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Esqueça o Hygge, o Friluftsliv da Noruega é a receita para a felicidade em 2020

Ar livre, bosques e caminhadas serão afinal o segredo, dizem os noruegueses há décadas — e este ano todos prestam atenção.
O ar livre é que é.

Primeiro, foi o Hygge. Depois, o Ikigai, o Lagom, o Nesting, o Còsagach. O ser humano precisa de respostas, de rituais, de guias e filosofias, algo que o ajude a entender e a aproveitar melhor a vida. E a maior parte das respostas (pelo menos as mais recentes e as que chegam cá) tende a vir dos países nórdicos da Europa, onde a qualidade de vida parece ser sempre mais fácil, apesar do frio e dos longos invernos — ou talvez precisamente por causa disso.

Quando, em 2017, o mundo foi invadido pelo Hygge — começou por ser uma filosofia de vida, depois uma tendência, às tantas já era um estilo, linhas de decoração, formas de construção, roupas, comidas, bebidas — a palavra de ordem era o conforto.

O Hygge, ou o “Segredo Dinamarquês para ser Feliz”, assim se chamava o livro que tudo começou — já lá vamos — apostava no aconchego. Este tal segredo que os dinamarqueses, considerados por várias vezes como o povo mais feliz do mundo, diziam ter, era, e é, afinal, algo fácil de conseguir ou de encontrar: a paz, a felicidade e o equilíbrio conseguidos no aconchego, no calor, no bem-estar. Pequenas coisas como estar com uma manta em frente a uma lareira, ter momentos para si, acender velas, tomar banhos de imersão, ler um bom livro, ver um bom filme, beber uma chávena de chá — sempre num ambiente acolhedor e, normalmente, interior.

Em 2020, a tendência é outra: algo que surgiu antes da pandemia do novo coronavírus mas que lhe encaixa como uma luva. Por causa do risco de contágio, já se sabe, a preferência seja do que for deve ser dada ao ar livre: esplanadas, refeições, encontros que tenham mesmo de acontecer, sempre ao ar livre. 

Por causa dos receios da pandemia, milhões de pessoas em 2020 começaram a explorar mais a natureza, o espaço, os rios, cascatas, tudo o que é fora de casa — o aparente oposto do hygge, portanto.

Entra em cena o Friluftsliv. Primeiro defeito — nunca vamos conseguir decorar o nome. Tudo o resto parece perfeito, ou na mouche para este ano tão insólito.

A filosofia desta vez vem da Noruega — outro país nórdico — e nasceu, diz o “The Guardian“, há décadas. Há até pelo menos uma associação que a promove, a Associação Norueguesa de Organizações ao Ar Livre. Não se pode dizer que seja uma coisa nova, esta tendência norueguesa, o Hygge também não era. Mas este ano tornou-se gigante: são agora mais de 41 mil os resultados que se encontra numa breve pesquisa do Google: muitos artigos, notícias, análises. Dados oficiais mostram que, por causa do coronavírus, um terço dos noruegueses aumentou o seu tempo na natureza, sendo que o tempo médio anterior já era de três idas por semana a um local como um bosque.

“Trata-se de desligar-se do stress diário e ver na natureza uma sala de fuga, como se o bosque fosse uma extensão da sua própria casa”.

E porquê este sucesso agora? Porque promove tudo o que é ar livre, como o tal segredo para o bem-estar. Segundo explica o líder desta associação norueguesa dedicada ao tema, ao jornal britânico, “para os noruegueses, friluftsliv tem menos a ver com o que cada um faz e mais com onde cada um está”, frisa. “Trata-se de desligar-se do stress diário e ver na natureza uma sala de fuga, como se o bosque fosse uma extensão da sua própria casa”.

Não é só uma filosofia, há que fazer e praticar: há quem o faça três vezes ou mais por semana, estas atividades friluftsliv — os especialistas no tema recomendam caminhadas, relaxar ao ar livre, pescar, dormir em redes nas árvores, acampar, colher frutos. O símbolo é a fogueira e o mantra é “o direito do homem de vaguear”.

A “National Geographic” entrevistou uma família norueguesa que já o pratica constantemente, há anos: pai e filha, de cinco anos, estão sempre no bosque à procura de “criaturas mitológicas”. Mina, a menina com cinco anos, já passou mais de 300 noites a dormir numa tenda.

Ar livre e campo não são só então mais aconselhados este ano: também trazem, pelos vistos, felicidade — o que, sem demérito dos noruegueses, no fundo até já sabíamos.

A loucura do Hygge

Em 2017, a grande sensação mundial desse ano foi o Hygge. Como a NiT já lhe contou, tudo começou com “O Livro do Hygge: O Segredo Dinamarquês para Ser Feliz”, de Meik Wiking, lançado pela primeira vez a 1 de setembro de 2016 (recorde a entrevista à NiT). O presidente do Happiness Research Institute tornou popular um conceito enraizado na língua e cultura dinamarquesa há mais de 200 anos que há muito tempo que detém o título do povo mais feliz do mundo.

Depois, vieram as tentativas de tornar populares novos sucessores ao Hygge: os mais falados foram o Lagom, Ikigai e Wabi Sabi. O Lagom foi lançado pelos suecos e, mais uma vez, tudo começou com o livro: “Lagom — O Segredo Sueco para Viver Bem”, de Lola Akinmade Åkerström. Ela garantia que quem percebia mesmo de felicidade era a Suécia, que essencialmente significa encontrar um meio termo. Lagom significa “na medida certa”, ou “nem demais, nem de menos”.

A seguir, veio o Ikigai. Depois da Dinamarca e da Suécia, foi a vez de uma filosofia de vida japonesa se tornar popular. Mais uma vez veio um livro, “Ikigai – Viver Bem Até Aos Cem”, de Francesc Miralles e Héctor García. Em algumas coisas é completamente contrário ao Hygge. Em vez de abrandar, o Ikigai promove a ideia de que temos de manter um ritmo de vida ativo. Não parem, não se reformem: desde que aquilo que estejam a fazer vos faça felizes. Já no que diz respeito ao Lagom, até se aproxima na questão de ser moderados — é que eles têm uma regra, de não comer mais do que 80% da sua fome. É o segredo para uma vida longa e saudável, garantem.

Ainda em 2017 apareceu o Nesting, primo do hygge ao dizer: passe tempo em casa. Pare de andar de um lado para o outro a fazer coisas, corte nas saídas com os amigos e nas horas a mais no trabalho, e fique em casa. O oposto do Friluftsliv, porém também adequado a uma pandemia e eventuais confinamentos.

Em 2018, diretamente da Escócia, veio ainda o Còsagach. Não é muito diferente de todas as outras teorias: pede para relaxar, ter o seu momento. Traduzindo à letra, significa confortável, acolhedor, protegido. Tal como o Hygge, tornou-se um estilo de vida expresso também na moda, decoração, cobertores  —  e até no whisky escocês.

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