Viagens

Esta aldeia na China é o paraíso para fotógrafos em busca de paisagens perfeitas

A maioria das fotografias captadas na aldeia retratam encenações promovidas pelos próprios habitantes.
A verdade é que nem tudo é o que parece.

Quando vamos de férias queremos sempre guardar as memórias das nossas viagens. No entanto, há ambientes que não são assim tão propícios a fotografias, especialmente se depois as quisermos partilhar com o resto do mundo.

Xiapu, na província de Fujian (na China), é uma pequena e pacata aldeia. A vida é monótona mas as fotografias tiradas lá são tudo menos isso. Isto porque os habitantes da povoação encenam vários aspetos da sua vida para a tornarem mais apetecível para os disparos dos fotógrafos.

O empenho para obter uma boa imagem é tanto que, muitas vezes, os turistas pagam aos aldeões para posarem para as câmaras — e eles aceitam. Na verdade, até gostam e incentivam a que aconteça. Nalguns cenários naturalmente mais belos foram afixados enormes cartazes a explicar aos turistas o que devem fazer para tirar os melhores retratos possíveis.

Melinda Chan visitou Xiapu em 2013, onde capturou uma fotografia à beira mar com vários homens a pescar. O cenário que os rodeia pode ser comparado ao de uma de uma atração no zoo: estão cercados de fotógrafos em busca da imagem mais memorável. “Alguns dos pescadores foram dirigidos e posaram, embora outros estivessem mesmo a fazer o seu trabalho”, conta Melinda ao “MailOnline Travel”.

Nicolas Monnot, fotógrafo profissional, também tem uma história vivida na aldeia de Xiapu para contar. No Flickr, escreveu no texto que acompanha a fotografia que tirou, que visitou o local em novembro de 2020. “Esta área é famosa na China pelas atividades piscatórias, com muitas redes no mar, que tornaram o sítio num local icónico”, descreve.

Parece natural, mas não é.

“O guia levou-me a um nascer do sol e dei por mim no meio de um grupo enorme de fotógrafos chineses que tiravam milhões de fotografias a seis pescadores que fingiam estar a desempenhar as suas tarefas habituais.”

O fotógrafo revela ainda que a vida daqueles que lá habitam não é tão glamorosa quanto a querem fazem parecer. Na verdade, é tudo fachada.

Alex Berger é outro fotógrafo que passou por Xiapu e se sentiu inspirado a tirar uma fotografia de cortar a respiração. Nela vê-se uma mulher no meio de uma rede gigante. É, no entanto, uma imagem encenada, e Berger não tem medo de o admitir: “Enquanto fotos como esta passam por orgânicas e naturais, a realidade é que são sessões fotográficas pagas”, começa por explicar. “Foram tiradas numa aldeia piscatória real mas o cenário foi cuidadosamente reconstruído num antigo armazém banhado por uma luz natural maravilhosa. É por isso que a rede está tão limpa e perfeitamente colocada, como se estivesse num mar de água”, adianta.

Outro cenário bastante popular é o dos agricultores a atravessarem o nevoeiro com um búfalo. E é também uma das fotos mais artificiais que ali podem ser tiradas. Estes animais já não são usados na agricultura e são usados apenas como adereço. Já o nevoeiro é, na realidade, fumo de palha queimada.

Nem o nevoeiro é real.

Embora Alex Berger também tenha tirado uma fotografia artificial não deixa de criticar outros que também o fazem.  O verdadeiro problema está em não serem totalmente transparentes com a organicidade da imagem captada, frisa. “Penso que a construção não tira o valor da fotografia mas quando muitos fotógrafos tentam fazer passar estes momentos artificiais como sendo autênticos considero de mau gosto”, admite.

Segundo o “The New York Times”, há duas razões que levam os habitantes de Xiapu a glamorizar a sua vida para as fotografias. A primeira é porque sentem a pressão do governo chinês para encorajar o turismo rural. A segunda está simplesmente relacionada com o sentimento de nostalgia em relação a um estilo de vida que a cada dia que passa se desvanece, tornando-se apenas uma memória de quem o viveu. 

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

Novos talentos

AGENDA NiT