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Esqueça a Rota 66: esta estrada na Argentina é mais longa, mais inóspita e mais bonita

A Rota 40 existe desde dos anos 30 e cruza quase todo o país, do fim do mundo na Patagónia à fronteira boliviana.
Vai precisar de um mês de férias

A Rota 66 que cruza os Estados Unidos é provavelmente a estrada mais famosa do mundo, com os seus 3,665 quilómetros de distância que percorrem paisagens únicas. Mais a sul, existe uma outra rota que é mais longa, mais selvagem e, ainda assim, menos conhecida — mas não menos deslumbrante.

Os argentinos chamam-lhe apenas “a 40”. Trata-se de uma viagem inesquecível que atravessa 11 províncias e uma enormidade de paisagens incríveis. Esta rota com quase 5,2 mil quilómetros não é apenas um caminho, mas também uma jornada que liga os glaciares do sul às salinas do norte. A rota é, de resto, tema central do documentário “Patagónia: A Estrada no Fim do Mundo”, exibido pela RTP2 esta quarta-feira, 22 de novembro.

A rota eleva-se desde o nível do mar até quase cinco mil metros de altitude, enquanto atravessa montanhas e vales — e cruza um total de 236 pontes, rios, desertos, bosques, glaciares e vulcões. O traçado original data de 1935, embora a rota tenha sofrido várias modificações ao longo da sua história, até assumir a forma atual que se estende de Cabo Vírgenes, no extremo sul de Santa Cruz, até La Quiaca, no norte de Jujuy, sempre aos pés da cordilheira dos Andes.

O caminho começa na desolada praia de Cabo Vírgenes, no Atlântico Sul, que marca o início de uma aventura que inclui a reserva provincial Cabo Vírgenes, lar da segunda maior colónia de pinguins de Magalhães da América do Sul.

“Aqui começa a Rota Nacional 40. La Quiaca, 5.080 quilómetros”, lê-se num cartaz ao pé do farol de Cabo Vírgenes. Embora o percurso tenha sido estendido até aos 5.194 quilómetros, é neste ponto que a aventura se inicia, numa praia desolada de cascalho que abre as portas para uma das viagens mais espetaculares do mundo. A Rota 40 não é apenas uma estrada. É uma experiência que encapsula a essência da Argentina e a diversidade das paisagens e culturas.

A 126 quilómetros de Cabo Vírgenes, a Rota 40 segue para sudoeste até chegar à primeira povoação, onde já é possível ver os picos da Cordilheira dos Andes, que a rota acompanha nos próximos 4.700 quilómetros. O logótipo da rota, um condor, simboliza a jornada, até porque a ave, habitual neste território, pode ser vista ao longo de todo o caminho.

Mais a norte, outra paragem. A estalagem La Leona, construída em 1894 por uma família de imigrantes dinamarqueses. Um local histórico que hospedou bandidos famosos como Butch Cassidy, Sundance Kid e Etta Place. Os ladrões americanos escaparam às autoridades numa fuga que os levou até à Argentina e posteriormente à Bolívia.

Não muito distante fica outro marco, este bem mais antigo, a Cueva de Las Manos, ou Gruta das Mãos. Trata-se de um mural com pinturas rupestres a 88 metros de altura, no interior de uma caverna. Estima-se que tenha sido feita por indígenas locais há mais de nove mil anos. É, naturalmente, Património Mundial da UNESCO.

A arte rupeste à vista pelo caminho

Entre percursos diretos e alguns desvios necessários, passam-se por lagos como o Posadas ou o Pueyrredón, até ao coração do Parque Nacional da Patagónia. É por esse local que vale a pena fazer o desvio da Rota 259 para visitar Trevelin e conhecer as cascatas Nant e Fall, rumo a outro destino: o Parque Nacional Los Alerces, declarado Património da Humanidade pela UNESCO.

Ao regressar à Rota 40, o trajeto sinuoso leva os viajantes até Bariloche, com passagens pelas margens dos lagos Guillelmo, Mascardi e Gutiérrez. Por ali mora também o Cerro Catedral, o maior centro de esqui da América do Sul. E chega-se por fim ao principal centro turístico da Patagónia, as margens do lago Nahuel Huapi.

Eventualmente, o cenário muda para um percurso entre vinhas e montanhas, sobretudo na província de Mendoza, onde a primeira grande atração é a reserva La Payunia, um espetáculo natural pouco conhecido, descrito como se fosse uma “paisagem de outro planeta”. Por lá encontra mais de 800 cones vulcânicos, naquela que é uma das áreas com maior densidade de vulcões do planeta.

Mais a norte, a rota passa perto de San Rafael e das suas lagoa e salinas do Diamante, represas Nihuil e Agua de Toro, e o impressionante Cañón del Atuel, com suas figuras esculpidas em pedra. Em San Rafael começa também a rota do vinho de Mendoza que se estende 100 quilómetros a norte, no Valle de Uco, um paraíso de vinhas e adegas modernas aos pés do Cordón del Plata, coroada pelo vulcão Tupungato com quase 6.800 metros. Mendoza foi em tempos o local do quilómetro zero da antiga Rota 40.

A rota segue depois para este, rumo às ruínas de Shincal, considerado o Machu Picchu argentino, que consiste em várias ruínas deixadas pela civilização inca e que se mantiveram incólumes até aos dias de hoje. A reta final da viagem não desilude: de Cafayate e do vale repleto de vinhas e adegas, à impressionante Quebrada de las Flechas, uma formação rochosa pontiaguda que é o local ideal para uma (ou dez) fotografias.

Mais adiante, em Payogasta, surge também o Parque Nacional Los Cardones e, além disso, a Cuesta del Obispo, que desce em curvas até o Vale de Lerma. É aqui que a Rota 40 sobe em ziguezagues até ao seu ponto mais alto, no Abra del Acay, a 4.895 metros acima do nível do mar — a passagem mais alta do mundo de uma rota nacional e a mais elevada fora da Ásia.

A viagem épica termina em La Quiaca. Dizem os especialistas que o percurso ideal pela rota pode levar 17 a 24 dias a completar — e que uma das dicas fundamentais passa por abastecer o depósito sempre que passar por uma bomba. É que o caminho é longo e inóspito.

Carregue na galeria para ver algumas das imagens espetaculares da Rota 40.

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