJ numa rádio local, onde colaborou durante cinco anos. Mais tarde, em 2019, tornou-se mesmo na cara de uma campanha nacional da Coca-Cola e, em 2020, foi um dos concorrentes da edição húngara do concurso musical “A Máscara”.

A fama internacional levou-o até Manchester, onde participou num mini-documentário relacionado com o Manchester City. Foi também convidado para contar a sua história num evento TEDx e continua a ser figura em diversas campanhas publicitárias.

“A minha vida mudou de forma dramática, mas quer dizer, não aconteceu nada de trágico. Contudo, levei muito tempo até conseguir aceitar esta situação”, confessa. “Ao fim de alguns anos, decidi assumir o papel porque me pareceu que era uma ótima oportunidade e não uma ameaça. A minha cara tornou-se numa marca, seria um idiota se não tirasse proveito disso. Fazendo as contas, não me arrependo nada daquela fatídica sessão fotográfica.” 

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